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13.6.12


ANTÓNIO BARAHONA


POEMA UNÍVOCO
À MANEIRA DE PREFÁCIO
À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA

«Dó é unívoco do sentimento de compaixão e da primeira nota da escala musical.» D.P.I.

Eu tornei-me céptico, épico profissional,
mente amorosamente natural ao frio das
formas, lisérgico ao luar entre as urtigas
Desde Ptolomeu que andamos às cegas
com sistemas que são maneiras de treinar
o pensamento, mas não poemas que contêm
o mo(vi)mento, isto é a eternidade com
provada no esquecimento do assassino
tom da liberdade dos leques lique
feitos sobre os peitos perigosos das
mulheres amazonas uni-seio-nuas
músculos de terra a cintilar d'estrela
na amplidão do arco do cavalo branco
a sangrar do flanco um navio à vela

O perigo é mais sólido do que a pedra, mais
imóvel e mais branco e mais duro, por isso
a dureza consiste numa vantagem por extenso
nas pedras e nos versos que se aproximam do
perigo: os diamantes e os universos de som
sacrário sempre vivo no templo dos poetas
que uivam com voz de trigo e despedem setas

A dureza também consiste numa vantagem dos
seios, e na pronúncia vagarosa de dizer:
mulher de pedra viva dos oleiros, orquídea
dos luzeiros contra a perfídia do mundo,
escultora de escultores no mais profundo
da pedra, petrificada em ave dura que per-
dura sobre a neve eternamente suave

As notas do poeta unificam-se em torno do Nu:
castidade perante a escultura do culto
do arbitrário do signo exacto, des-
construtor com pacto do elo da linguagem e
das coisas, engenheiro da maquinaria da
transcendência metalicamente real no re-
flexo d'olhos ténue d'Eglantina que sorri
anterior ao naufrágio onde perdi Dinamene

Adquirir uma «existência opaca» a fim
de ouvir o órgão nas margens do Sena quando
poemas ao poema o poeta escreve insinuando
que a loucura amadurece, despojado de memória,
proscrito da história que não o esquece, com-
fundindo-o com os símbolos, o quadrado e o cír-
culo, signos da transcendência realmente meta-
lica nas teclas que desprendem pombos quando

Convenhamos que o amor é experiência, base
da ciência da poética capaz de reconstituir
a ausência: o poeta é instrumento e ins-
trutor, conhecedor da cadência, repetidor
até em termos de ternura que enternece o texto
o homem fragmentado entenebrece o gesto

Doença, não há dúvida, na direcção de um
vento qualquer a omnipresença da barca unívoca
de velas desfraldadas a navegar pacífica e à
vante o elefante a ganir a teologia da mulher
um cavalo branco galopante a emergir do mar
terrífico claustro da escrita que contém a vida

Convenhamos uma vez mais que o amor é ex-
periência, o amor na cama consciente de uma
técnica, o amor na lama diferente de na água
laminada, a pele macia da lama sem lâminas,
a pele cortada de mágoa na água em chamas
e a palavra fria no poema, flébil mosca, resto
d'orquídea seca na encosta ao sol d'agosto

Sim, experiência de Serenidadeés minha, o a
mor não aquece ao sol, não voa a enegrecer
o ar, não descende de flores: é a fúria de
florir no caos, primeira letra do alfabeto
lua no seu grito, exclamativa na arte de
agarrar silêncio, metê-lo numa caixa com
mãos ávidas, escrevê-lo numa faixa de papel
tumultuário, enquanto esquiva vai à garra
a barca unívoca num mar de mel e laca

Alegria da morte unificada suave, sensitiva
serenidade de agulha e gume, a única pedra
fragmentada na praia, etérea de esmeril,
tépido como um til na palavra manhã a viver
no verão sobre o estrume estético das vacas
sagradas trepidantes no seu vácuo cósmico

A única pedra, dizia, ficou a ver a barca uni-
voca, que convoca a glória do poeta: uni
verso, verificado a ver a barca equívoca,
estame de rosa na relojoalharia do poema, regra
íntima da necessidade do descuido cuidadoso
de noite e de dia e sem sistema d'ir à guerra

Onde está o tempo que ainda não vivi, o qual
se «chama futuro»? Do mal o menos da vida, da
vida o mais do menos que vivemos à despedida
só, no escuro, a pontuação de luz, os líquenes
das vírgulas inspiradas, como no inicial
poema unívoco as mulheres amazonas uni-
ficadas com seus leques liquefeitos
sobre os peitos perfeitos como diques

Boavista, 21-2-77.


(de Pátria Minha, Fiel do Amor, 1978)

22.4.11

BISTRA TODOROVA



ANTÓNIO BARAHONA


A Cruz precede sempre o Alfabeto,
depois precede sons, vocabulário
A Cruz não tem nenhum sinal contrário
mais forte do que a Luz no som sangrento

Reaprender a ler com novo método:
decalque de Cavalo, ou de Cordeiro
representado humanamente ethéreo
no Licorne, dador de sangue e sopro

Quem só assina de cruz sabe mais
do que escrever seu nome e outros nomes:
sabe que só sabe escrever sínais
do silêncio, que só é som nas preces

A Cruz: eis nosso Livro aberto em quatro
A Cruz precede e fala o Som do Verbo


(ícone e poema de Rosas Brancas e Vermelhas para um rosário jubilar, Paulinas e Ajuda à Igreja que Sofre, 2000)

23.1.11

ANTÓNIO BARAHONA


COMENTÁRIO ALCORÂNICO


Quanto aos poetas, os que erram seguem-nos.
Não tens visto como eles vagueiam pelos vales
E como dizem isso que não praticam?


