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2.8.17

PAULO VARELA GOMES


Ao sair de Longwood cerca da meia-noite, Anna W. desce para Jamestown ouvindo as quatro últimas canções de Richard Strauss na interpretação daquela que, na sua opinião, é uma das cantoras líricas mais comoventes do século XX, Gundula Janowitz. Canta, ao mesmo tempo que a cantora, a canção 'Ao Adormecer', com letra de Herman Hesse. Eis a adaptação a que o autor se atreve a partir do inglês, sem rima, nem métrica:

«Agora que estou cansado do dia
Desejo ardentemente receber, feliz,
A noite estrelada
Como uma criança que cai no sono.
Mãos, detende a vossa azáfama.
Mente, esquece todo o pensamento.
Agora os meus sentidos
Só querem mergulhar na sonolência
E a minha alma liberta
Voar livremente
Na esfera mágica da noite
para aí viver mil vezes.»


(excerto da penúltima página de Passos Perdidos, Edições tinta-da-china, 2016)


8.4.14

GOTTFRIED BENN


A TI TUDO TENS DE DAR

Dá no teu contentamento,
no morrer, trocados antes
o sonho e o pressentimento,
esta hora, o seu alento
tão de umbelas sussurrantes,
a foice, as marcas do Verão
dos campos orientadas,
bilha e taça de água em tão
doce fadiga inclinadas.

Tens de dar-te tudo, os
deuses nada te vão dar,
dá-te esse leve pairar
por entre rosas e luz,
ao que em céus já azulou
vai-te a seu encanto dando,
o último som passou
escuta-o silenciando.

Fosses o Só tão-somente,
fosse a cerração criada
por ti, ah vai a silente
e pura estrada apagada,
é já a hora, leve desce
a hora do fuso na luz,
em sua roca a parca a tece
e o fuso a cantar conduz.

Fosses a grande ruptura,
o choro em ti se prendeu,
lágrimas são água dura
que sobre pedras correu,
tudo ficou consumado,
nem choro nem ira crus,
tudo em vagas deslumbrado
e teu em rosas e luz.

Hora doce. Envelhecer!
Já oferecido o brasão:
touro entre tocheiros, ver
tochas viradas ao chão,
só de praias, só de um mar
laranja, dos Lidos, fundo
esfingídeo enxamear
guia as sombras a este mundo.

Tudo te deste, assim queiras
dar-te a última alegria,
toma o bosque de oliveiras
e as colunas todavia,
já os membros desfalecem,
teu rosto final traduz
que mensageiros lhe descem
todos em rosas e luz.


(versão de Vasco Graça Moura, in 50 Poemas, Relógio d'Água, 1998)

23.3.14

JOHANNES BOBROWSKI


COM A TUA VOZ

Com a tua voz
fala pela noite
adentro o salgueiro, luzes
voam em seu redor.
No alto, uma flor-de-água
atravessa a escuridão.
Com os seus animais
respira o rio.

Levo para os cálamos
a minha casa entrançada.
O caracol
inaudível
passa pelo meu telhado.
Gravado
na palma das minhas mãos
encontro o teu rosto.


(in Como um Respirar - Antologia Poética, tradução de João Barrento, Livros Cotovia, 1990)

20.6.12


JORGEN THEOBALDY


Uma cerveja, por favor

Eu podia habituar-me a ser uma pessoa
arrumada.  Aqui chega ao fim um dia calmo
todo o dia o telefone esteve calado, e em silêncio quase rebenta
o cesto da roupa debaixo do lavatório.
No écran explode uma casa perante a cara
espantada do locutor.  Oh the fucking news!

O que eu quero é sobretudo amor. Não quero
preocupar-me com a marca das minhas cuecas, das minhas meias
que me oferecem pelo Natal, nos meus anos,
pela Páscoa e no dia em que morrer. Em criança pedia
um comboio e recebia uma camisa
coisa prática! embrulhada em celofane, presa com mil alfinetes.
Este poema não é praticamente nada. Mas pensa bem:
Como há-de desaparecer o que nós não derrubamos, a não ser o sabonete
na água do banho? Estou outra vez a fazer humor, embora não
me sinta  voltado para aí.  Terei mesmo
de lavar a cabeça antes de tu chegares? Lavar a cabeça
é uma recordação terrível...

