Mostrar mensagens com a etiqueta Árabe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Árabe. Mostrar todas as mensagens

13.10.16


ADONIS


SEIS NOTAS DO LADO DO VENTO

4

A poesia, nos nossos dias, expõe-se a um perigo que não vem dela, mas da palavra que se lhe refere. Ela é ofuuscada por essa palavra. O leitor já não lê o poema, lê o poeta, as suas referências, as suas inclinações. Lê o que lhe declaram do poeta e da poesia. O poeta tornou-se para o crítico um meio de afirmar as suas opções, de expor as suas teorias, não de dar acesso ao poema enquanto tal. Trata-se aqui de uma crítica que decifra a poesia por intermédio do mundo. A verdadeira crítica é o seu oposto, desvenda o mundo através da poesia. Acede às energias da própria língua, sem outro instrumento que não seja só a poesia.


(in O Arco-Íris do Instante, introdução, tradução e selecção de Nuno Júdice, Dom Quixote, 2016)

26.9.10

LUIS MANUEL GASPAR



IBN ABDUN DE ÉVORA


JOGO DO DESTINO


Aflige o Destino, depois do olhar, com marcas.
Porquê chorar agora por sombras e quimeras?

Cuidado! Tem cuidado! Nunca é demais lembrar-te:
Entre o dente e a garra do leão não adormeças!

Não deixes que a vida te iluda e entorpeça,
Se o condão dos seus olhos é vigiar sem trégua.

Oh, noites! Queira Deus afastar-nos do seu ócio,
Noites que a Sorte muda, com mão traiçoeira.

O seu prazer engana: é flor que traz no seio
A víbora que ágil se atira a quem a colhe.

De tanta dinastia que Deus favorecera
O que ficou? Há rastos? Pergunta à tua memória!


(ilustração e poema in O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal, nº 2, 11 de Julho 1993/21 de Muharram 1414, «magistralmente transcriada do original por Doina Zugravesco, em estreita colaboração com o Prof. Adel Sidarus» - original in Estudos Árabes n.º 1-1982, Publicações "Universidade de Évora")

5.1.09

[em face dos últimos acontecimentos]

SALIM AL-ZURKALI


PALESTINA


À tua lembrança como se aperta o teu coração!
Como ao som dessa lembrança a tua poesia flui!
Madrassas, hoje submetidas ao silêncio,
Têm a secreta eloquência que cobre de sangue as tribunas.
Elas voltam-se para o seu tempo passado
Em que o poder do seu ensino se espalhava pelo Mundo.

Tão pesada é a nostalgia que corrói o coração das pedras,
Tão triste que consome o espírito no coração do homem.

Madrassas, antigos paraísos,
De ribeiras fecundas e sonoras:
A vida fluía doce por entre as suas sombras,
Mil cores enfeitiçavam o nosso olhar na luz das palavras.

Árabes! Já caminhámos tempo de mais na obscuridade.
Vieram os invasores e devastaram a nossa terra!
Pacíficos, sim, nós éramos pacíficos.
Mas, agora, meus irmãos, despertemos
E esforcemo-nos por manter, com firmeza,
As nossas promessas na fé islâmica!

Contra o agressor,
Vomita, vulcão, vomita a tua cólera,
Porque, ó Palestina, pérola das nossas glórias,
Múltipla coroa em símbolo de dignidade,
O teu Evangelho anuncia a paz
E o teu Alcorão a justiça eterna.

(versão de M. A. R. B., in O Selo – Revista de Cultura Islâmica e Universal / nº 1, 1993)

20.2.08

[Te Deum por uma nova morada #2.]

ANÓNIMO ÁRABE (do Séc. X)

O CANTO DE UMA BAILARINA


O sol gira na minha cabeça
Sou uma palmeira que arde.
E danço, danço,
à espera da chuva do amor.

A lua gira na minha cabeça.
Sou o silêncio e a noite.
E danço, danço,
embalsamando-me de felicidade
com o perfume do teu corpo.

tu és a chama e eu sou o fumo.
Tu és a água e eu sou o fogo.
Tu és a faca e eu sou o fruto.

Dou-te o ouro da minha pele,
as pérolas dos meus dentes,
os dois rubis dos meus seios,
os diamantes esguios dos meus olhos.
Em troca, apenas te peço
que te lembres de mim.

