Mostrar mensagens com a etiqueta Americana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Americana. Mostrar todas as mensagens

14.5.17

JOHN ASHBERY


PARERGON

Somos felizes no nosso modo de vida.
Não faz muito sentido para os outros. Sentamo-nos para aqui,
Lemos, e andamos irrequietos. Por vezes é altura
De baixar a escura persiana sobre tudo isto.
A entidade que somos revolve num transe auto-induzido
Como o sono. Sem ruído o nosso viver pára
E entra-se como que num sonho
Nesses domínios respeitáveis onde a vida é imóvel e viva
Para entoarmos as únicas palavras que sabemos:

«Oh homens doloridos! Porquê tanto choro,
Tanta desolação nas ruas?
É o presente de carne, o que cada um de vós
No irregular caixilho da sua janela deveria manejar,
Nervoso até à sede e à morte última?
Entretanto o verdadeiro caminho é dormir;
Os vossos actos legítimos bebem um repouso insalubre
Do inclinado rebordo deste vaso, em segredo,
Mas é sempre altura de mudar.
Que certas faltas por omissão fiquem impunes
Não enfraquece a vossa posição
Mas este arbusto rasteiro em que vos segurais
É consequência sua. Adeus então,
Até que, sob um olhar melhor,
Possamos encontrar-nos consumidos, pois unicamente fazê-lo
Não passa de uma desculpa. Necessitamos do laço
De entrar nas vidas uns dos outros, olhos bem separados, a chorar.»

Como alguém que avança em frente vindo de um sonho
O forasteiro deixou aquela casa num passo apressado
Deixando para trás a mulher com cara em forma de ponta de seta,
E todos os que para ele olhavam interrogavam-se sobre
A estranha azáfama à sua volta.
Com que rapidez as caras se acendiam quando passava!
Era notável como ninguém dizia nada
Para deter o rio do seu passar
Subido agora a níveis de inundação, enquanto no passeio cheio de sol
Ou no resguardo de algum átrio
Ele gozava o seu prazer, selvagem
E meigo com aquilo que contemplava.
Mas todos sabiam que ele só via aspectos,
Que a continuidade era feroz para lá de qualquer devaneio de que durasse
E virou a cabeça para o lado, e deste modo
A lição se espraiou pelo interior da noite:
Alegres os brilhos, e no escuro mais escuros ainda,
Embora de uma alegria imortal, apanhada naquela ratoeira.



(in Auto-Retrato num Espelho Convexo e Outros Poemas, tradução de António M. Feijó, Relógio d’Água editores, 1995 / original de The Double Dream of Spring, 1976)

24.12.15

WILLIAM CARLOS WILLIAMS


O POEMA 

Tudo está
no som. Uma canção.
Raramente uma canção. Deveria

ser uma canção  com
pormenores, vespas,
uma genciana — algo
imediato, tesouras

abertas, olhos
de mulher  centrífuga
ao despertar, centrípeta


(in Antologia Breve, tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1995)

11.10.14

RUTH FAINLIGHT


ESSA PRESENÇA

Como um pintor afastando-se do cavalete,
erguendo-se da mesa de trabalho
com o pincel cheio de tinta, para ver melhor
onde é preciso outro toque de vermelho, como
um tapeceiro ponderando se chegou
a altura de mudar o padrão, um escultor
hesitando antes do primeiro e decisivo corte,
medito um poema, repetindo palavra por palavra,
tentando entender onde é preciso alterar uma nota,
testando a respiração, o sentido e a sorte,

como quem fita a superfície de um espelho
através dos insondáveis níveis entre vidro e prata
até às pupilas dessa presença reflectida
que por cima do meu ombro emerge das suas profundezas.