E depois, amo toda a família, especialmente a minha mulher
que não é da família. Como? Eu não disse nada.
Acabou o noticiário do dia, o dia em noticias, the fucking
news. Hoje houve boas notícias. A  Casa da América
foi ocupada, não digo onde.  Começa o filme
e ainda não lavei a cabeça!
Tu não és a minha mulher. Amo-te. Protege-me
que estou a fumar demais! Fica-se nervoso nesta casa
depois de 1933 e depois de 1945. Estás a ligar alguma coisa ao que eu digo?

De repente encontro-me num café, com grande barulheira
ao balcão. Este poema está cheio de potencialidades
como a nossa vida. Evidentemente que não se passa um dia
sem álcool. Ah, a bebida é que dá gosto à vida.
Mehdi já lá está, bêbado como um cacho.  Também tu já chegaste há
um bocado, e tens razões para não falar comigo.
Vai alta a noite, a música está alta. Peço uma aguardente clara
para a minha cabeça ainda clara. Uma cerveja, por favor. Seja o que for
que tu penses de mim, é importante que eu te diga: também tu
escreveste este poema. Não foi arte nenhuma; foi escrito
de costas para a janela.


(in De Costas para a Janela / Poesia Alemã Contemporânea - I, Selecção e tradução de João Barrento,  colecção O Oiro do Dia, 1981)

30.5.12

BERTOLD BRECHT


MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE

Vós, gente moça de futuros tempos e de
Novas auroras sobre cidades que
Ainda não foram construídas, também
Vós, não-nascidos, ouvi
A minha voz agora, de mim que morri
E não em glória.
Mas sim
Como um camponês que não amanhou a leira e
Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
Do madeiramento aberto do telhado.

Assim desperdicei
Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
Tenho que pedir-vos
Que digais tudo o que não foi dito
Que façais tudo o que não foi feito
E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.

Ai, para que me sentei eu
À mesa dos estéreis, a comer do banquete
Que eles não tinham cozinhado?
Ai, porque misturei eu
As minhas melhores palavras
Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
Andavam os ignorantes
Sequiosos de aprender.

Ai, porque é que
Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
Não sobem elas como fumo
Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
Que fica para trás no céu?

Porque a minha fala
Aos úteis e criadores
Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
Nem uma palavra só
Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
Nem um gesto a apontar com dedo incerto
Vos poderia dar, pois como
Poderia apontar o caminho quem
O não andou!

Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
A minha vida, apelar para vós
Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
Nenhum conselho daqueles que
Assim falharam, mas que só
Decidais por vós próprios sobre o que
Seja bom para vós e vos
Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
E a fazer habitáveis as cidades
Que nós empestámos.


(tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas IV - Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, )

22.2.12


INGEBORG BACHMANN


SALMO

1.

Calai-vos comigo, como todos os sinos se calam!

Na placenta do medo
a escória procura alimento novo.
Sexta-feira santa, pendurada no firmamento,
uma mão, faltam-lhe dois dedos,
não pode jurar que tudo,
tudo aquilo não aconteceu e que nada
acontecerá. Mergulha no vermelho das nuvens
afasta os novos assassinos
e liberta-se.

De noite nesta terra
alcançar as janelas, afastar os linhos,
desvendando a intimidade dos doentes,
uma úlcera suculenta, intermináveis dores
para todos os gostos.

Os carniceiros sustém, enluvados,
a respiração dos despidos,
no umbral a lua cai ao chão –
Deixa ficar os cacos, a asa ...

Estava tudo a postos para a extrema-unção.
(O sacramento não pode consumar-se.)

2.

Como tudo é vão!
Arrasa uma cidade,
ergue-te do pó dessa cidade,
assume um cargo
e finge,
para evitares expor-te.

Cumpre as tuas promessas
diante de um espelho cego no ar,
diante de uma porta fechada ao vento.