(de O Jardim das Carícias, tradução de Fernando Ilharco Morgado, Farândola, 1995)

14.2.08

[Pretendo continuar #5. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]


IBN 'AMMÂR AL-ANDALUSÎ

Evocação de uma beldade


porque terá a rola de chorar
ao sorrir da leve boca da manhã?
ela canta e bebe em seu afã
lágrimas de um coração a palpitar.

uma moça que a formosura visitou
ser a própria beleza acreditou
ou então sua amiga e companheira.

pelo olhar, é corça amedrontada
e, pelo colo, gazela intimidada
no deserto, de insólita maneira.

seu dorso, c'o salgueiro parecido,
é fonte de desejo ataviada
é canto de rola dolorido.

a boca é flor branca assediada
pelo rubro escuro dos seus lábios.
não a provar é falta condenada
por aqueles todos que são sábios.

traz-me tão inquieto esta donzela (...)
de olhar fatal! é tão frágil ela
como caule das folhas despojado.

a página do seu rosto delicado
vai alterada em terno vestido
que de rosas e chamas é urdido.

é aí que suas mechas de cabelo,
como escorpiões em atropelo,
são vistas pelos olhos do amante.

a brisa quis o sopro: num instante
no vento sul vogaram docemente
até à flama de um desejo ardente.

(tradução de Adalberto Alves, in Ibn 'Ammâr al-Andalusî – o drama de um poeta, Assírio & Alvim, 2000)

27.3.04

[AUTOR ÁRABE DESCONHECIDO]

Um galo que canta, um cavalo que relincha,
um gato que volteia: a aurora.
Um lírio que se inclina, um limão que cai,
uma árvore que estala: meio dia.
As areias que azulecem, os fumos que sobem,
os amantes que se encontram: a noite.

(da colectânea O Jardim das Carícias - traduzido por Joaquim Pessoa, in Os Herdeiros do Vento - Antologia Apócrifa, Litexa, 1984)

4.12.03

HASSAN ABDALLAH AL-QORACHI

Nasceu em Meca, Arábia Saudita, a 12 de Dezembro de 1934. fez os estudos liceais em Fellah e, depois, com interrupções, frequentou a Universidade, em Ryadh, onde seguiu cursos de História.
Após trabalhar no Ministério das Finanças e na Rádio, e com Embaixador do seu país no Sudão e na Mauritânia, Al-Qorachi consagra-se às viagens e à poesia.
Publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais Cor dos Sorrisos, Música Azul, O Lago da Sede e, por último, A Vagabundagem das Caravanas...
O poema antologiado pertence a O Lago da Sede.


PARA QUEM A GLÓRIA

A glória, nesta vida, é para quem paga os seus dias
com tudo o que possui
com pão, com alegria e com sangue
para quem espalha as suas dádivas e dissipa os perfumes
d'alma, do coração que escorre, gota a gota,
do incêndio das dores
A pura glória desta vida é só para quem morre
por um princípio, uma ideia
uma mão-cheia de terra
pelo canto de um pássaro nos jardins amáveis
por uma mulher com o rosto banhado em lágrimas
um sorriso furtivo nas rugas do pai
um chilreio nos lábios da criança
pelo riso do rio
uma tenda que os ventos açoitam de noite
a brotar de uma planta na encosta da montanha


(Versão de Muhammad Abdur Rashid Barahona)

(Apresentação do Autor e poema publicados em O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal nº 3, 11 de Janeiro 1994 / 28 de Rajab 1414)
ABDEL KARIM AKKUM

Poeta algeriano, nascido em 1915 e morto no decurso da revolução em 1959. a sua poesia tem um recorte clássico e versa, além dos trágicos acontecimentos da sua época, temas de meditação sobre a Natureza (o Livro de Deus escrito no visível).
Escolhemos este poema de Abdel Karim, mártir do colonialismo de outrora, em homenagem aos mártires de agora, vítimas de uma minoria de algerianos, que se afastou do Islame e tenta manter, a preço de morte e encarceramento, esquemas políticos e sociais, importados da Europa e em tudo estranhos e adversos à tradicional cultura islâmica do país.