(in Visitação, tradução colectiva em Mateus, Quetzal editores, 1995)

18.1.14

CHARLIE CHAPLIN, citando HART CRANE


Por intermédio de Waldo [Frank] conheci Hart Crane e jantámos os três muitas vezes no pequeno apartamento que Waldo tinha na Village, onde discutíamos até à hora do primeiro almoço do dia seguinte. Eram discussões apaixonantes, em que nos esforçávamos por alcançar a definição subtil dos nossos pensamentos.
Hart Crane vivia na maior pobreza. O pai, fabricante rebuçados milionário, queria que o filho entrasse para o negócio e tentava desencorajá-lo da poesia, cortando-lhe os víveres. Não tenho nem o ouvido nem o gosto afeitos à poesia moderna, mas enquanto escrevia este livro li The Bridge (A Ponte) de Hart Crane, obra à qual confiou todas as suas emoções, livro estranho e dramático, cheio de angústia lancinante e de mordaz sentido da imagem, para mim de agudeza um tanto excessiva. Mas talvez que em Hart Crane semelhante excesso fosse inato. No entanto, era dotado de grande afabilidade.
Discutimos o intento da poesia. Eu disse que a poesia era uma carta de amor dirigida ao mundo. «Um mundo muito pequeno», respondeu Hart com tristeza. Considerava que a minha obra se mantinha na tradição das comédias gregas. Confessei-lhe que tentara ler uma tradução inglesa de Aristófanes, mas não conseguira nunca lê-la até ao fim.
Hart acabou por receber uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim, mas tarde de mais. Ao fim de anos de pobreza e abandono, entregava-se à bebida e à libertinagem e, quando regressava num barco de passageiros do México para os Estados Unidos, atirou-se ao mar. 
Uns anos antes de se suicidar, mandou-me um livro de poemas curtos intitulado White Buildings (Edifícios Brancos), publicado por Boni Liveright. Na página de guarda, escreveu: «A Charlie Chaplin, lembrança do Kid, de Hart Crane. 20 de Janeiro de 1928.» Um dos poemas intitulava-se Chaplinesque: 

Vamo-nos adaptando humildemente,
Contentes dessas ocasionais consolações
Como as que o vento deposita
Em fundas, excessivas algibeiras.

Ainda podemos amar o mundo, os que encontramos
Um gatinho esfaimado à porta, e sabemos
Onde abrigá-lo do furor da rua
Numa caminha tépida de penas.

Esquivar-nos-emos, e até ao derradeiro esgar
Adiaremos a sentença do polegar inevitável
Que lentamente aponta para nós a falange enrugada,
Encarando os olhares vesgos com que inocência
E que surpresa!

E no entanto essas quedas subtis não são mais falsas
Que os molinetes duma bengalinha;
Os nossos funerais não são, no fundo, um empreendimento.
Podemos fugir-vos, e de tudo, mas não do coração:
Que havemos de fazer, se o coração palpita?

O jogo impõe sorrisos afectados,
Mas nós vimos a lua nas vielas desertas
Desencadear bátegas de gargalhadas dum balde do lixo vazio,
E através dessa algazarra ouvimos
Um gatinho a miar na solidão.



(in Autobiografia, tradução de António Lopes Ribeiro, Ulisseia, 1965)

4.1.14

[faz hoje 49 anos que morreu]

T. S. ELIOT


PRELÚDIOS

I

A tarde de Inverno instala-se
Com o cheiro de bifes nas passagens.
Seis horas.
Os fins queimados de dias fumarentos.
E agora uma chuvinha borrascosa embrulha
Os sujos fragmentos
De folhas aos nossos pés
E jornais vindos de lotes de terrenos vagos.
Os aguaceiros batem
Em gelosias partidas e vasos da chaminé,
E na esquina da rua
Um cavalo de trem, solitário, fumega e bate com as patas no chão
Depois, acendem-se os candeeiros.

II

A manhã toma consciência
De um leve e choco cheiro a cerveja
Que vem da rua juncada de serradura
Com todos os pés que se apressam
Para os estabelecimentos matinais de café.
Entre os outros mascarados
Que o tempo continua
Lembramo-nos de todas as mãos
Que estão a erguer estores sujos
Num milhar de quartos mobilados.

III

Arrojaste o lençol da tua cama
Deitaste-te de costas, e esperaste;
Dormiste, e a noite revelou-te
As milhentas sórdidas imagens
De que a tua alma era formada;
Voltejaram tontas contra o tecto.
E quando o mundo todo regressou
E a luz se infiltrou entre as portadas,
E ouviste os pardais pelas sarjetas.
Tiveste uma visão da tua rua
Que a própria tua rua não conheceria;
Sentada na borda da cama, onde
Tiraste os papelotes do cabelo
Ou pegaste nas plantas amarelas dos teus pés
Com as palmas sujas das mãos ambas.

