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2.4.17

JORGE LUIS BORGES


O AMEAÇADO

É o amor. Tenho de me esconder ou de fugir.
Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das aves, os que olham pelas janelas já se escurecem, mas a sombra não trouxe a paz.
É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz, a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.
Já me cercam os exércitos, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher denuncia-me.
Dói-me uma mulher em todo o corpo.



(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Obras Completas II – 1952-1972, Editorial Teorema, 1998 / original de El Oro de los Tigres, 1972)

3.3.14

JULIO CORTÁZAR


A um deus desconhecido

Quem quer que sejas
não venhas já.
Os dentes do tigre misturaram-se com a semente,
chove fogo em permanência sobre capacetes de protecção
já não se sabe quando acabarão os esgares,
o desgaste de um tempo feito em pedaços.

Por te obedecermos caímos.

– A torre subia erecta, as mulheres
levavam cascavéis nas pernas, provava-se
um vinho forte, perfumado. Novas rotas
se abriam como coxas à alegre cobiça,
às quilhas insaciáveis. Glória!
A torre desafiava as medidas prudentes,
como numa festa de estrategas
era a sua própria grinalda.
O ouro, o tempo, os destinos,
o pensar, a violenta carícia, os tratados,
as agonias, as carreiras, os tributos,
rolavam como dados, com suas pintas de fogo.

Quem quer que sejas, não venhas já.
A crónica é a fábula para estes olhos tímidos
de lentes focais e bifocais, Polaroid, anti-halo,
para estas mãos com escamas de cold-cream.
Por te obedecermos caímos.

– Os professores obstinados fazem gestos de ratazana,
vomitam Górgias, patesís, anfictionias e Duns Escoto,
concílios, cânones, seringas, skaldas, trempes,
que vida descansada, os direitos do homem, Ossian,
Raimundo Lúlio, Pico, Farinata, Mio Cid, o pente
para que Melisandra penteie os seus cabelos.
É assim: preservar os legados, adorar-te nas tuas obras,
eternizar-te, a ti o relâmpago.
Fazer da tua raiva vivente um apotegma,
codificar a tua livre gargalhada.
Quem quer que sejas
não venhas já.

– A ficção cara de farinha, como se pendura no seu macaco,
o relógio pontual a arrancar-nos da cama.
Venha às duas, venha às quatro,
infelizmente temos tantos compromissos.
Quem matou Cock Robin? Por não usar
antitranspirantes, sim senhora.

Por outro lado a bomba H, o pente com música,
os detergentes, o violino eléctrico,
facilitam a passagem do tempo. Não é tão má assim
a sala de espera: alcatifada.
- Consolações, jovem antropólogo? Sortidos:
você vê-os, julga-os e leva-os.
A torre subia erecta,
mas aqui há Dramamina.

Quem quer que sejas
não venhas já.
Iríamos cuspir-te, lixo, fabricado
à nossa imagem
de náilon e algodão, Iavé, Deus meu.



(tradução minha – original de Arrimos, in Salvo el crepúsculo, edición definitiva: Alfaguara, 2009)

29.4.10

VITORINO MAGALHÃES GODINHO

No meio dos regimes totalitários e das incompletas e frágeis democracias do século XX havia esperança acalentada por várias ilusões, pulsava uma tensão para um futuro que a prática efectiva tornava inexequível. Um poema de Rodolfo Alonso (que a Revista Brasileira acaba de republicar, n° 50, 2007, p. 6o), "Coda a los ganados y a las mieses", traduz bem o nosso desacerto perante a derrocada dessas miragens. Houve um tempo de esperança, mas perdemos o que ontem era amanhã; então sonho de porvir, para nós já é passado que não se realizou. Estamos sem futuro nem horizontes; nem sequer podemos sonhar os sonhos que sonhávamos.
«De haber sido futuro
hemos solo pasado.
Pasado del futuro.»

(último parágrafo de A Europa como Projecto, edições Colibri, 2007)



RODOLFO ALONSO


Coda a los ganados y a las mises


Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.

Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.

Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.

De haber sido futuro
hemos sólo pasado.
Pasado del futuro.


(encontrado aqui)

1.12.08

ALEJANDRA PIZARNIK

ANÉIS DE CINZA


A Cristina Campo

São as minhas vozes cantando
para que não cantem eles,
os amordaçados tristemente na aurora
os vestidos de pássaro desolado na chuva.

Há, na espera,
um rumor de lilás rompendo-se.
E há, quando vem o dia,
uma partição do sol em pequenos sóis negros.
E quando é de noite, sempre
uma tribo de palavras mutiladas
procura asilo na minha garganta
para que não cantem eles,
os funestos, os donos do silêncio

(de Antologia Poética, tradução de Alberto Augusto Miranda, O Correio dos Navios, 2002 – original de Los Trabajos y las Noches, 1965)

15.5.06

ROBERTO JUARROZ

Toda a palavra chama outra palavra.
Toda a palavra é um íman verbal,
um pólo de atracção variável
que inaugura sempre novas constelações.

