Mostrar mensagens com a etiqueta A. M. Pires Cabral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A. M. Pires Cabral. Mostrar todas as mensagens

16.6.11

A. M. PIRES CABRAL


SOU COMO FOLHAS DE ÁRVORE


Sou como folhas de árvore — reparo.
Numerosas, presas ao ramo por pecíolos tenazes,
contudo complacentes com o ar que passa,
e por isso frívolas, mostrando
alternadamente as duas faces.

Assim múltiplo e trémulo sou eu.
Apenas um pouco menos perecível,
julgo. E a figueira a que pertenço
talvez um pouco mais durável
que as de verdade.
Mas isso pode ser impressão minha.


(de As Têmporas da Cinza, edições Cotovia, 2008)

4.12.08

[outros melros LV]

A. M. PIRES CABRAL

MELRO EM GAIOLA


I

Contrariamente aos outros pássaros,
o melro não canta: ri-se. O melro
é uma gargalhada semovente
voando entre as moitas,
deixando
farrapos de riso a esvoaçar nos ramos.

II

Pois bem. Alguém que odeia o riso
encerrou o melro na gaiola.
Alguém a quem o riso à solta
fazia espécie
quis ter aquele riso encarcerado,
à mão de semear.

Alguém capturou o melro e o meteu,
embrulhado no negrume da plumagem,
na gaiola, e pôs a gaiola na varanda.
Por maior escárnio, já se vê.

III

Nos primeiros tempos o melro não cantou
- quero dizer, o melro não se riu.
Quem quer perde o sentido de humor
cerrado numa gaiola.

Mas com o tempo, o silêncio foi-lhe pesando
à medida que ímpetos de riso borbulhavam
com crescente intensidade junto ao bico.

Até que o riso explodiu,
saltou fora como a rolha da garrafa
de champanhe, e eis a gaiola cheia
de canto – perdão, de riso.

IV

Nisto, os melros são como as outras aves,
soltam a voz para dizer: este lugar é meu,
quem quiser disputar-mo tem que se haver comigo.
Dizem-no geralmente a propósito de lugares amplos,
onde caibam voos inteiros e que valha
a pena defender de intrometidos.

Mas o melro na gaiola aprende depressa
a proporcionar o voo e a voz ao espaço que tem.
O impulso é maior do que o espaço disponível.
E canta – isto é, ri-se – como se fosse dono
duma fatia de mundo razoável.

Para o melro,
a gaiola é mesmo assim um espaço
que vale bem a pena defender
a gargalhadas.

V

Lição a reter: as expectativas
são um lugar
só aparentemente degradável.
Podem sempre encolher, mas nunca morrem.

VI

E todavia,
as risadas do melro na gaiola
fazem-se rasgões por dentro
como se em vez de riso fossem pranto.

Porque eu sou como ele:
alguém me reduziu o tamanho do quintal
até o quintal ficar isto que se vê
- e eu a defendê-lo a golpes de riso.

Como o melro, tal e qual.

(in Telhado de Vidro N.º 11 - Novembro 2008)

26.5.06

[mais um prémio para a poesia]

A. M. PIRES CABRAL

Não há poema


Não há poema que valha o oboé
oculto na voz desta cautelosa
ave ribeirinha
que vai monologando numa língua
que os poetas desconhecem

- mas se obstinam em arremedar.

(de Douro: Pizzicato e Chula, livros Cotovia, 2004)

31.1.06

CARL SANDBURG

RÁPIDO


Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.

(tradução de Alexandre O'Neill, publicado no número 4 da série de antologias Tempo de Poesia, s/d)


A. M. PIRES CABRAL

BILHETE A CARL SANDBURG


O meu comboio não é, bem sei,
o mesmo que o teu.
O meu é inoxidável.

Os passageiros sim,
são tal e qual.

E, tal como tu,
viajo acossado por perguntas
vivas como brasas.

E, tal como a ti, também a mim
um passageiro responde
quando lhe pergunto o seu destino:
Omaha.

Não há volta a dar-lhe: todos temos
Omaha por destino.

(de Que comboio é este, Teatro de Vila Real, 2005)

19.6.05

A. M. PIRES CABRAL

AS AVES


1
Diversas, pousam-nos, habitam-nos
por dentro, as aves. Por que milagre
ainda quando negras voam branco?
As aves abundam nos antigos caminhos:
umas são comestíveis, outras têm cores.
O bico, um certeiro utensílio.
Aves flutuantes, a quem são vulneráveis
tão íngremes lugares, convosco
transportai nossas dores, aflições.
Oh, rogai por nós, que recorremos a vós.
Dispensai à funda cidade a graça
de vosso olhar oblíquo e concentrado,
olho após olho, com método
revezado. Alcançai dos astros, de

2
quem sois vizinhas e rivais,
cálidas disposições
favoráveis.
Por que voareis, senão por nosso
(que vos adoramos) benefício?
Depositai-nos nas sôfregas gargantas
gases raros, vitais, trazidos no
precário recipiente dos bicos:
tudo o que venha da altitude tem
um nome ao som do qual nos prostraremos.
As aves, as aves!, a asa refeita
e veloz sobre as cabeças, sobre o vale
de lágrimas, seus guinchos povoando
a tensa solidão desta viagem.

3
Lugar às aves: às que voando
perturbam as vísceras do tempo;
às que nem sempre trazem cura,
mas sim no bico perverso
alimentos letais; às que
(advogadas nossas!)
(de tantas cores!) nos devoram
os sentidos.
Lugar às aves: a gratuita
rapacidade, a existência breve,
os membros exíguos,
de improviso.
Lugar às aves, as sobrevoadoras,
mais leves, mais pesadas do que o ar.

(de Solo Arável, 1976)