O OCEANO

Eis-me na tua companhia. Diálogo deslumbrante.
Ó oceano! escuta bem este meu canto!
Nós somos dois a misturar os nossos ritmos harmoniosos.
Na vastidão desértica da vida árida
Só tu és meu amigo.
Bastou-me contemplar tua beleza
E logo minha alma triste se alegrou.
E mais do que a presença d'amigos dilectos
Tua presença a solidão preenche nos meus pensamentos.
Tu existes, sim, tu existes, e tal não é suficiente
Para desvanecer, da minha vida, a angústia?
Dize-me, há em ti remédio para as minha feridas?
É em ti que reside a liberdade fora do obscuro?
Ou, por outra, será que tu e eu estamos ambos ligados
À fatal alternância do dia e da noite?
Hoje, ficarei junto de ti até anoitecer.
Eis que te trago a minha esperança, peço-te protecção.
Eu canto o grande movimento da tua música, o espectáculo
Eterno d'altas vagas que se quebram e, muito ao longe, o teu eco legião.

Da beleza tu foste, para nós, o receptáculo. Desde então,
Sem cessar, proclamamos o teu nome.
Tu és eternamente o mistério genitor
D'orgulho e da grandeza.
Harpa de majestade, ó esplendor que explodes,
Meu canto esgota-se ao contacto dos teus sons!
Fonte viva de água vívida, onde a inspiração vem beber os versos,
Fonte fecunda e fixa além d'imensidão,
Tu repousas em paz, quando o vento amaina a sua rápida loucura,
Ou abrasada em fogo, a falar em chamas,
Tu não temes o vento, quando ele ribomba
Como um trovão por sobre a tua espuma,
Quando as nuvens são almofadas pretas a tapar o horizonte
E quando a noite circunscreve a matéria viva à sua face.

Mas, onda após onda, cais enamorado das raparigas
Belas, nuas, de seios rutilantes como estrelas cadentes
No azulíssimo cerúleo da tua água salgada.
Com a tua beleza se enfeitam e paramentam os seios.
Sobre ti, se debruçam, espelho mágico,
Onde cintila, em colares infinitos, o mar dos seixos rolados.


(Versão de Muhammad Abdur Rashid Barahona)

(Apresentação do Autor e poema publicados em O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal nº 2, 11 de Julho 1993 / 21 de Muharram 1414)

28.6.03

DOIS POETAS ÁRABES QUE FALAM FRANCÊS

TAHAR BEN JELLOUN
nasceu em Fez, em 1944

Crianças apaixonadas pela terra
caminham pé descalço sobre a húmida greda
o destino delineado
na asa do pássaro migrante

Ao longe
o dia debruça-se para apagar a pobreza
e amontoar os figos secos da morte

*

O muro
vestido de cal
conta os dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue

(de Arzila / Estação de Espuma – Hiena Editora, 1987 – Colecção Águas Doidas, Trad. de Al Berto)


SALAH STÉTIÉ
nasceu em Beirute, capital do Líbano, em 1929. Apesar de a sua língua materna ser o árabe, escolheu o francês para se exprimir na poesia. Ocupou cargos diplomáticos em várias cidades do mundo. Recebeu em 1995 o Grand Prix de la Francophonie.

Agulha

Estrangeiros conversando sem palavras em todas as varandas da noite
A morte espera no buraco das agulhas
Mas as rosas prudentes abandonaram este círculo
Na sua longa verdade
Pensamento sem anjos
Onde surjo de costas moídas, aparafusadas às cadeiras
De olho faminto na cabeça estilhaçada
Rosto e corpo sob os duros ditames da chuva

Densidade

Atrás das cortinas de árvores
Fica a densidade da lâmpada
Sustentada pela fragilidade

E os homens de sonho
Levam a lâmpada trabalhada pelas suas lágrimas
Por um bosque de poeira
Seus dedos subitamente prudentes
Sobre uma estrela de sombra
Onde corre uma fonte vazia.

Água – 2

É preciso dormir minha cabeça que te acostumes
Aos ramos da noite cruzados sobre o teu destino
À própria ansiedade de sucumbir no mar
Alumiado por veleiros grandes e selvagens

É preciso dormir e desancorar o coração
Ele em traje de mar e tu profunda
Com os teus degraus ainda alegres
Instrumentos de sangrenta festa

É preciso dormir e que os teus degraus
Derramem a sua carga na água nocturna
E regressar com o coração ao seio
De uma festa sem instrumentos ou veleiros

(de Falando só com a pedra – Tradução colectiva revista e prefaciada por Fernando Guimarães, no âmbito de um “seminário de tradução colectiva” da Fundação Casa de Mateus, em Abril de 1999, Quetzal editores, 2000)