Uma palavra é toda a linguagem,
mas é também a fundação
de todas as transgressões da linguagem,
a base onde se afirma sempre uma antilinguagem.

Uma palavra é ainda o homem.
Duas palavras são já o abismo.
Uma palavra pode abrir uma porta.
Duas palavras fazem-na desaparecer.

(de Poesia Vertical, antologia e tradução de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras editores, 1998 - Campo da Poesia)

30.5.04

ALEJANDRA PIZARNIK

7


Salta com a camisa em chamas
de estrela em estrela,
de sombra em sombra.
Morre de morte longínqua
a que ama ao vento.

(tradução de Alberto Augusto Miranda, in Antologia Poética, O Correio dos Navios, 2002)

5.12.03

TAMARA KAMENSZAIN

Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1947.
Começou a publicar em 1973.
É um dos nomes mais significativos da poesia argentina contemporânea.

ESCUDO DE DAVID

Debaixo de sua boina negra
há um teto inflamável
turbulências
as nuvens vermelhas do trópico
flamejam acaloradas
a meio pau sobre Havana Velha
onde ninguém sabe dizer
onde repousam os restos
o que resta de mim
me deixa à mercê
de meu próprio mausoléu
puta
detida sobre seus pés
não espero por ninguém
e insisto que alguém
tem que chegar
um messias
sobre sua boina negra ladeado
o olho da tempestade
o manto celestial que arranque
pontas estreladas
dos óculos de Trotsky
estilhaços de um herói que se estampa
entre o peito e as costas
uma camiseta ferida
vale como escudo.


ANTEPASSADOS

Aonde vão?
Vou com eles descendo de meus filhos
até onde queiram chegar astros circulantes
se na hora do nascimento calcularam ascendente
não o abandonem mais.
Do Mar Negro até o Estreito
naturalizam-se comigo de mim procedem
meninos de sobrenome decomposto
viajando para ser argentinos
imigrantes por vomitar no convés
dando voltas eles nos voltam
como vinil arranhado dos beatles
da Rússia para cá
e daqui para a URSS que foi
donos de um deserto que avança
bisavós do nada.


MURO DAS LAMENTAÇÕES

Uma pasta vazia
sobre a mesa vela os restos
Com o quê escrever agora?
Resta apenas
o alefbet que com a ponta de mármore
anota nome e data
em outro mundo.
Cega, leiga, analfabeta,
que eu não bata a cabeça
contra a tumba imponente
dessa parede.

(de O gueto, Moby-Dick, 2003 - tradução de Carlito Azevedo e Paloma Vidal - este livrinho está a ser distribuído juntamente com o último número da revista Inimigo Rumor)

12.10.03

[gosto muito de inventários XXVI]

JORGE LUIS BORGES

Things That Might Have Been


Penso nas coisas que poderiam existir e não existiram.
O tratado de mitologia saxónica que Beda não escreveu.
A obra inconcebível que talvez a Dante fosse dado entrever,
Depois de corrigir o último verso da Comédia.
A história sem a tarde da Cruz e a tarde da cicuta.
A história sem o rosto de Helena.
O homem sem os olhos, que nos ofereceram a lua.
Nas três jornadas de Gettysburg a vitória do Sul.
O amor que não partilhámos.
O dilatado império que os Viquingues não quiseram fundar.
O orbe sem a roda ou sem a rosa.
O juízo de John Donne sobre Shakespeare.
O outro corno do Unicórnio.
A ave fabulosa da Irlanda, que está em dois lugares ao mesmo tempo.
O filho que não tive.

(de História da Noite, 1977 - incluído em Obras Completas III, editorial Teorema, 1998 - tradução de Fernando Pinto do Amaral)

21.9.03

[gosto muito de inventários XIX]

JORGE LUIS BORGES

Inventário


Há que encostar uma escada para subir. Falta-lhe um degrau.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Há o cheiro a humidade.
O entardecer entra pela casa em lâminas de luz.
As vigas do céu raso estão próximas e o piso está vencido.
Ninguém ousa pôr-se de pé.
Há um velho divã desengonçado.
Há umas ferramentas inúteis.
Ali está a cadeira de rodas do morto.
Há um pé de candeeiro.
Há uma rede de dormir paraguaia, com borlas, a desfiar-se.
Há utensílios e papéis.
Há uma estampa do estado-maior de Aparicio Saravia.
Há um velho grelhador a carvão.
Há um relógio de tempo parado, com o pêndulo partido.
Há uma moldura desdourada, sem tela.
Há um tabuleiro de cartão e umas peças desemparelhadas.
Há uma braseira de dois pés.
Há uma arca de cabedal.
Há um exemplar bolorento do Livro dos Mártires de Foxe, em
[intrincada escrita gótica.
Há uma fotografia que já pode ser de qualquer pessoa.
Há uma pele já gasta que foi de tigre.
Há uma chave que perdeu a sua porta.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de erguer
[este monumento,
Sem dúvida menos duradouro que o bronze e que se confunde com elas.

(de A Rosa Profunda, 1975 - incluído em Obras Completas III, editorial Teorema, 1998 - tradução de Fernando Pinto do Amaral)