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9.10.13

ANA HATHERLY


A PALAVRA MISTERIOSA

a António Ramos Rosa

Sobe da sombra mais opaca
a tua figura radiosa
oh palavra misteriosa!

No obscuro pulsar de cada acto
reconstróis tudo por ausência
e o sentido consentido
sobe sem esforço as tuas escarpas

Potencial qualidade do outro
o teu segredo está
numa parábola
numa elipse
num ponto só
infinitamente alheio e sem medida


(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

15.3.12


ANA HATHERLY


Falo do que é físico

Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.

Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.

Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
                             nunca chega o fôlego.

Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.

Tudo me faz estar em permanente frémito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.

Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.

Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa


(de A Idade da Escrita, edições Tema, 1998)

27.12.08

ANA HATHERLY


HISTÓRIA DA MENINA LOUCA


Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé,
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.

Meu Deus, está louca!
Vamos levá-la.

Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava...

***

Dai-me, Senhor, um limite para a ambição,
Que a desmedida é grande impiedade!

Não se saber aonde se acaba
E até onde podemos nós sonhar...
Que, mesmo no sonho,
Eu quero me encontrar.

Se assim não fora,
Não poderia
Crer e amar.

***

A minha vida é poética:
Paira entre a vaga mentira e a realidade.

O amor me acontece
Como as folhas às árvores,
E tão singularmente,
Que já nem sei se é natural à árvore ter folhas
Ou estar nua...

(de Um Ritmo Perdido, edição da Autora, 1958)


O SEXTO SENTIDO

Estamos aqui
Em estado de liberdade
Condicionada pela enorme filáucia do próximo
Que um poeta desconhecido confirmou
Quando disse:
O sexo existe
Vem da palavra six
Igual a sexto sentido
Que é feminino

E acrescentou:
A maçã
É para ser comida

(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
50 Anos.



18.5.08

ANA HATHERLY

A DESCOLOCAÇÃO NO ESPAÇO OU NO TEMPO

O acaso é uma noção científica.
O uso do acaso é um acaso como a utilização humana dos seres humanos.
A utilização dos seres humanos é um acaso usual como os seres humanos são acaso.
O acaso é cientificamente ocasional e como tal é usado.
E tudo o que é usado é ocasional
como o não usado
enquanto tudo é acaso, noção cientifica do instante em série.
O acaso é uma progressão serialmente ordenada e harmonicamente conjugada e como tal ocasional e uso.
Cientificamente o acaso é o que é constantemente recolocado no seu ser não estando
E constantemente se deslocando finalmente se coloca fora do seu ser em tudo estando e não
Serialmente acontecendo e não sendo
Pela sua deslocação constante no espaço ou no tempo ou no acontecimento.
A utilização humana do acaso é a consequência do acontecimento do acaso humano
que utiliza
e por ele é utilizado.
O acontecimento humano é um acaso que a todo o instante necessita colocação no espaço ou no tempo ou no próprio acontecimento do acaso em sua fronteira.
E buscando a sempre descolocada fronteira do acaso a si próprio se descoloca.
Se descolocando se desloca e desse modo sempre procura colocar-se paralelamente ou do outro lado do acaso que acaso se chamará passar para o outro lado
Ou cruzar a fronteira do acaso é buscar o uso da colocação a utilidade intrínseca do acontecimento.
O viajante que a todo o instante tenta cruzar a fronteira do espaço ou do tempo ou do acontecimento arde na intensa pira do acontecimento perseguido e no espaço ou no tempo ou no movimento ocasiona o núcleo invisível da fronteira que separa um, acontecimento do outro e tudo reúne sob a forma de deslocação.
O acaso está sempre em estado de ser colocado e a todo o instante procurado se recoloca no acontecimento instante do seu ser entretanto
acaso único e usual utente.
E no desfazamento entre o que é acaso e o que ocasionalmente é ocasionado está o acaso permanentemente descolocado.

(de Estruturas Poéticas – Operação 2, 1967)

12.2.08




Hoje, às 18 horas, no Salão Nobre da Universidade Aberta (Rua da Escola Politécnica, 147, Lisboa), será apresentado (por Teresa Joaquim e Anabela Galhardo Couto) o livro A Neo-Penélope, o mais recente de Ana Hatherly, por ocasião do encerramento do mestrado de estudos de temática feminina, leccionado por esta poeta-pintora.

Quanto a mim, este é um livro que ultrapassa em ousadia tudo o que se vai fazendo na poesia actual. Um livro surpreendente, sobretudo tendo em conta que a Autora está à beira de comemorar os 50 anos do seu primeiro livro. Um livro de rotura, como toda a restante obra desta Mulher que sempre se sustentou na Tradição para se colocar na vanguarda.

