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15.3.11

Na morte de um Técnico

Em 1987 eu tinha 15 anos e havia uma rádio que emitia aqui da rua, duma vivenda a 50 metros daqui. Era a Rádio Gente Boa (RGB), uma “rádio livre” (variante de “rádio pirata”, expressão mais agressiva), que eu ouvia sistematicamente e em cujos passatempos participava com frequência. Foi para ir buscar o prémio de um desses passatempos que lá entrei uma vez, num sábado de manhã. Só lá estava uma pessoa, a exercer as funções de locutor, técnico, porteiro e o mais que fosse preciso. Sem estar nada combinado, entrevistou-me sobre os temas da actualidade, improvisando um programa que não estava previsto. Estando eu de saída, ele olhou pela janela e viu um rebanho de ovelhas a passar, conduzido por um velho homem de costas vergadas e segurando um cajado (sim, aqui, a poucos quilómetros de Lisboa, em 1987, ainda havia ovelhas e pastores) e não hesitou: pôs no gira-discos um LP daqueles que dava para ficar a tocar meia hora e saiu disparado, de gravador na mão, para entrevistar o pastor.
Este Homem da Rádio chamava-se Jorge Pena e morreu hoje.
Passados uns meses, já em 1988, ano do centenário de Fernando Pessoa, é através da voz do Jorge Pena (já numa outra rádio – Rádio Clube Atlântico – também aqui perto) que dou por mim fascinado, a ouvir um dos vários programas que ele fez para assinalar a efeméride, com as suas leituras dos poemas daquele Poeta. Assim, mais do que os livros escolares, as antologias ou os extensos estudos sobre a sua vida e obra, foi a Rádio que me deu a conhecer Fernando Pessoa (disse-o aqui, já).
Tempos depois, passei de ouvinte a colaborador da rádio e pude comentar esse fascínio com o Jorge, mas num breve encontro, pois ele já estava praticamente a tempo inteiro, como técnico, na TSF, que também ainda não tinha o famoso “alvará de emissão”. A minha experiência na rádio acabou pouco depois e nunca mais o vi. Fui sabendo vagamente que continuava pela TSF. Agora, com a notícia da sua morte, fico a saber que era o chefe do departamento técnico e o mais antigo dos técnicos daquela rádio.

Pode parecer estranho, mas de todas as vezes (e são frequentes) que me lembro do poema Lisbon Revisited (1923), de Álvaro de Campos, não consigo dissociá-lo da voz do Jorge Pena:

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

4.3.05

ÁLVARO DE CAMPOS

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar ... Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
- Tu que me conheces - quem eu sou...

(segundo dos Dois Excertos de Odes)


ALBERTO CAEIRO

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo por cima dos olhos que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas,
É o de quem olha para as árvores,
E o de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E vê que está a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarras...

(d'Os Poemas de Alberto Caeiro)

20.9.03

ÁLVARO DE CAMPOS

Lisbon Revisited (1923)


Não, não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas complexos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!