IV

A sua alma esticada firme nos céus
Que se apagam atrás de um quarteirão
Ou pisada por insistentes pés
Às quatro horas e cinco e seis horas;
E dedos curtos e quadrados enchendo cachimbos
E jornais da tarde, e olhos
Seguros de certas certezas
A consciência de uma rua escurecida
Impaciente de assumir o mundo.

Comovo-me por fantasias que se curvam
À volta destas imagens, e persistem;
A noção de uma coisa infinitamente gentil
E infinitamente sofredora.
Limpa a boca com a mão, e ri;
Os mundos andam à roda como mulheres velhas
A colherem madeira nos lotes vagos.


(in Antologia Poética, estudo prévio, selecção e tradução de José Palla e Carmo, publicações Dom Quixote, 1988 - Poesia Século XX)

14.12.13

EMILY DICKINSON


The Poets ligh but Lamps
Themselves — go out — 
The Wicks they stimulate —
If vital Ligh

Inhere as do the Suns — 

Each Age a Lens 
Disseminating their 
Circunference —

[c. 1864]


Os Poetas acendem Lâmpadas —
Mas eles próprios — se apagam —
As Torcidas que espevitam —
Se Luz vital

Como aqui são as dos Sóis —
As Eras Lentes
Disseminando a deles
Circunferência.


(tradução de Jorge de Sena, in 80 Poemas, edições 70, 1979)


Não faz mais do que acender Lâmpadas —
O Poeta — e vai-se embora —
São os Pavios que ele activa —
Se a Luz vive

Sempre, como um Sol —
Cada Época é uma Lente
Disseminando a sua
Esfera —


(tradução de Nuno Júdice, in Poemas e Cartas, Livros Cotovia, 2000)


Os Poetas apenas ateiam Chamas —
Eles próprios — extinguem —
Os Pavios que acendem —
Se a Luz vital 

E inerente como nos Sóis —
Cada Idade uma Lente
Disseminando-se
Circularmente —


(tradução de Cecília Rego Pinheiro, in Esta é a Minha Carta ao Mundo e outros poemas, Assírio & Alvim, 1997) 


Os Poetas só Lâmpadas acendem —
Eles próprios — extinguem-se —
E os Pavios que estimulam —
Se a Luz da vida

De si mesma se gera como os Sóis —
Cada Era uma Lente
Disseminando a sua
Circunferência —


(tradução de Ana Luísa Amaral, in Cem Poemas, Relógio d'Água, 2010)


2.11.13

THOM GUNN


Sempre ao Redor
O mundo do faroleiro é redondo,
os seus haveres erguendo-se num círculo
— Lá dentro tudo o que o homem pode desejar,
Uma mulher, um rádio, pão, geleia, sabão;
Porém, aos poucos a sua esperança fatigada
Irrompe para viver sobre o som
Que as ondas rodopiando fazem ao rebentar
À custa do seu próprio esforço
— O mundo do faroleiro é redondo.

Interroga-se, subindo a escada em caracol
para dirigir a lanterna que ilumina os barcos,
Por que razão aquilo que sempre foi dele se ergue
Com o rosto voltado para o centro;
Dos livros, amontoados nas mesas, aprendeu
Que os mundos do litoral são também redondos, não quadrados,
Mas lá as coisas dançam com os rostos voltados
Para o exterior: rostos de medo e dúvida?
Interroga-se, subindo a escada em caracol.

Quando há acalmia, são seguros os rochedos
Para fazer um pouco de exercício,
Mas tudo o que faz é fixar os seus olhos
Sobre aquele totem enorme de onde saiu
E onde os pensamentos dançam em redor do que não mudará
— O seu secreto e silencioso desgosto.
As ondas não têm sol, mas são apanhadas pelos raios
Ao rolarem mais abaixo dos seus pés, perverso sal,
Quando, numa acalmia, são seguros os rochedos.




(tradução de Maria de Lourdes Guimarães, in A Destruição do Nada e outros poemas, Relógio d'Água, 1993)

29.10.13

N. SCOTT MOMADAY


Cemitério da Montanha Chuvosa

O teu nome é quase todo ele o nome desta pedra escura.
Transtornado na morte, com a mente para sempre
Unida ao imaginário desconhecido,
Aquele que aqui e agora escuta para ouvir o teu nome
Ouve a velada do audível nada.

