Mostrar mensagens com a etiqueta António Mega Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Mega Ferreira. Mostrar todas as mensagens

19.10.08

ANTÓNIO MEGA FERREIRA

(excerto de) O Maior Espectáculo do Mundo

(…)
A memória não é uma caixa de imagens, isso ao menos sabe Maria Ausenda. A memória, diz para si própria, é apenas uma moldura que delimita o espaço de um quadro, mas que lhe ignora o tempo, que mistura as cores e as formas numa espécie de cadinho adormecido sobre o aparador da infância. E depois, um dia, a necessidade ou a imaginação despertam-na, e ela transforma-se em fábrica de sonhos e de ilusões, um pouco mais de emoção aqui, um diálogo retocado acolá, bruscamente as imagens todas rodopiam sobre si próprias e, quando de novo se aquietam, quando se tornam suficientemente nítidas para poderem ser evocadas, quem pode dizer que foi esse o lugar que elas ocupavam quando tudo se passou, quem se atreve a garantir que tudo se passou assim mesmo, quem ousaria jurar que alguma coisa se passou?
(…)

(in As Caixas Chinesas, 1988)

27.6.07

ANTÓNIO MEGA FERREIRA

POEMA


Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.

(de O Tempo que nos Cabe, Assírio & Alvim, 2005)