9.2.08

ANA HATHERLY

É PRECISO FAZER UM ESFORÇO


É preciso fazer um esforço
Considerar possível
Estar sempre de perfil
Ser mono-asa
Barbatana sem dorso
Branco sem luz
Ave sem cisne

Ondular no ar
Ser o remoto futuro
Relâmpago sem ser visto
Força sem motor
Buraco sem queda

Considerar possível
Eros sem frenético
Livro sem que o leiam
Poema sem que o façam

Fazer um esforço
Sentir insensível
Sem que seja possível
Sem que seja preciso

Profundamente
Tudo é tão importante
Como um olhar furtivo

(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
ANA HATHERLY

(...)
Quem é esta Neo-Penélope que “Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera por nenhum Ulisses”?
É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói – Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado – nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido do amor.
(...)
Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso?
Sou a gata.

(excertos da entrevista a Ana Marques Gastão, Diário de Notícias / suplemento DN gente, 9 de Fevereiro de 2008)

23.7.07

ANA HATHERLY

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
Não vejo nenhuma diferença de princípio entre
um aperto de mão e um poema.
(Paul Celan)



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

29.11.06

ANA HATHERLY

AS PALAVRAS DIRIGEM-SE UMAS ÀS OUTRAS


As palavras dirigem-se umas às outras:
dormentes nos dias cinzentos
acordam nos sonhos
mas acordam-nos dos sonhos
salvadoras-matadoras
roedoras de raízes

O seu alcance é
a vastidão erma do sentido

À flor do rio do olvido
o seu brilho
flutua fugaz no corpo da grafia

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

4.10.06

[decorreu, entre 24 e 30 de Setembro, no concelho de Cascais, uma Semana Cultural Macedónia. No Sábado, teve lugar um encontro entre poetas macedónios e portugueses, com leitura de poemas nas duas línguas. Ficam aqui alguns dos poemas lidos]


ANA HATHERLY

A história do mundo


A história do mundo
É uma autobiografia inventada
É a história
De um Paraíso desencontrado
De um velho-novo-mundo
Para sempre ultrajado
Pela enorme cintilação do oiro

Ah!
Como é desigual
A viagem da descoberta!

Entre a cópia e a falta
Ante o eterno vexame do despenho
Uma pergunta maléfica nos assalta:
Que fazer?

A alma
Não tem que fazer nada
Dizia um célebre quietista?


MATEJA MATEVSKI

O nascimento da tragédia


Quando Aristóteles estabeleceu o verdadeiro estado
das coisas
e determinou como transformar o claro em obscuro
quando o riso se tornou num esgar
e a palavra numa espada
a dor já existia
Porque havia muito a mão tinha sido modelada como uma mão
e a palavra como uma palavra
para expulsar o mal do mundo
Mas o mal estava presente
mesmo entre as regras mais exactas
e as acções mais inevitáveis
E Dionísio embriagado de vinho e de sol
havia muito que brandia o falo e a espada
forçando ao canto as feras esfoladas
Assim tinha nascido a canção
Enquanto as mulheres se cobriam a si mesmas de negro
enquanto as torres ardiam e os navios eram afundados
e os cavalos calcavam os frutos da terra
e o coração murchava como uma maçã
e o sangue abandonava o corpo
Isso pouco tinha a ver com heroísmo
ou com a dor da solidão ou com as lágrimas em caminhos desertos
contudo mesmo assim o velho filósofo aplicaria
as elegantes regras do jogo
a tais selvajarias
enquanto a audiência continua
aplaudindo a morte


CASIMIRO DE BRITO

Três haiku


Diante do lago,
a beleza. Como se homens
não existissem

Lago de Ohrid -
até no seio da morte
a natureza sorri

Para além do lago
as terras parecem felizes -
os homens em guerra


VERA CHEJKOVSKA

Psycho


é isso um enlace de linhas direitas ortodoxas e de não
ortodoxas linhas curvas?
admito um programa semelhante para os meus desenhos
em miniatura. e.g., deixar que os bichos da seda
sejam engendrados pelos genitais do diabo e pelo sémen de Deus,
que eles mesmos expelem. deixá-los ser verdadeiros
pequenos demiurgos, abraxas omnipresentes na minha
elocução. De modo a apresentar a sua mobilidade
indubitável nas fronteiras do determinismo.
ou: a luz é um múltiplo ferrão de vespa e a escuridão
uma miríade de formigas. como um espécime adicional da
pré-essência, da sabedoria mítica, que deve
continuamente desenvolver até agora. até mim.
Porém, a consciência de alguns saltos inesperados...
imprevisíveis como pétalas de rosa em situações
banais...