Corre pela planície o sol da madrugada, rubro como o luar do caçador.
A montanha incendeia-se e brilha;
O silêncio é o meio-dia aproximando-se lentamente
Da sombra que o teu nome explica -
E a morte esta fria e negra densidade da pedra,



(tradução de Júlio Henriques, in "Flauta de Luz - Boletim de Topografia", N.º 1 / Janeiro de 2013)

2.10.13

WALLACE STEVENS


XIX

Quem me dera que pudesse reduzir o monstro a
Mim mesmo, e pudesse então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais do que parte
Dele, mais do que o monstruoso tocador de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não ser
Só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas em simultâneo numa,
E tocar do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor, não de mim mesmo de modo algum,
Mas de algo como a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Perante o leão encerrado em pedra.


(de O Homem da Viola Azul, tradução de Maria Adelaide Ramos, Relógio d'Água, 2005 / The Man with the Blue Guitar, 1937)
ROBERT BRINGHURST


II

O pássaro é da cor do bronze duro
à luz solar, porém agora é meia-noite;
o pássaro da cor do bronze duro
à luz solar voando agora
sob a Lua.

Há um ponto em que
os meridianos se encontram num nó
de nada e uma região
onde os meridianos se desfiam e entrelaçam,
mas não como linhas ancoradas; desfiam-se
quais condutoras e arrastadas bordas
de asas, correndo do vazio
para o músculo e do músculo de novo se esticando para trás.

Escuta: os sons são os sons dos meridianos
chilreando, meridianos arrastados para produzirem
a ilusão de plectro, afinando cravelhas e um arcaboiço,
ou porventura a fim de produzirem a audição
de Elias: a pele
do silêncio a salgar,
sendo curtida,
endurecendo para o interior do vento.

Ou então os sons são os sons do ar a abrir-se
sobre o bico e a fechar-se sobre as asas,
abrindo-se por sobre o inamovível carregamento amarrado
entre a espinha e a garra,
amarrado entre o osso da asa e o cérebro.



(de A Beleza das Armas, tradução de Júlio Henriques, Antígona, 1994)

16.6.13

D. H. LAWRENCE


ANAXÁGORAS

Quando Anaxágoras afirma: Até a neve é negra!
é tomado muito a sério pelos sábios
pois está a enunciar um «princípio», uma «lei»:
todas as coisas estão misturadas, logo na mais pura neve branca
existe um elemento de negrume.

A isto chamam eles ciência e realidade.
Por mim, chamo-lhe pedantismo mental e mistificação
e coisa absurda pois para nós é branca a neve pura
branca branca e só branca
esplendor belíssimo de brancura no branco
delícia de alma onde os sentidos
conhecem o êxtase.

E a vida é para o êxtase a delícia
o terror e a negra profecia revolta do destino;
depois é a aurora radiosa da delícia renascida
que vem da brancura absoluta da neve ou da lua imóvel.

E na sombra do sol a neve é azul, azul tão sobranceiro
com laivos de campânulas geladas da flor de cila
mas sem sombras nem sinais do luto de Anaxágoras.



(versão de João Almeida Flor, in Gencianas Bávaras e outros poemas, Na Regra do Jogo, 1983)

27.7.12


D. H. LAWRENCE


COBRA

Uma cobra abeirou-se da gamela
Num dia de calor, tanto calor e eu de pijama,
Para beber da minha água.

Na sombra funda de perfume estranho da grande alfarrobeira escura
Desci os degraus de cântaro na mão
E tive de ficar, ficar ali à espera pois na gamela à minha frente estava o réptil.
Ele desceu por uma fenda do muro de terra na sombra
E no bordo da gamela de pedra arrastou devagar o ventre fulvo e mole
E encostou o pescoço no fundo de pedra
E numas pingas límpidas de água escorrida da torneira
Bebeu aos poucos por fauces lisas
Bebeu de leve por gengivas lisas enchendo o corpo lento e longo

Em silêncio.

Alguém chegara primeiro à minha gamela de água
E eu que vim depois fiquei à espera.

