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16.11.08

[para lá de todas as razões. para cá de toda a Amizade]

ANA SALOMÉ

Ode da rapariga no quarto


aqueles corações honestos corta-se pelo frio
não têm o beneplácito do sol nem a solução
da ferocidade da lua e moram em corpos tristíssimos
peões incapazes de saltarem para o cavalo
que os levasse à torre. moram em mentes
de artistas da rua da amargura
em filhos únicos que morrerão sem descendência
em poetas que não têm Shelley como advogado
e que a idade começa a pesar no de outrora ouro esbanjado.

a honestidade da impenetrável neve
a descer num balão de ar frio sobre o quatro de rapariga
com a decoração da adolescência
o urso em cima do guarda-roupa
a secretária com os dicionários
aquele lugar que a torna inabitante
incapaz de adequar um corpo que cresceu com formas
e sem forma de ser de novo expelido.
a beleza do cheiro que há nas flores
que há no recôndito calor do corpo às sombras consigo
a acumular o pó que seria só dos móveis
aquele corpo deitado como se pousasse para Matisse
num fim de tarde e meticulosamente
retirasse o coração e o pusesse na cabeceira
alegando o descanso cinco minutos só
que a acordasse no fim do quadro
ou no fim da vida cinco minutos só
de absoluta nudez.

(de odes, editora Canto Escuro, 2008)

24.10.08

Ponto da situação III

Já está anunciado publicamente o novo livro da Ana Salomé, Odes. Pessoas bonitas fazem coisas bonitas.

A edição é do Canto Escuro do Vitor Vicente, que anuncia também Grafipoesis, de Rui Carlos Souto, autor já antes publicado sob esta chancela.

25.4.08

ANA SALOMÉ

Ode da liberdade


devíamos criar uma cidade nova,
livre,
desde as pontas dos dedos, as estradas,
até à polpa das palmas das mãos,
as muralhas,
até ao centro histórico,
para nele vivermos séculos sem fim,
e mergulharmos nos rios,
as linhas do nosso
destino.
devíamos criar um cidade livre,
nova,
desde o vulcão, o nosso
repouso em labaredas,
para um primeiro beijo
fora de território nacional.
até à lonjura da maior
viagem, dormirmos na pousada
que abriga tectos em estrelas,
com os olhos fechados,
trocados, numa nova cidade,
ilha de nós e, quando
regressássemos,
morávamos na nossa
grande casa da árvore,
cravejados de folhas, pássaros e beijos,
as mãos polpa de maçã
um do outro só à espera
de ver nascer a madrugada
debaixo dos braços
para o último arrepio
de todos os tempos:
amarmo-nos.

(daqui e de um livro a sair para breve)