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16.5.08

Que novas festas, novos cantos pedes?

Estreou ontem, no Convento dos Capuchos (Almada) a peça de António Ferreira (1528-1569), A Castro, levada à cena pelo Teatro de Papel.
Estará naquele espaço até dia 31, às sextas e sábados e percorrerá vários monumentos pelo país, conforme programa disponível.

13.5.04

ANTÓNIO FERREIRA

À VIRGEM DA LAPA


A esta lapa vimos, Virgem Santa,
Humildes, e devotos peregrinos.
Que os olhos sejam de te ver indinos,
ver o que o mundo todo alegra e espanta,

e que a pureza em nós seja tanta,
tua graça nos fará, Senhora, dinos
de ouvires nossos versos, nossos hinos,
que cada alma fiel te ofrece, e canta.

Grandes são teus poderes, tuas grandezas,
Novos sinais, Senhora, não esperamos:
despois de Deus, de ti tudo mais cremos.

Alimpa em nossas almas suas torpezas;
desfaze as névoas, com que nos cegamos;
e estes grandes milagres cantaremos.

(de Poemas Lusitanos, 1598 - edição crítica de T. F. Earle, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000)

20.7.03

[ainda não fui ver, porque não pude, nenhuma das encenações da Castro, nem sei se a peça virá cá a Lisboa. Mas o seu autor escreveu mais coisas que vale a pena ler]

ANTÓNIO FERREIRA

Nasceu em Lisboa, em 1528.
Estudou em Coimbra. Foi o primeiro grande poeta do Humanismo em Portugal. Toda a sua produção literária foi compilada com o título genérico de Poemas Lusitanos e abrange todos os géneros poéticos conhecidos dos humanistas, excepto a epopeia.
Morreu, também em Lisboa, em 1569.
Apenas no ano 2000 foi publicada, pela Fundação Gulbenkian, uma edição crítica da sua obra, da responsabilidade de T. F. Earle, Professor de estudos portugueses em Oxford.

Ó olhos, donde Amor suas frechas tira
contra mim, cuja luz m'espanta e cega;
ó olhos, onde Amor s'esconde, e prega
as almas e, em pregando-as, se retira!

Ó olhos, onde Amor inspira,
e amor promete a todos, e amor nega;
ó olhos, onde Amor tão bem s'emprega
por quem tão bem se chora, e se suspira!

Ó olhos, cujo fogo a neve fria
acende e queima; ó olhos poderosos
de dar à noite luz, e vida à morte!

Olhos por quem mais claro nasce o dia,
por quem são os meus olhos tão ditosos,
que de chorar por vós lhes coube em sorte.

[Epitáfio] A el-Rei D. Dinis

Quem é este de insígnias diferentes,
cetro, e picão, e livro, e espada, e arado?
Este foi paz de reis, e amor das gentes,
grande Dinis, rei nunca assaz louvado.
Outros foram nua só cousa excelentes,
este com todas nobreceu seu estado:
regeu, edificou, lavrou, venceu,
honrou as Musas, poetou, e leu.

[Ode] Aos Reis cristãos

Onde, assi cruéis
correis tão furiosos,
não contra os infiéis
bárbaros poderosos,
turcos de nossos roubos gloriosos?

Não pera a mal perdida
cabeça do Oriente
nos ser restituída
tão pia e cristãmente,
roubo a vós feio, e rico à turca gente;

não pera a Casa Santa,
Santa Terra pisada
dos infiéis com tanta
afronta vossa, armada
a mão vos vejo, nem bandeira alçada;

nem pera em fogo arder
desd'o chão té às ameias
Meca, e Cairo, e se ver
trazido em mil cadeias
em triunfo o seu Rei com nossas preias.

Ah, cegos, contra vós
vos leva cruel furor!
Ah, que fartando em nós
e em vosso sangue o ardor
que o imigo tem, fazei-lo vencedor.

Vós armas, vós lhe dais
ao covarde ousadia.
Enquanto vos matais,
eis Rodes, eis Hungria
em sangue, em fogo, em nova tirania.

Paz santa, dos céus dada
por vida só, e bem nosso,
como tão desprezada
desse injusto ódio vosso,
Reis cristão, é? Cruéis chamar-vos posso.

Nunca se viu fereza
a esta que usais igual,
armados de crueza.
Um ao outro animal
da mesma natureza não faz mal.

Tornai, tornai, ó Reis,
à paz; tende-vos ora;
olhai-vos, e vereis
com quanta razão chora
a Cristandade a paz, que lançais fora.