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3.10.10

ARMANDO SILVA CARVALHO


OS PORTUGUESES


Todo eu sou alemão no pensamento, e antes de o saber
O francês não me deixava mentir
Com palavras de sol cinzento nesta boca insular
Dum condenado à cabeça.

Temos na língua um gosto pelo patético
Que nasce da insuficiência.
Morremos duma glória plasmada na distância,
Dirão os que não morrem para poderem
Contar.

Os que mirram, definham de goela aberta
E deixam no ar a dança gestual
De pequenos fantoches, olhos pasmados numa vida
De Europa entreaberta.

Oh, tomai por mau conselho
A minha fala doendo pelas ruas de Coimbra,
Pelas salas espessas de fumo em Lisboa
Pelas areias e dunas dessa boa Vila do Conde
Adormecida.

Um jovem irrequieto, um doente louco,
Uma cabeça virgem para recados maiores dos outros
Mundos,
Uns olhos magoados pelo sol da solidão.
Dizei-me, camaradas da luz,
Que mais vos posso dar, sem ser canção ou roubo
Do meu corpo,
Incandescente, eléctrico, lucífero?


(de Anthero Areia & Água, Assírio & Alvim, 2010)

29.3.06

[dia da TdA]

ARMANDO SILVA CARVALHO

UM DIA DA TERRA


Escreveste um dia que te levantavas
Quando o desgosto já não era alegórico
E te sufocavam os seus dedos
Devoradores.
Hoje antes de me deitar
Ouço o locutor dizer que a Terra
Será sempre território exclusivo do sol,
Do ar, da água.

Este planeta onde tenho a cama
E os mais instrumentos
Que me suportam o sono e outras formas
De esquecer os dias
Dá-me uma noite calma a ouvir
A voz do mar
Zeladora da minha solidão que sinto
Ligada à sua.

Não me apetece dormir.
Quero ficar de barriga para o céu
À minha volta
Quando o ar não me falta
E água me embala com o seu coro enrouquecido
De navegantes mortos
Com as suas mãos medonhas suspensas
Sobre as rochas
Como as duma velha ama.

Decido-me a fazer companhia
À Terra
E esqueço (sem esquecer)
O cruel fim dos milhares de indefesos,
As chacinas diárias, o ruído do ódio,
Do mal que grita
À minha cabeceira a minutada força
Do destino humano
Traduzido nas suas alegorias
Democratas.

Que belo rendez-vous me propõe
A torpe insónia
Nesta noite de Juízo Íntimo.
Tratar por tu severos astronautas
As emoções da Terra derramadas em gráficos,
O falso azul, os buracos negros,
A luz indiferente das estrelas,
O livro do universo.

E como tu dizias,
O domínio da vida sobre a ideia da morte.
A materia de deus deitada a meu lado
No branco do lençol.

9.9.04

(de Sol a Sol, Assírio & Alvim, 2005)

