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4.7.11

ARTUR PORTELA FILHO


Os cães


O rafeiro chegou ao pé do cão do portão e perguntou-lhe:
— Tu é que és o meu dono?
Como o cão do portão dissesse que não sabia responder, foram os dois lá dentro procurar o cão do jardim e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do jardim dissesse que não sabia responder, foram os três procurar o cão da porta e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da porta dissesse que não sabia responder, foram os quatro procurar o cão da cozinha e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da cozinha dissesse que não sabia responder, foram os cinco procurar o cão do corredor e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como cão do corredor dissesse que não sabia responder, subiram os seis a procurar o cão da escada e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da escada dissesse que não sabia responder, subiram os sete a procurar o cão do patamar e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do patamar dissesse que não sabia responder, subiram os oito a procurar o cão da porta e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da porta dissesse que não sabia responder, entraram os nove a procurar o cão do quarto e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do quarto dissesse que não sabia responder, foram os dez procurar o osso e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
O osso ladrou.

(de Três lágrimas paralelas, editorial Caminho, 1987)

22.12.08

ARTUR PORTELA

25


Desmoronavam-se e choravam gente.
Caíam-lhes, dos agora muitos olhos que tinham, muitas pessoas.
Lentamente se despenhavam de todos aqueles olhos que eram de vidro partido mais pessoas do que todas quantas ele jamais vira.
Achou-se a cair com elas, a cair entre elas.
Sendo imensa, embora mansa e vagarosa, quase meticulosa, a tristeza de todos.
Uma tristeza feita de espanto, desconcerto e desilusão.
Angústia era a sua por os ver assim.
Enquanto lentamente caíam.
Contavam, enquanto caíam, uns aos outros, quem eram, o que faziam, o que fariam essa mesma tarde se não fossem morrer dali a nada, e o que fariam naquele ano.
Os que estavam caindo em seu redor espantaram-se de o ver ali, e assim, naquele propósito de queda, levando um chapéu, que não era uso.
E não seria, sentiu ele, só isso, porque todos o olhavam de uma forma assim a modos que culpabilizadora, mas contida.
Além de que tinham de cuidadosamente cair, para não chocarem uns com os outros, e assim inutilmente se magoarem antes de morrer.
E, sempre a cair, mútua e muito polidamente se ajudavam, caia por aí que eu caio por aqui, cuidado que vem mesmo este senhor a cair sobre si, com licença, muito obrigado.
Ele só pensava numa coisa: a fome, que não me matou até hoje, sobreviver-me-á?

(de A ração do céu, editorial Notícias, 2001 – Outras Narrativas)

10.6.07

ARTUR PORTELA FILHO

DIA DA PÁTRIA - DIA DA POESIA?


Junho de 1972

No dia 10 de Junho, António Quadros escrevia, no seu «Caderno Diário» do «Diário de Notícias», sob o título «O Dia da Poesia», o seguinte:
«...Já repararam? Nos outros países, o Dia Nacional é a data comemorativa de uma Revolução, do Nascimento de um Regime político, do início de uma Autonomia nacional, etc... Entre nós, comemorando-se um poeta, comemora-se Portugal. De algum modo, é toda uma nação que decide representar-se simbolicamente, não como vinculada primordialmente às contingências da vida política, mas antes a algo de muito mais profundo e intemporal: a Poesia dum Poeta que morreu há quatrocentos anos, uma obra imaterial, feita de palavras, de ideias e de sonhos.»

Certo.
Camões é um poeta.
O Dia de Portugal é o Dia de Camões.
Logo, o Dia de Portugal é o Dia da Poesia.
Embora - sem que se queira pôr em causa nem o Dia de Portugal nem Camões - se possa adiantar que há muitas maneiras de ler, e de fazer ler, Camões.
É fundamentalmente poética a leitura da sua ideologia?
É, sequer, essencialmente poética a leitura da sua poesia?
A imaterialidade de Camões pretende-se que continue a sê-lo?
Os sonhos de Camões querem-se como tais?
A intemporalidade de Camões é o que mais importa?
Camões lírico ou Camões épico?
Camões total ou Camões parcial?
Camões genial ou Camões instrumental?
Camões coragem ou Camões geografia?
Camões povo ou Camões pompa?
Camões amor ou Camões Alcácer?
Camões futuro ou Camões memória?
A ideia de Pátria não é discutível - o que é discutível são as ideias discutíveis de Pátria.
A ideia de Camões não é discutível - o que é discutível são os excessos de revivalismo camoniano.
E, no entanto, Camões é, para o povo português, o mais célebre dos desconhecidos.
E, porém, «Os Lusíadas» são, para o povo português, - o mais famoso dos livros fechados.
Oculto um sob uma barragem de retórica.
Despromovido o outro a dicionário de ênfase.
Despoetizados.
Feitos ideologia. Feitos motivação.
Mas quanto vale, hoje, a ideologia de Camões?
Mas que força tem, hoje, como motivação, Camões?
Com a atenção toda mobilizada para o facto de que Camões morreu há quatrocentos anos, esquece-se que Camões viveu há quatrocentos anos. O que será a sua grandeza. Mas, também, a sua circunstancia. A sua inevitável inserção cultural, ideológica, civilizacional. O seu limite.
E, apesar de tudo, ele há imensos Camões.
Há o Camões insuportável do senhor Dom João III.
Há o Camões enfático do senhor Visconde de Almeida Garrett.
Há o Camões republicano do Ultimatum.
Há o Camões tricaneiro do sr. Leitão de Barros.
Há o Camões cronológico do sr. Hernâni Cidade.
Há o Camões militarizado do sr. António José Saraiva.
Há o Camões liceal do sr. Sérvulo Correia.
Camões gesso. Camões bronze. Camões feriado. Camões Adamastor. Camões pagão. Camões cristão.
Só não há - Camões povo.
Porque não há povo nos «Lusíadas» - só heróis?
Ou porque entre o verdadeiro Camões e nós está esse colossal obstáculo que é - uma certa interpretação dos «Lusíadas»?
Se Camões fosse, só, a Lírica seria ele alguma data?
Dia da Poesia?
Celebra-se João Ruiz de Castelo Branco, Bernardim Ribeiro, Rodrigues Lobo?
Celebra-se João de Lemos, Soares de Passos, João de Deus?
Celebra-se Antero, Junqueiro, Cesário?
Sequer, coerentemente, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Américo Durão?
Ou, antes, uma certa ideia da Poesia - a Épica?
Ou, antes, uma certa ideia da Epopeia - estrita, literal, restituída?
Camões é um élan - não é um programa.
Camões é uma época - não é o destino.
O destino aos Portugueses.
Dia de Portugal - Dia da Poesia?
Ou Dia de Portugal - Dia dos Portugueses?
O passado não se sabe de cor - analisa-se.
O futuro não se lê - faz-se.

(de A Funda - 2.º volume, editora Ática, 1972)