Virgens são os caminhos nas escarpas do céu.

3.

Oh olhos, queimados na terra, silo do sol,
carregados com o peso da chuva de todos os olhos,
e agora enredados, tecidos
pelas trágicas aranhas
do presente...

4.

Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.


(de O Tempo Aprazado, tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Assírio & Alvim, 1992 – Gato Maltês)

14.12.11


ERICH FRIED


POEMA MILITANTE

Lembro-me
da minha cólera
e da minha procura
das palavras exactas
para a minha cólera
da última correcção
antes de passar a limpo
da leitura em voz alta só para mim
e por fim da minha
satisfação
que veio pôr termo à minha cólera

E permito-me esquecer
como em vão tacteei
para agarrar as folhas brancas
e tive medo
porque os meus dedos
estão a tornar-se mais desajeitados
e porque o papel químico
me caiu ao chão
antes de passar a limpo
e fiquei tonto
quando o apanhei


PERGUNTAS DE UM POETA MILITANTE

De quanto tempo precisarão vocês
para deixarem
de se indignar
com o que eu digo?

E nessa altura ainda cá estarei
para o dizer?
E será útil ainda
que se diga?

Não será então demasiado incompreensível
ou demasiado evidente?
E não repetirei então como uma gralha:
«Foi o que eu sempre disse?»


(de 100 Poemas sem Pátria, tradução deste poema de João Barrento, publicações Dom Quixote, 1979 - Poesia Século XX)

17.9.11

REINER KUNZE


O BOSQUE EDUCA AS SUAS ÁRVORES

O bosque educa as suas árvores

Desabituando-as da luz, obriga-as
a remeter todo o verdor para as copas
A capacidade
de respirar por todos os ramos,
o talento
de deitar galhos assim só por prazer
vão estiolando

Côa a chuva, prevenindo
a paixão da sede

Deixa crescer as árvores
coruto a coruto:
nenhuma vê mais que as outras,
ao vento todas dizem o mesmo


(de Poemas, traduções de Luz Videira e Renato Correia, Paisagem editora, 1984)

1.9.11

JOÃO BARRENTO


[...]
No contacto com a poesia de Bobrowski percebemos uma coisa essencial que a poesia deste século (pelo menos a portuguesa) em grande parte esqueceu: que o mundo lá fora existe e fala, e pede para ser ouvido e lido. O velho topos romântico do livro da natureza renasce aqui, sempre cruzado com o da História e do mito — e nesse cruzamento reside a sua originalidade —, com uma função próxima da que o filósofo Hans Blumenberg lhe atribui num dos seus fascinantes livros: a de mostrar como o metaforismo da legibilidade do mundo a partir da experiência própria pode ser um eficaz mecanismo poético (e filosófico) de presentificação e revitalização de perdas e ausências. Não era bem assim nos românticos, que exploram esse tema para se instalarem num escapismo muitas vezes regressivo, ou então para chegarem à afirmação da natureza mágica da palavra do poeta-sacerdote, particularmente em Novalis. A fonte mais directa de Bobrowski para a sua forma sui generis de diálogo com o mundo vem-lhe, porém, da própria tradição do espaço lituano das suas origens, onde subsiste a crença pagã nessa capacidade de a natureza «falar»: as coisas falam, basta dar-lhes ouvidos. Mas há sem dúvida reminiscências românticas na visão dinâmica da natureza neste poeta, que permanentemente nos parece querer mostrar como a natura naturata se tornou numa simples fachada, em letra morta de uma natura naturans; ou, inversamente, como esta, precisamente enquanto livro que fala, possui uma energia própria que actua como um sistema de sinais que traçam um mapa da História e itinerários da memória que com ela se confundem. [...]


