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23.3.14

JOHANNES BOBROWSKI


COM A TUA VOZ

Com a tua voz
fala pela noite
adentro o salgueiro, luzes
voam em seu redor.
No alto, uma flor-de-água
atravessa a escuridão.
Com os seus animais
respira o rio.

Levo para os cálamos
a minha casa entrançada.
O caracol
inaudível
passa pelo meu telhado.
Gravado
na palma das minhas mãos
encontro o teu rosto.


(in Como um Respirar - Antologia Poética, tradução de João Barrento, Livros Cotovia, 1990)

1.9.11

JOÃO BARRENTO


[...]
No contacto com a poesia de Bobrowski percebemos uma coisa essencial que a poesia deste século (pelo menos a portuguesa) em grande parte esqueceu: que o mundo lá fora existe e fala, e pede para ser ouvido e lido. O velho topos romântico do livro da natureza renasce aqui, sempre cruzado com o da História e do mito — e nesse cruzamento reside a sua originalidade —, com uma função próxima da que o filósofo Hans Blumenberg lhe atribui num dos seus fascinantes livros: a de mostrar como o metaforismo da legibilidade do mundo a partir da experiência própria pode ser um eficaz mecanismo poético (e filosófico) de presentificação e revitalização de perdas e ausências. Não era bem assim nos românticos, que exploram esse tema para se instalarem num escapismo muitas vezes regressivo, ou então para chegarem à afirmação da natureza mágica da palavra do poeta-sacerdote, particularmente em Novalis. A fonte mais directa de Bobrowski para a sua forma sui generis de diálogo com o mundo vem-lhe, porém, da própria tradição do espaço lituano das suas origens, onde subsiste a crença pagã nessa capacidade de a natureza «falar»: as coisas falam, basta dar-lhes ouvidos. Mas há sem dúvida reminiscências românticas na visão dinâmica da natureza neste poeta, que permanentemente nos parece querer mostrar como a natura naturata se tornou numa simples fachada, em letra morta de uma natura naturans; ou, inversamente, como esta, precisamente enquanto livro que fala, possui uma energia própria que actua como um sistema de sinais que traçam um mapa da História e itinerários da memória que com ela se confundem. [...]


(excerto da Introdução a Como um Respirar - antologia poética, de Johannes Bobrowski, livros Cotovia, 1990)

31.8.11

[outros melros LXII]


JOHANNES BOBROWSKI


RESPOSTA


Por cima da cerca
a tua fala:
cai a carga das árvores,
a neve.

E no sabugueiro tombado
o trinado dos melros, a voz
de ervas dos grilos
talha cortes nos muros, voo de andorinhas
a pique
contra a chuva, constelações
passeiam-se pelo céu,
na geada.

Os que me enterram
sob as raízes
ouvem:
ele fala
para a areia
que lhe enche a boca — assim há-de
falar a areia, e há-de
gritar a pedra, e há-de
voar a água.


(de Como um Respirar - antologia poética, tradução de João Barrento, livros Cotovia, 1990)