Ergueu a cabeça depois de uns goles tal como o gado
E fitou-me vagamente como faz o gado a beber,
A língua saía-lhe da boca, bífida, súbita; alheou-se um momento
E inclinou-se a beber um pouco mais
Castanho como terra, terra de oiro, saído das entranhas da terra ardente
Nesse dia siciliano de Julho, com o Etna em fumos.

As vozes da minha educação diziam
Que tinha de ser morto esse réptil
Pois na Sicília não há mal nas cobras todas negras mas nas douradas há venenos.

E aquelas vozes em mim diziam: Se fosses homem
Pegavas num pau, partias-lhe a espinha e era o fim.

Será preciso confessar que gostei dele
Que era bom ele ter vindo, convidado silente, beber da minha água
E poder voltar em paz, apaziguado, sem mesmo agradecer
Para as entranhas ardentes dessa terra?

Era cobardia não ousar matá-lo?
Era perfídia querer tanto falar-lhe?
Era humildade sentir tanta lisonja?
E era tanta a lisonja que eu sentia.

E todavia aquelas vozes:
Se não fosses medroso, havias de matá-lo!

Tinha medo na verdade um grande medo.
Ainda assim, maior era a lisonja
Pois ele viera ao meu quintal pedir guarida
Saindo a porta escura da terra de mistério.

Deu-se por satisfeito,
E levantou a cabeça no olhar ausente de quem já bebeu
E a língua súbita saía-lhe da boca como negra noite bífida nos ares
Parecia lamber o lábio
E como um deus olhou os ares em volta, sem ver,
E virou a cabeça devagar
E devagar, devagar como se em triplo sonho
Dispôs-se a desenrolar o seu lento comprimento
E a trepar de novo pela rampa em ruína do meu muro.

E enquanto metia a cabeça naquele buraco horrendo
E se erguia devagar num espreguiçar de réptil que se enterra,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra o seu regresso àquele buraco negro e horrendo
Contra aquele retorno deliberado à escuridão no arrastar lento do corpo
Apossou-se de mim ao vê-lo de costas.

Olhei em volta, pousei o cântaro,
Peguei num pau grosseiro
E atirei-o à gamela num estalido.

Acho que não lhe acertei
Mas o resto do corpo entrou de repente em convulsão brusca e descomposta
Contorceu-se como relâmpago e sumiu-se
No negro buraco, na fenda de bordos térreos da face do muro;
Olhei fascinado na luz do meio-dia intensa e calma.

E arrependi-me no mesmo instante.
Pensei que fora um gesto ignóbil, perverso, obsceno!
Tive nojo de mim e das vozes da minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz
E desejei que voltasse a minha cobra.
Pois esse réptil parecia-me um rei de novo
Rei exilado deposto sem coroa no mundo subterrâneo
Prestes a ser de novo coroado.
Perdi o ensejo concedido por um dos soberanos da vida.
E tenho de expiar uma atitude: Ser mesquinho.


(in Gencianas Bávaras e Outros Poemas, versão de João Almeida Flor, Na Regra do Jogo, 1983)

19.2.12


MARIANNE MOORE


A EMBALSAMADA POLÍTICA

Nada há a dizer a teu favor. Guarda
o teu segredo. Oculta-o sob a tua plumagem
          áspera, necromante.
                    Ó
ave, cujas tendas foram "toldos de fio
egípcio", a vaga inscrição em ziguezague da Justiça
          – inclinando-se como uma bailarina –
                    há-de mostrar
a força da sua soberania outrora viva?
Dizes que não, e transmigrando do
          sarcófago, tu és como o vento,
                    a neve,
o silêncio à nossa volta, com a voz de um moribundo,
semi-titubeante e semi-senhoril, tu espias
          em redor. Íbis, em ti qualquer virtude
                    não
existe – tu, que estás viva, mas tão silenciosa.
O comportamento discreto não é agora a síntese
          do bom senso do estadista.
                    Mesmo
que fosse a encarnação da graça morta?
Como se uma máscara da morte pudesse alguma vez substituir
          a excelência imperfeita da vida!
                    Lenta
até para reparar no íngreme e rígido equilíbrio
do teu trono, hás-de ver a forte distorção
          dos sonhos suicidas
                    passar
cambaleante em sua direcção e com o bico
atacar a sua própria identidade, até
          o inimigo parecer amigo e o amigo parecer
                    inimigo.