(excerto da Introdução a Como um Respirar - antologia poética, de Johannes Bobrowski, livros Cotovia, 1990)

2.4.11

HANS MAGNUS ENZENBERGER


E. J. M. (1830-1904)


A sua droga eram os factos. Sempre correcto,
filho de um negociante de vinhos da Cote d'Or, corpulento,
positivista de colarinhos engomados, monóculo,
abotoado, espera, imóvel,
atrás do seu aparelho, por qualquer movimento, à caça
da mais fugaz das presas: a linguagem
dos próprios fenómenos
, um fantasma. Na rue
de l'Ancienne Comédie apresenta-se um novo espectáculo.

O professor aluga palco, sala, bengaleiros.
Tabiques, levantados à pressa: o salão pequeno
com o piano, a oficina mecânica e
(acessíveis por uma série de poleiros) gabinete de trabalho,
cama e arquivo. Resta um espaço enorme,
a pista, encerada a brilhar, e na qual,
diante de panos pretos e brancos, em baloiços,
fios, à luz de candeeiros, se apresentam os factos.

A pomba, atada ao braço de um carrossel,
voa ou algo a faz voar? O rasto
das suas asas é invisível; mas segue-a,
pneumaticamente controlado por um labirinto
de tubos e tambores, um estilete de aço;
tremendo, vai riscando o papel escuro de fuligem.
O que aí escreve e desenha, medindo-se a si mesmo,
é uma alucinação a que se chama «a natureza».

Padrões de elegância matemática, relações
entre frequência e tonalidade muscular, temperatura
e pressão: formas ondulatórias, oscilações, saltos.
Todas as variáveis da locomoção: La machine animale.
No ar e na água. A enguia, o pianista,
o molusco, o coração da salamandra: a tractriz,
a cissóide; curvas de remonte, de intercessão, envoltórias;
espirais, linhas de voo, diagramas... em suma, «o mundo»

é uma ilusão de óptica: nada do que vemos
é «como é», e aquilo que se mostra esconde-se.
Sempre casos mais precisos, instrumentos mais lógicos,
armas mais abstractas. O fisiólogo aponta
com a arma fotográfica automática:
o diafragma abre-se dezasseis vezes por minuto,
e a gaivota branca deixa atrás de si, contra a cortina
preta, uma imagem luminosa sem fim.

Ele ensaia, projecta, constrói a primeira câmara de filmar
do mundo. Não porque queira filmar: quer ver.
Nos Campos Elíseos. um homem desce
da bicicleta; ninguém sabe como.
Só a câmara lenta o pode mostrar. Por isso, ele inventa-a.
O seu teatro enche-se de astrofísicos, médicos,
luminárias da ciência. (Lá mesmo ao fundo da sala,
despercebido, senta-se um certo Edison, capitalista.)

Para estudar um insecto, tenho de construir insectos
E assim o investigador se transforma em demiurgo: falsifica
corações abstractos, pássaros accionados a hélice,
máquinas que respiram. No soalho encerado
rasteja o facsimile de uma cobra. Molda em bronze
o voo da gaivota. Um animal fantástico:
esvoaçar quadridimensional, locomoção congelada,
imobilidade que flui. Tempo que se pode tocar.

Um louco em cujas mãos tudo se transformava em artefacto,
idólatra da ciência da exploração,
cordeiro inocente, terror de Taylor abrindo caminho,
precursor inconsciente de Hollywood, nas horas vagas
artista, inventor contra vontade, Mallarmé
por engano, génio da reprodução: imóvel,
o olho do grande observador observa-nos,
violeta baço, uma íris cega de brometo de prata.


(de Mausoléu, tradução de João Barrento, livros Cotovia, 2004)

11.4.10

ERICH FRIED


O RENASCER DA POESIA


Oh esplendor da linguagem dos escravos
em breve te teremos de novo!
Então também nós poderemos em boa consciência
rever-nos em todas as épocas sobre as quais alguma vez
lemos o suficiente para lhes tomar o gosto
e para as derreter no fogo lento
da nossa vida
em suculentas insinuações

Louvados sejam os poderosos que com a sua habilidade política
nos barram o caminho para a secura da frase simples
e nos enriquecem
conduzindo-nos
à comunhão com outras épocas em que
quase como hoje a precaução estendia a mão à liberdade