9.2.06

ARMANDO SILVA CARVALHO

Marfins


Em pelota. Rubicundos como velhos gansos. Já fastidiosos. Empolam a membrana onde esgalham versos. Empifarados. Que rilkas coisas estas crianças enfolam no amor pelos livros.
Começam com um lago, um poente, uma flor. A sua mousseline pende das líricas videiras do silêncio.
Sobem ao monte mais próximo onde descobrem um cágado. Deitam-no de costas e põem-se a chorar porque ele não anda.
Começam com um Deus. Uma forma obscuríssima de vida. Depois, a meio caminho, enxotam animais e homens e cotejam essa agreste solidão com extractos de cultura.
Os poetinhas desdenham um teclado sujo.
Enfiam-se em casa, polindo os seus marfins. Despedem a misericórdia dessa vida ingrata de reclusos e dão grandes passeios uterinos. Cansados dos avós, das palmadas no rabo, com olho fito em bibliotecas, esgueiram-se pelos corredores onde os papões os esperam, afeitos à brincadeira. Então a mousseline estica como leite azedado de bambinos.
Os poetas armam zaragatas porque todos pretendem o melhor dos desaguisados.
O povo, esse instrumento sofredor na mão dos literatos, ouve essas bulhas de bufarinheiros, cospe nas mãos e chama-lhes sacanas.
«É perigoso este instrumento dado aos inocentes.»
Os poetinhas fogem da rua dos fanqueiros, das fardas de criada, das popelines e das sarjas. Cegam com o pó que se levanta das peças de riscado e quando as burguesas, furiosas, colocam os maridos no caixote, os poetas saltitam, desdobram mousseline sobre os restos e fazem fogos-fátuos.
O povo, esse vazio onde as pessoas pousam mas não aquecem o lugar para os nomes, desfibra então a paciência, conta os tostões, inveja carpetes, lustres, pianos, magnetofones, e não inspira confiança.
Andam aos bandos como um poema antigo. Aonde esta escolástica precoce que lhes antolha os membros? Deserdados de músculos, com utensílios ineficazes ao pescoço, os poetinhas marujam na versátil confusão dos versos. Vêm-se penosamente nas tardes baças, onde piam pássaros de modo lúgubre, nas noites rígidas e calafetadas. Quando o aquecimento ao rubro já não dá mais margem ao desespero, os poetinhas sobem às cadeiras, retiram as molduras e põem-se ao espelho como as prostitutas.
Besuntam-se de tédio, colocam no rosto esses cremes nefastos que retiram dos armários culturais, desse arsenal de espólios que as famílias do espírito entesouraram para os descendentes.
Conhecem eles a guerra? O instante que se joga no gatilho? A cobiça dos bens? O mar de soluços que sobe pelas pernas podres dos que vão morrendo?
Arremedam o Instante, a Cobiça, o Soluço.
Fogem quando o pavor é real e a máquina uma força indomável que não cede a biografias nem a deuses.
E cantam.
Cantamos.

(de O Alicate, editorial Presença, 1972)

29.6.05

ARMANDO DA SILVA CARVALHO

21.


O verso fabricado não caiu repentino
da pálpebra perfeita.
Também não foi um pulo. Nem o motor
pateta de quem quer dar ao dedo.
Na fissura do liso alfabetado
ardeu a impaciência - agora branda purga
contra os canais histéricos
que refluem no tempo.
Dizem do pobre, a pobreza de espírito,
a limitada obcessão do que é pequeno.
O rótulo não delimita a obra das matrizes
os cristais literários
que o dedo aflora e logo sai repleto
com essa carga eléctrica que explode no silêncio.
As câmaras vivas que a memória habita
reproduzem-se. A fala incha.
As babugens sonoras são este eco do mar,
do mar humano.
Coabitas agora com os parvos da história.
Os que arrastam nos gestos a identificação,
a idade senil dos personagens,
o rio contuso das turvas lavagens cerebrais
sobre um palco doente.
Ouve a bailarina, o arquiduque, o chefe
das metáforas. Toma tento em como se desfaz
a hipérbole cantante no rosto amarelado
e que simula a fala perversa do desejo.
Não isoles o verbo dos seus dados sonoros:
o jogo de mãos, as paulatinas figuras
dos sentidos, os espaços aéreos,
a branca curva que restringe sobre os cemitérios
o árido prazer que te relegam os mortos.
De cada coisa a cada coisa a luz.
A fístula que a febre insonorizou
na garganta doente
seja a poção metálica
seja o fulgor do cérebro na boca
entreaberta.

(de Armas Brancas, 1977)

«Há um poeta

Há um poeta a que poucos ligam. Chama-se Armando da Silva Carvalho

Assim começa um post de Manuel Resende, que mereceu a justa reacção, na caixa de comentários, de dois dos poucos que ligam, Osvaldo Manuel Silvestre e Eduardo Pitta.
Eu também reajo, pois que na minha modéstia de mero leitor de poesia (e de prosa, em que ASC é tão, ou mais, acutilante como na poesia; e, além disso, tradutor) também lhe ligo.