(in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras, 1999 – colecção Aprendiz de Feiticeiro)

20.1.12


W. S. MERWIN


The Stranger

After a Guarani legend recorded by Ernesto Morales


One day in the forest there was somebody
who had never been there before
it was somebody like the monkeys but taller
and without a tail and without so much hair
standing up and walking on only two feet
and as he went he heard a voice calling Save me
as the stranger looked he could see a snake
a very big snake with a circle of fire
that was dancing all around it
and the snake was trying to get out
but every way it turned the fire was there
so the stranger bent the trunk of a young tree
and climbed out over the fire until he
could hold a branch down to the snake
and the snake wrapped himself around the branch
and the stranger pulled the snake up out of the fire
and as soon as the snake saw that he was free
he twined himself around the stranger
and started to crush the life out of him
but the stranger shouted No No
I am the one who has just saved your life
and you pay me back by trying to kill me
but the snake said I am keeping the law
it is the law that whoever does good
receives evil in return
and he drew his coils tight around the stranger
but the stranger kept on saying No No
I do not believe that is the law
so the snake said I will show you
I will show you three times and you will see
and he kept his coils tight around the stranger's neck
and all around his arms and body
but he let go of the stranger's legs
Now walk he said to the stranger Keep going
so they started out that way and they came
to a river and the river said to them
I do good to everyone and look what they
do to me I save them from dying of thirst
and all they do is stir up the mud
and fill my water with dead things
the snake said One
the stranger said Let us go on and they did
and they came to a caranda-i palm
there were wounds running with sap on its trunk
and the palm tree was moaning I do good
to everyone and look what they do to me
I give them my fruit and my shade and they cut me
and drink from my body until I die
the snake said Two
the stranger said Let us go on and they did
and came to a place where they heard whimpering
and saw a dog with his paw in a basket
and the dog said I did a good thing
and this is what came of it
I found a jaguar who had been hurt
and I took care of him and he got better
and as soon as he had his strength again
he sprang at me wanting to eat me up
I managed to get away but he tore my paw
I hid in a cave until he was gone
and here in this basket I have
a calabash full of milk for my wound
but now I have pushed it too far down to reach
will you help me he said to the snake
and the snake liked milk better than anything
so he slid off the stranger and into the basket
and when he was inside the dog snapped it shut
and swung it against a tree with all his might
again and again until the snake was dead
and after the snake was dead in there
the dog said to the stranger Friend
I have saved your life
and the stranger took the dog home with him
and treated him the way the stranger would treat a dog

1993


(recebido, em tempos, por email, sem referências à publicação original)

20.7.11

WILLIAM CARLOS WILLIAMS


UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO


Que a víbora espere sob
as ervas daninhas
e a escrita
se faça de palavras, lentas e rápidas,
prontas ao ataque, aguardando pacientemente,
em vigília.

— e através da metáfora reconciliem
as pessoas e as pedras.
Compõe. (Ideias
só nas coisas) Inventa!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.


(in Antologia Breve, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1995 - Gato Maltês / original de The Wedge, 1944)

16.5.11

CHARLES SIMIC


CHEGADA TARDIA


O mundo já aqui estava,
Plácido na sua estranheza.
Só faltava que chegasses
No comboio do fim da tarde
Aonde ninguém te esperava.

Uma cidade que ninguém recordava
Por causa da sua insipidez,
Onde te perdeste
Procurando um lugar para ficar
Num labirinto de ruas idênticas.

Foi então que ouviste,
Como se fosse a primeira vez,
O som dos teus passos
Debaixo do relógio de uma igreja
Que tal como tu parara

Entre duas ruas vazias
Brilhando ao sol da tarde,
Dois pedaços modestos de infinito
Para te surpreenderem
Antes de retomares a caminhada.