Agora já não é preciso pensar em coisas novas
ou descrever qualquer coisa de forma mais exacta do que fácil
Não, a simples alusão com um laivo de coragem
àquilo que todos já sabem
suscita vivos aplausos
e os poderosos concedem aos pequenos a pequena consolação
e toleram quase sempre
o que alivia e não os põe em perigo

Tornam o nosso público
a quem já nada satisfazia
atento e de novo grato
pois o anseio de liberdade
quando a bem-amada
nos atrai ainda envolta em leves véus
é mais belo do que a liberdade
nua e sem pudor
da qual precavidamente nos protegem


(de 100 Poemas sem Pátria, tradução deste poema de João Barrento, publicações Dom Quixote, 1979 - Poesia Século XX)

11.1.09

NELLY SACHS

TERRA DE ISRAEL


Não cantos de luta vos vou eu cantar
Irmãos, expostos ante as portas do mundo.
Herdeiros dos salvadores da luz, que da areia
arrancaram os raios enterrados
da eternidade.
Que nas mãos seguraram
astros cintilantes como troféus de vitória.

Não canções de luta
vos vou eu cantar
Amados,
só estancar o sangue
e as lágrimas, que gelaram nas câmaras da morte,
degelá-las.

E buscar as lembranças perdidas
que rescendem proféticas através da Terra
e dormem sobre a pedra
em que os canteiros dos sonhos enraízam
e a escada da nostalgia
que ultrapassa a Morte.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 - original de Terra de Istrael / Land Israel, 1951)

12.2.08

[Pretendo continuar #3. Novena de desagravo.]

GOETHE

V


Amantes piedosos somos, em silêncio veneramos todos os demónios,
Desejamos cada deus, cada deusa como amigos.
E assim nos assemelhamos a vós, ó Romanos triunfadores!,
Que aos Deuses de todo o mundo ofereceis domicílio –
Esculpidos pelo Egípcio em escuro e sóbrio granito
Ou pelo Grego em mármore branco e gracioso.
Mas não se zanguem os Eternos se vertemos
O precioso incenso a uma das Divinas em especial.
Sim, confessamos oferecer as nossas preces
E o nosso rito diário em particular a uma delas.
Jocosos, alegres e dedicados, celebramos secretas festas
E o silêncio convém a todos os iniciados.
Antes desafiar de perto as Erínias com feitos medonhos,
Antes arriscar sofrer o duro julgamento
De Zeus, as suas rodas e rochedos,
Do que privar o nosso espírito do rito delicioso.
Ocasião se chama deusa! Conhecei-a,
E amiúde vos surgirá ela com variadas feições.
Podia ser filha de Proteu, gerada por Tétis,
Cuja astúcia muitos heróis enganou.
Assim engana agora a filha o inexperiente e o tímido,
Troça do sonolento, esquiva-se ao vigilante.
Com prazer se entrega ao ousado,
Que a encontra mansa, brincalhona, terna e dedicada.
Certa vez também a mim apareceu: Uma rapariga morena,
Cabelos longos e escuros cobriam-lhe a testa,
Pequenos caracóis o gracioso pescoço
E as madeixas soltavam-se frisadas na nuca.
Não a ignorei, agarrei a fugitiva, e docilmente
Logo ela me devolveu o terno beijo e o abraço.
Oh, como me senti feliz! Mas silêncio, o tempo passou,
Agora sois vós, loiras tranças, que como correias romanas me prendeis.

(de Erotica romana, tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro editores, 2005)

29.10.07

EVA CHRISTINA ZELLER

O MAR NÃO CONHECE O MAR


o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
o mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece

(de Sigo a Água, tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado, Relógio d'Água, 1996)

10.2.07

EUGÉNIO DE ANDRADE

(...) Quanto ao Enzensberger, traduzi à pressa os poemas que aí estão para lhe oferecer, como um par de rosas, num jantar para que me convidou, tendo-me ele dado em troca o primeiro exemplar da tradução portuguesa do Almeida Faria. Estivemos a comparar a versão daquele poema onde as palavras são sementes de álamo, ele fascinado com as diferenças, cujo responsável era um cubano amigo dele, de nome Herberto Padilla. Não emendei a minha tradução, naturalmente, para sua alegria.
(...)