PAULO TEIXEIRA

Taças


Derramadas foram as taças sobre a Terra.

Estremeci do seu murmúrio primeiro,
do seu frémito depois, da sua convulsão.
As palavras que ouvia eram como calhaus
rolados, seixos que dão à praia pela manhã.

Entram na vossa alma secretamente.

Chorei por vós nesse dia. Piedade.

Porque amei vossas pegadas e as cicatrizes
na vossa carne, o tão calado testemunho.
Perguntareis: como amar as pegadas
de quem já não vive?

Amei o que foi vosso um dia. Por isso chorei.


ZORAN ANCEVSKI


Leitura


Eu gaguejo perante
os p-p-portões da Babilónia
quero dizer
não consigo falar

A minha voz quebra-se
multiplica-se
sob a minha língua
as palavras reproduzem-se

E pergunto-me
fui eu que proferi esta palavra
ou foi ela
sempre nos iludiremos mutuamente
pois temos a eternidade
desde que a palavra foge
desde a nossa primeira tagarela-babel

Que esforço para nos reconhecermos
nesta infinidade de espelhos
no ventre deste mun-
do vago, concha de ostra
a p-p-pre-pre-pre-pre-
existência do eco.


VASCO GRAÇA MOURA


o caminho de ohrid


do alto das muralhas de ohrid onde
acorrera aos gritos desvairados dos vigias,
o rei samuel avistou o seu exército desfigurado,
arrastando-se entre as montanhas da macedónia.

aos catorze mil homens tinham sido
arrancados os olhos por ordem do imperador
e a um em cada cem mandara ele, basílio II,
fosse poupado um olho para conduzirem o regresso

dessa manada cega. depois de atravessarem altas neves
vinham-se agora despenhando para o lago,
tropeçando, agarrados uns aos outros,
a tortura espelhada nas contorções das faces,

o sangue a empapar-lhes os andrajos. e o rei,
tomado pela angústia, deu um grito de dor e morreu
no alto da muralha sobre a colina e os seus bosques e pomares
que o lago placidamente reflectia.

nesse instante compreendeu como era ambígua
a força cega do destino e em nenhum mosteiro
podia a iconostase explicar-lhe esse cruel mistério:
os santos, com feições dos retratos do fayoum,

entre as chamas trémulas emudeciam
nos seus frescos e as vozes dos jovens monges,
no seu canto austero e imperturbado,
elevavam uma grave primavera na penumbra.


(os poemas dos autores macedónios foram traduzido por Rute Mota, a partir de versões em inglês)

28.8.06

[outros melros XLIIa]

Ana Marques Gastão - «Escrever é querer descobrir o próprio vulto». Isso basta-lhe?
Ana Hatherly - Sou obrigada a isso.
AMG - Sempre num caminho de instabilidade?
AH - Como o melro que na minha varanda salta pelo jardim num hotel de cinco estrelas: «(...) Flâneur jovial/seu canto/enche de encanto o meu dia/Preciosa ilusão de alegria/como criança saltando à corda/brinca/com as leis do fim». Tenho uma paixão pelos melros.

(excerto de entrevista, in Agulha, revista de cultura # 35 - agosto de 2003)
[outros melros XLI e XLII]

ANA HATHERLY

Tisana 76


Era uma vez um melro de oiro mas pintado de preto. Do seu bico jorrava uma fonte em que se banhavam as grandes cadeiras de sessenta. Quando as filhas das cadeiras cresceram mandaram plantar árvores onde colocaram águias de prata de cujas axilas saíam cabeças de chumbo. Desde esse dia nunca mais pintaram o melro de preto.

(de 463 Tisanas, Quimera editores, 2006)


NUM HOTEL DE CINCO ESTRELAS - I

Em frente à minha varanda
um melro salta pelo jardim
e quando pára, alça a cauda
evitando o viés da instabilidade

Flâneur jovial
seu canto
enche de encanto o meu dia

Preciosa ilusão de alegria
como a criança saltando à corda
brinca
com as leis do fim

(de Itinerários, edições Quasi, 2003)

17.4.06

ANA HATHERLY

A MATÉRIA DAS PALAVRAS


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

10.7.05

[outros melros XXVIII]

ANA HATHERLY


UM VOO PROTEGIDO


Segundo Messiaen
o melro não canta:
desenha no espaço
complexas colcheias melismáticas.

Não é negro:
às vezes
é mesmo branco
sua brilhante plumagem
em sequestro
está na partitura do Maestro
que aliás
prefere a cor lilás
(muito mais vibrátil
segundo me disse).

Na esfera do não-onde
o melro tem
seu voo protegido.

(de Itinerários, edições Quasi, 2003 - uma existência de papel)