(de Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

2.10.10

GREGORY CORSO


POETAS PEDINDO BOLEIA NA AUTO-ESTRADA


Claro que tentei dizer-lhe
mas ele virou a cara
_____sem uma desculpa.
Disse-lhe que o céu persegue
_____o sol
E ele sorriu e disse:
_____«Para que serve isso.»
Eu sentia-me como um demónio
_____de novo
Por isso disse: «Mas o oceano persegue
_____os peixes.»
Desta vez riu-se
_____e disse: «Suponho que
__________os morangos foram
_______________empurrados para uma montanha.»
Depois disso vi que a
_____guerra estava declarada...
Então lutámos:
Ele disse: «A carroça das maçãs como um
____________________anjo numa vassoura
_______________racha & lasca
____________________velhos tamancos holandeses.»
Eu disse: «O relâmpago vai cair no velho carvalho
_______________e libertar os fumos!»
Ele disse: «Rua louca sem nome.»
Eu disse: «Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca!»
Ele disse, perdendo mesmo a cabeça,
__________«Fogões! Gasolina! Divã!»
Eu disse, sorrindo apenas:
__________«Sei que Deus voltaria a cabeça
__________se me sentasse calado e pensasse.»
Acabámos por evaporar-nos,
_____odiando o ar!


(in Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1973)

5.5.10

RUSSELL EDSON

UM OBSERVADOR DE ACASOS


Um seixo no chão. Outro. Um grupo, uma colónia deles...
Parecem ter deixado entrar uma casca de árvore na sua companhia. Mas será que deixaram? Ou foi a casca que se fez convidada?
Talvez possamos ter o privilégio de assistir a mais um exemplo de acaso...

Uma cabeça de formiga separada do corpo. Será um troféu, ou é apenas mais uma possibilidade que encontramos em colecções cujo único critério é não estarem os objectos que as constituem ainda mais separados?

É uma questão de espaçamento. Quão distantes podem as coisas estar umas das outras e, ainda assim, considerarem-se um grupo.
Uma questão de tempo. A coincidência que permite que os seixos e a tal casca se sobreponham a uma cabeça de formiga.
Já para não falar daquele que, ao observar esta cena, também passa a pertencer ao grupo.
É um intruso? Ou é simplesmente aceite numa democracia inconsciente de acasos?
Talvez seja mais simples dizer que a maior parte das vezes passa despercebido como qualquer outro acaso.

Ainda assim, se tivesse um desses seixos para poder observar o acaso mais de perto, deslocá-lo-ia do seu contexto e transformá-lo-ia num monumento do acaso...

Conclusão: O acaso é meramente teórico. Pois se dele nos apercebermos, imediatamente se desloca para o centro da nossa atenção, fazendo com que tudo o mais participe do acaso, incluindo o observador de acasos...

(de O Espelho Atormentado, tradução de Guilherme Mendonça, OVNI, 2008)

17.4.10

WALLACE STEVENS


SEIS PAISAGENS SIGNIFICATIVAS


I

Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuis e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.


II

A noite é da cor
Do braço de uma mulher:
Noite, a fêmea,
Obscura,
Fragrante e flexível,
Encobre-se.
Uma lagoa brilha,
Como uma pulseira
Agitada numa dança.


III

Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.


IV

Quando o meu sonho estava perto da lua,
As pregas brancas da sua túnica
Encheram-se de luz amarela.
As plantas dos seus pés
Ficaram vermelhas.
O seu cabelo encheu-se
De certas cristalizações azuis
De estrelas,
Não distantes.


V

Nem todas as facas dos postes de luz,
Nem os cinzéis das longas estradas,
Nem os maços das abóbodas
E torres altas,
Podem esculpir,
Brilhando através das folhas da videira.


VI

Racionalistas de chapéus quadrados,
Pensam, em salas quadradas,
Olhando para o chão,
Olhando para o tecto.
Restringem-se
A triângulos rectos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, linhas ondulantes, elipses -
Como, por exemplo, a elipse da meia lua -
Os racionalistas usariam sombreros


(in Ficção Suprema, tradução de Luísa Maria Lucas Queirós de Campos, Assírio & Alvim, 1991 - Gato Maltês / original de Harmonium, 1923)

24.3.10

EMILY DICKINSON


I never saw a Moor —
I never saw the Sea —
Yet know I how the Heather looks
And what a Billow be.

I never spoke with God
Nor visited in Heaven —
Yet certain am I of the spot
As if the Checks were given —


c. 1865 / 1890


Eu nunca vi Charnecas —
Nunca vi o mar —
Mas sei como é uma Urze,
Como serão as Vagas.

Nunca falei com Deus
Nem visitei o céu —
Mas sei tão bem o caminho
Qual se o Mapa fora meu.

c. 1865 / 1890


(in 80 Poemas de Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena, edições 70, 1979)