Mostrar mensagens com a etiqueta Angolana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Angolana. Mostrar todas as mensagens

31.3.11

ZETHO CUNHA GONÇALVES


PELO MEU NOME


Escavo a esta mão os ventos - da onça,
sustentam a noite: quem contraceno em gesto,
e os seus olhos. Se dou um passo
tropeço noutro passo - simétrico, tropeço
na flecha. O dorso é todo o horizonte,
a sua escultura movediça.

Eu trazia o fogo na cabeça, era um pássaro.
O canto das águas seria a minha voz - a pedra,
Terra
de outra carne,
e osso -
não me houvessem roubado o fogo, não me houvessem
justificado em lenda, pelo meu nome.


(de A Palavra Exuberante, Parceria A. M. Pereira, 2004)

28.7.09

DAVID MESTRE

GEOPOLÍTICA DO MEDO


À frente da história seguem os heróis
os santos e os poetas. E os que sobram
da provada culpa do vento, marinheiros
de cana rapados à venérea idade
do mar. E os que viemos depois
na cauda do açoite

mover os braços reter o corpo
para cá da barra, e a voz
de piratas trincados pela raiz.

Daqui nos damos notícia, corsários
do medo auriculado na gengiva
dos séculos. E dos que partiram
sem barco de feição ou anel
para os dedos abertos no pródigo mês
da idade.

Já nada nos destrói. Nem a lágrima
encalhada na dentícula vegetal para o amor.
Nem ela.

(de Do Canto à Idade, Centelha, 1977 – Poesia Nosso Tempo)

27.4.09

[morreu no sábado passado – ver notícia aqui]

TOMÁS JORGE

PETRÓLEO


Afinal aqueles imbondeiros
Paquidermes de raízes e flores
Soldados fantasmas
Eram os guardas verdadeiros
Permanentes e firmes
Aos ventos e aos calores
Por sobre um tesouro milenário.

Guardaram com os seus braços levantados
E seus corpos dilatados
Ocupando
Todo o areal enorme
Imenso
Como fantoches disfarçados
Afugentando os homens
Com os seus corpos feios
Blindados de chumbo.

Afinal aqueles imbondeiros
São os guardas que foram vencidos
Todos
Quase todos serão sepultados
Sobre eles cairão
As torres de ferro e de triunfo.

Um novo poema em gritos de luz e de força
Surgirá das profundidades do vasto areal
Haverá mais trabalho e felicidade
Em nova fase de visões e fatalidades.

Eu como poeta
Dono da fantasia e da realidade
Dono de tudo sem querer nada
Em novos Cânticos sociais e humanos
Cantarei humanamente
A minha terra e o meu petróleo.

(de Areal, Colecção Imbondeiro, 1961)

18.10.08

RUY DUARTE DE CARVALHO

Monumental estrutura erguida do assento, a desdobrar-se em carne enquanto uma das mãos penetra o céu e a outra esmaga, com acostumados dedos, a folhagem madura de um ramo ao seu alcance, nervuras colossais do calcanhar ao dorso, a dar contorno às coxas, petrificadas massas de cimento armado, postas ali num gesto de euforia. Se o zoom é permitido avante então, acometemos estes hemisférios até não divisar senão a linha que divide as partes, descer por ela abaixo e penetrar no cheiro, afastar, com as mãos, os juncos e a chipipa, a custo caminhar no lodaçal do mangue e ouvir o borbulhar da vida ali contida. Oh corpo de cimento aparelhado em curvas, utilitária mama feita para aleitar, eis a distância, eis a distância que há para além dos livros, tu mama fina só relevo e cor, leve acidente em torso de rapaz, fêmea distante a olhar-me fria e grave, ciente do meu jogo e dos meus trunfos. O mão molhada, aqui, na minha frente, que vai ao peito para untá-lo negro, o brilho dos adornos prolongado ao ventre e o cuidado que há, eis um requinte extremo, no ajustar do pano às virilhas espessas enquanto o corpo recupera o assento e de novo se empenha a cativar o fogo.

(de Hábito da Terra, 1988 – in Lavra, Poesia reunida 1970-2000, edições Cotovia, 2005)

27.8.04

[para a R.]

EDUARDO WHITE

É ou não é verdade
que a carinhosa maneira como choramos
quando nascemos
surpreende
nossos pés voltados para o ar?

Advirá daí o engenho que escondemos
e que nos faz ambicionar sonhar ou voar?