(excerto da nota inicial a Trocar de Rosa, Na Regra do Jogo, 1980)


HANS MAGNUS ENZENSBERGER

RAJADA


há palavras
leves
como sementes de álamo

erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não

(tradução de de Eugénio de Andrade in Trocar de Rosa, idem)


ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

(tradução de Almeida Faria, in Poemas Políticos, publicações Dom Quixote, 1975)

25.5.06

[os animais que acompanham o melro de Stevens (aqui e aqui) no poema da entrada anterior]

HOMERO

(...)
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
até que o os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

"Eumeu, que coisa estranha que esse cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
se tem rapidez que condiga com o seu belo aspecto,
ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
que os príncipes alimentam somente pela sua figura."

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
"É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspecto e as capacidades que tinha
quando deixou Ulisses, ao partir para Tróia,
admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas está agora nesta desgraça: o dono morreu longe,
e as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhes dão ordens,
não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
quando chega para ele o dia da sua escravização."

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
e foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.

(excerto do canto XVII da Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, livros Cotovia, 2003)


WILLIAM BLAKE

The Tiger


TIGER, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

[a propósito deste poema, aconselho o mais recente número (o 17, relativo a Outubro de 2005) da revista Relâmpago, da Fundação Luís Miguel Nava, onde se podem encontrar oito versões em português, devidamente comentadas por Manuel Portela]


D. H. LAWRENCE

Snake


A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,
To drink there.

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob-tree
I came down the steps with my pitcher
And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before
me.

He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom
And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of
the stone trough
And rested his throat upon the stone bottom,
i o And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,
He sipped with his straight mouth,
Softly drank through his straight gums, into his slack long body,
Silently.

Someone was before me at my water-trough,
And I, like a second comer, waiting.

He lifted his head from his drinking, as cattle do,
And looked at me vaguely, as drinking cattle do,
And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,
And stooped and drank a little more,
Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth
On the day of Sicilian July, with Etna smoking.
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

And voices in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

But must I confess how I liked him,
How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough
And depart peaceful, pacified, and thankless,
Into the burning bowels of this earth?

Was it cowardice, that I dared not kill him? Was it perversity, that I longed to talk to him? Was it humility, to feel so honoured?
I felt so honoured.

And yet those voices:
If you were not afraid, you would kill him!
And truly I was afraid, I was most afraid, But even so, honoured still more
That he should seek my hospitality
From out the dark door of the secret earth.

He drank enough
And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,
And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,
Seeming to lick his lips,
And looked around like a god, unseeing, into the air,
And slowly turned his head,
And slowly, very slowly, as if thrice adream,
Proceeded to draw his slow length curving round
And climb again the broken bank of my wall-face.

And as he put his head into that dreadful hole,
And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,
A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,
Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,
Overcame me now his back was turned.

I looked round, I put down my pitcher,
I picked up a clumsy log
And threw it at the water-trough with a clatter.

I think it did not hit him,
But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste.
Writhed like lightning, and was gone
Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,
At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

And immediately I regretted it.
I thought how paltry, how vulgar, what a mean act!
I despised myself and the voices of my accursed human education.

And I thought of the albatross
And I wished he would come back, my snake.

For he seemed to me again like a king,
Like a king in exile, uncrowned in the underworld,
Now due to be crowned again.

And so, I missed my chance with one of the lords
Of life.
And I have something to expiate:
A pettiness.

Taormina, 1923


RAINER MARIA RILKE

A pantera


De percorrer as grades o seu olhar cansou-se
e não retém mais nada lá no fundo,
como se a jaula de mil barras fosse
e além das barras não houvesse mundo.

O andar elástico dos passos fortes dentro
da ínfima espiral assim traçada
é uma dança da força em torno ao centro
de uma grande vontade atordoada.

Mas por vezes a cortina da pupila
ergue-se sem ruído - e uma imagem então
vai pelos membros em tensão tranquila
até desvanecer no coração.