Alcorão

Vagueio pelos vales a falar sozinho:
não me lavo, não rezo, não me lembro
de Deus: apenas fumo o meu cachimbo
e saboreio Deus que sabe a fumo

Devagaroso a falar à pressa deliro
e digo o que não faço e faço o que não digo,
contraditório, incoerente, obsessivo,
mas verdadeiro eco de mim próprio

Que Deus me dê a força da fraqueza
que verga mas não quebra e endireita
mais dúctil do que a vara mais fibrosa

Que Deus me dê os vales mais obscuros,
lá onde a vista alcança só beleza
ao fundo da paisagem dos teus olhos

Lx., 20.VIII.85

(de Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)
[exemplo a servir de singela manifestação de simpatia para com o Henrique e os editores da Língua Morta, extensível a todos os outros que por aí vão editando como podem, gostam e muito bem lhes apetece]


(excerto do elenco bibliográfico de António Barahona, in Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

5.2.10

ANTÓNIO BARAHONA

VIII


Os relâmpagos iluminam um busto no telhado:
monumento ao Poeta Desconhecido, disfarçado de pássaro
com bico de homem a beber a chuva de vinho novo

Nos socalcos da cidade cresce a videira brava,
as gavinhas atam os meus dedos aos prédios
e há gaviões predadores de gatos pretos
em voo muito baixo junto aos tornozelos

Turbas de trovões atravessam o tecto
Vê-se um livro aberto diante dum espelho
a falar sozinho, a virar as páginas com cheiro a sândalo
e um cigarro, esquecido no cinzeiro, ilumina o poema
que gasta montes de dinheiro a subornar o sono

Porto, 22.IX.90
(de Noite do meu Inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

6.4.04

ANTÓNIO BARAHONA

PRIMEIRO MISTÉRIO DOLOROSO / A AGONIA DE CRISTO NO JARDIM DAS OLIVEIRAS

Que não resulte inútil e nos salve
este suor de sangue, gota a gota,
derramado na nossa face humana
pla Santa Face prosternada em prece

Que não resulte inútil: seja prática
a memória do sangue, que nos move
a rezar solidários por quem sofre
na infinita solidão sem sombra

Que não resulte inútil, que não durma
nenhum de nós: fiquemos de vigia:
a vida é curta pra tão longa hora!

Que não resulte inútil, que se cumpra
a promessa de Deus à Sua Igreja,
que continua Cristo em agonia

(de Rosas Brancas e Vermelhas para um rosário jubilar, edições Paulinas e Ajuda à Igreja que Sofre, 2000 - colecção Celebrar)

16.10.03

ANTÓNIO BARAHONA

para sua Santidade João Paulo II

ILUMINANTE dia o desta noite
no adro da igreja aberta
a todos nós - pecadores - quem não for
que atire a primeira pedra a
Maria Madalena por amor de Cristo

(Maria Madalena
ciência de humildade
sibila que é criança
encontrada-perdida
salva-a a fé e a esperança
unidas à caridade)

Dissoluta simplicidade a minha
em ritmos da infância religiosa
em que fui comungante à noitinha
na euforia mística da rosa

1.XI.80

(de Rizoma, Guimarães editores, 1983 - colecção Poesia e Verdade)

22.6.03

ANTÓNIO BARAHONA
Nasceu em Lisboa em 1939.
Peregrino, tem estado em muitos lugares.
Dele diz o Pe. Peter Stilwell: «Barahona nasceu poeta, sensível ao mistério das palavras, que saboreia e pesa uma a uma um trabalho de minúcia. A este talento acrescentou ainda um percurso singular. Seguiu caminhos estranhos aos “doutores da lei”. Mas quem sabe se o tempo não provará terem sido bafejados pela acção do Espírito?»
Publica livros de poesia desde 1961.

Fascinação

Este Verão é escaldante, porque o vinho
aquece os olhos, quando te contemplo
a beber, vagarosa, trago a trago,
plo mesmo copo fino onde te bebo:
a ti e ao teu segredo tão tremendo
que tremo d’escondê-lo de mim próprio,
com medo de ser outro o meu destino
que não seja morrer porque te amo

Mas de nada estou certo, nem do Verão
de súbito gelado à flor do fogo,
se te toco, ao de leve, só num dedo,
ao me passares o teu cigarro húmido

No filtro, os teus lábios é que eu mordo
e aspiro, boca a boca, o som do fumo

Lx., 5.VIII.90

(de UM LIVRO ABERTO DIANTE DE UM ESPELHO, 1991 – incluído em NOITE DO MEU INVERNO, 2001)