Não sabemos.
Mas quis a vida tivéssemos,
ao contrário de raízes
como as árvores,
estes olhos para as distâncias
ou então para os sonhos que não fazemos,
não tocamos
e só vemos
quando os temos voltados para dentro. Precisas de colher com o tempo a justa solidão que te refaz. Colher devagar, sem excessos, para que não desesperes e nem morrer te apeteça. Atravessa o silêncio, algum rumor enternece, não é o silêncio tão deserto. Cresce, com o coração em repouso és mais nascente e não se revela o medo. Mede a febre onde a febre se esconde, ouve o sangue silvar, a solidão acordará para a alma a ave que és e não conheces.

(de Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave, editorial Caminho, 1992)

8.12.03

Cardeal ALEXANDRE DO NASCIMENTO

Nasceu em Malanje, Angola, em 1925.
Ordenado presbítero em 1952 e bispo em 1975.
Foi bispo de Malanje e de Lubango e, desde 1986, é Arcebispo de Luanda, sendo emérito desde 2001.
Foi feito Cardeal em 1983, na sequência do rapto a que foi sujeito no ano anterior.

MAMÁ MUXIMA

Na Polónia florida e na terra dos Bascos
Na terra dos Teutões e na Tíndari dos Sículos,
Na Suíça polida e na Itália gentil,
Em muita outra parte, é pura verdade
Que é como preta que a Virgem veneram.

Bem sei que Murillo o impossível pintou,
E que Velasquez, o divino, de Rafael é rival.
Quem não viu em Madrid, quem não viu em Florença,
Milagres de pintura, assombros de cor?
Mas vê como passa essa turba fastienta
Diante de um retábulo de tanto requinte!
Parece sonâmbula, pensa noutra coisa,
Tem o sorriso frio de gente sabedora:
É gente erudita que leu Kant, conhece Espinosa...
Do que não suspeita, por certo, é que tem
a alma defunta...

Outra coisa é este meu povo, este povo sofredor
Gente do "mato" e do chimbeco em Luanda,
- A Velha Mutudi, a tia Ximinha;
Gente que ri, porque sabe o que é chorar;
Gente que cumprimenta, porque sabe o que é desprezo,
Gente que reza e finge zanga à Senhora.
Mas é certo e seguro, nem posso duvidar
Que tem amor, muito amor consigo esta gente.
Há nela essa fé que o Senhor diz fazedora de milagres.

Entre a Virgem do céu e este povo que sofre
Há funda amizade, há infinda ternura
Por isso eu não me rio, nem estranho sequer
Quando vejo gritar, simular grande zanga
Se tarda o milagre, ó Virgem Senhora!

Elas sabem como tomar-Te, entendem-Te tão bem!
Como roçam as mãos e os rostos também
No Teu manto bendito, bendita Mãe!
Pois é este povo que não estranha
Que sejas branca e também sua Mãe!
Mas sou eu quem Te faz a pergunta:
Porquê és assim?
Preta bem preta, nas terras dos brancos,
Branca bem branca na terra dos pretos!
- Não vês, meu filho, que vos quero lembrar
Que sois todos meus, meus pequeninos?
Assim vos não esqueçais que brancos ou pretos
Tendes a vossa Mãe que também é Morena:
Branca muito branca, na terra dos Pretos,
Preta bem preta, na terra dos Brancos:
O que conta para mim não é a cor,
Basta-me o coração: "Muxima!".


DISCRETA E TERNA

Discreta e terna há-de envolver-me
a luz terna do Teu olhar,
Senhora a Quem tantas vezes eu disse
"Ave Maria, cheia de graça":
que Tua presença me não falte
nessa hora, nesse instante.
És a Virgem fiel - a que mantém as promessas,
por isso, Tu cumprirás a promessa:
cumprirás, porque cá me diz o coração: "Mãe!"

Virás, assim, à beira do meu leito,
ou onde quer que a vida me comece a abandonar,
"Santa Maria, Mãe de Deus".
Olhar vago, talvez ardendo em febre,
talvez então nem de Ti eu me lembre,
ó meu Amor de sempre...

"Rogai por nós, pecadores".

Sei, porém, - mais: tenho a certeza
que foi por minha causa
que o Senhor orou: "Nas Tuas mãos,
Pai, entrego a minha alma..."

Desde então, é certo,
sempre que o poente da vida
crisma a fronte de um homem,
vibra intenso, como no Calvário,
o brado saído do coração de Deus:
"Mulher, aí tens o Teu filho".

Discreta e terna há-de envolver-me
a luz terna do Teu olhar.
Estreitando-me junto ao Teu peito virginal,
dirás então aos Anjos em êxtase:
"Um menino nos acaba de nascer..."

Há-de sorrir Isaías.
E Deus, também.

(de Livro de Ritmos, Gráfica de Coimbra, 1994)