(tradução de Vasco Graça Moura, em apêndice a Os Sonetos a Orfeu, Quetzal editores, 1994)


ANTÓNIO OSÓRIO

CAVALO


Um dia chegará
que alguém se mostre
agradecido e diga:
- Entre
e coma à nossa mesa.

(de A Raiz Afectuosa, 1972)


JORGE DE SENA

(...) mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me, nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

(últimas palavras de Homenagem ao Papagaio Verde, in Os Grão-Capitães (contos), 1976)


[O Elogio da Calvície é uma obra do bispo Sinésio de Cirene, traduzido por Manuel João Gomes, Autor do Almanaque dos Espelhos, ambos editados pela & etc]

19.4.06

[500 anos depois - 2]

NELLY SACHS

VOZ DA TERRA SANTA


Ó MEUS FILHOS
A morte passou pelos vossos corações
Como por uma vinha -
Pintou Israel a vermelho em todas as paredes da Terra.

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?
Através dos canais da solidão
Falam as vozes dos mortos:

Deponde sobre o campo as armas da vingança
Pra que elas falem baixo -
Pois também o ferro e o trigo são irmãos
No seio da Terra -

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?

A criança no sono assassinada
Levanta-se; torce pra baixo a árvore dos milénios
E prende a estrela branca anelante
Que outrora se chamou Israel
Na sua coroa.

Reergue-te de novo, diz ela
Pra lá, onde lágrimas significam Eternidade.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 - original de Coros Depois da Meia-Noite / Chöre Nach der Mitternacht, 1946)

2.11.05

HÖLDERLIN

TERRA NATAL


Alegre regressa o marujo ao rio tranquilo,
De longínquas ilhas, quando colheu seu lucro;
Também eu voltaria assim à terra natal, tivesse eu
Tantos bens colhido como dores colhi.

Ribeiras queridas, que outrora me criastes,
Acalmais vós as dores do amor? Prometeis-me vós,
Bosques da minha juventude, se eu
Voltar, mais uma vez repouso?

Junto ao regato fresco, onde vi brincar as ondas,
Junto ao rio, onde vi singrar os barcos,
Em breve eu estarei; a vós, montes amigos
Que outrora me abrigastes, da minha terra

Seguras fronteiras veneradas, à casa materna
E aos abraços dos irmãos amado,
A todos saúdo em breve, e vós me envolvereis,
Que, como em faixas, o coração me sare,

Ó meus fiéis! Mas eu sei, eu sei,
A dor do amor, essa não cura tão breve,
Essa não me afasta do peito
Nenhuma canção de embalo, que mortais cantem.

Porque aqueles que nos dão o fogo celeste,
Os deuses, também nos dão a dor sagrada.
Por isso esta fique. Filho da terra
Pareço eu: feito para amar, para sofrer.

(tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997)

20.6.05

BERTOLT BRECHT

UNICAMENTE POR CAUSA DA DESORDEM CRESCENTE

Unicamente por causa da desordem crescente
Nas nossas cidades com as suas lutas de classes
Alguns de nós nestes anos decidimos
Não mais falar dos grandes portos, da neve nos telhados, das mulheres,
Do perfume das maçãs maduras na despensa, das impressões da carne,
De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas
Falar só da desordem
E portanto, ser parciais, secos, enfronhados nos negócios
Da política, e no árido e «indigno» vocabulário
Da economia dialética,
Para que esta terrível pesada promiscuidade
Das quedas da neve (elas não são só frias, nós bem o sabemos),
Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes,
Não nos leve à aceitação deste mundo tão diverso
Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta.

Vocês entendem.

(tradução de Arnaldo Saraiva, com a colaboração de Sylvia Deswarte in Poemas, Presença, 1976 - colecção forma)

8.5.05

[no aniversário do fim da guerra]

GÜNTER KUNERT

SOBRE ALGUNS QUE ESCAPARAM


Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse:
Nunca mais.

Pelo menos não já.

(Tradução de Yvette Centeno in 90 Poemas, apáginastantas, 1983)