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6.4.14

AL BERTO


LÁZARO

é tempo de simulares a ressurreição

ergue-te da eternidade dos astros
escava nas veias três dias mortas
o sonho
e no fundo do espelho respira alegria
sobre o rosto escuro como um mingrólio
acende-te
na humidade sonolenta das mãos
finge a vida
mesmo que permaneças morto
bebe
a perene memória das imagens

levanta-te de mim lázaro
como se fosses água ainda turva
sublima-te com o delicado fulgor da respiração
e não regresses mais à desolação da terra
nem ao contínuo movimento falso
do coração


(da sequência "Sete Poemas do Regresso de Lázaro", in O Medo, Assírio Alvim, 1997 - originalmente em A noite progride puxada à sirga, 1987)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #1]

AL BERTO / PAULO DA COSTA DOMINGOS / RUI BAIÃO

Nasceu em S. João da Ribeira (Rio Maior) a 27 de Fevereiro, 1933. A morte veio a 8 de Agosto de 1978, em Queluz. Pelos motivos habituais dessa dialéctica bem portuguesa que se ilude no luxo de fechar portas na cara dos poucos vivos, enquanto refocila em tudo o que feda moribundo, a Ruy Belo iam-no ignorando. Bom, a sua passagem pela Opus Dei também o prejudicou bastante. A obra tem vindo a ser coligida por 4 volumes graficamente lastimáveis. Assinalável a tradução de Moravagine de Blaise Cendrars.

(nota sobre Ruy Belo, in Sião, frenesi, 1987)

13.6.07

AL BERTO

8


borboletas filiformes sobrevoam estes regatos tardios
escondem-se nos torrões da terra lavrada e desovam
plátanos espalham folhas semelhantes a complicados mapas topográficos

mais além
um acampamento cigano

caminho para a noite mas não tenho frio
é só o início dum provável outono
o acampamento recorta-se em contraluz
quando agressivos insectos trabalham recantos nómadas da memória

os ciganos possuem a sabedoria dos fogos acesos ao entardecer
quem poderá afirmar que um deles
o mais jovem
não aprende o mistério das cartas?
ou a mágica vida das linhas da mão?
a essa hora transmite-se de pai para filho
a arte dos insuspeitos ofícios do coração

as casas surgem de repente iluminadas por dentro
a paisagem envolveu-se de solidão
pressinto a força perfumada da terra subindo
ao medo da recente noite

(de TRABALHOS DO OLHAR, 1979/82, in O Medo, Assírio & Alvim, 1997)

[«vocês precisam é de Saramago... muito»

aconselho a audição de um singular documento disponibilizado por PCD no blog da Frenesi, que também aconselho]