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9.4.10

ÁNGEL CRESPO


A opressão do poema


Quem pode suportar a opressão do poema
quando nos atormenta reclamando
o nosso que nele há, o que em nós mesmos
é seu — e nos derrota?

Porque distinguir é impossível
esse instante que não é dia nem noite,
ou saber o momento em que se esquece
o céu de uma tarde, ou se deixa de amar
— porque todo o limite não sabemos.

Como recuperar o que foi nosso
graças ao acto de entregá-lo? Como
restituir um voo de ave?

Do seu e do nosso se levanta,
após queimar-nos, o fogo do poema
— ele vem, já sem palavras, acusar-nos.


(in A Realidade Inteira - Poemas escolhidos (1949-1990), Selecção e Tradução de José Bento, editorial Teorema, 1995 / original de El ave en su aire, 1985)

1.8.05

ÁNGEL CRESPO

COMO LOS INOCENTES ANIMALES


Como los inocentes animales

no comprenden el fuego

y, espantados, se alejan de sus lenguas,

que son luz e consumen

-de igual modo temblamos

ante el brillo interior de las palabras,

hijos, al fin y al cabo, del silencio

que procura envolvernos entre redes

para recuperar su eternidad.


Como los animales:

mas de dentro del fuego nos contempla

la salamandra ambigua

que habita el interior de las palabras.


(de Donde no corre el aire, 1981)


TAL COMO OS INOCENTES ANIMAIS

Tal como os inocentes animais
não compreendem o fogo
e, espantados, se afastam das suas línguas,
que são luz e consomem
-do mesmo modo trememos
perante o brilho interior das palavras,
filhos, ao fim e ao cabo, do silêncio
que nos procura envolver nas redes
para recuperar a sua eternidade.

Tal como os animais:
mas de dentro do fogo contempla-nos
a salamandra ambígua
que habita o interior das palavras.

(tradução minha)

28.8.03

ÁNGEL CRESPO

Nasceu em 1926, em Ciudad Real, Espanha.
Autor de uma importante obra poética, publicada ao longo de mais de quarenta anos, traduziu rigorosamente para o castelhano grandes nomes da literatura mundial, incluindo alguns lusófonos, como Pessoa ou Guimarães Rosa. Foi também crítico e director de revistas literárias, além de Professor de Literatura Comparada em diversas universidades.
Morreu em 1995, em Barcelona.


NOCTURNO

La rosa, como un jarro de agua fresca en lo oscuro,
lo mismo que una música que ardía y se ha cerrado,
puede huir de la mano que sin querer se acerca
y anidar en el hueco que un suspiro le cava:
la rosa, que conoce el vuelo del olvido
apenas a unas plumas las alas se insinúan;
la rosa, única y todas, diamante e instrumento:
no el lirio, experto en todas las traiciones florales.


(de Délficas, in Iniciación a la sombra, Hiperión, 1996)


NOCTURNO

A rosa, como um jarro de água fresca no oculto,
igual a uma música ardendo que se fechou,
pode escapar-se da mão que sem querer se aproxima
e aninhar-se no vazio que um suspiro lhe cava:
a rosa, que sabe o voo do esquecimento
somente a umas penas as asas se insinuam;
a rosa, única e todas, diamante e instrumento:
não o lírio, sabedor de todas as traições florais.

(tradução minha)