Mostrar mensagens com a etiqueta Brasileira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Brasileira. Mostrar todas as mensagens

18.6.14

CECÍLIA MEIRELES


Evidência

Nunca mais cantaremos
com o antigo vigor:
o entusiasmo era inútil,
e desnecessário, o amor.

Nos rostos que mirávamos,
derreteu nosso olhar
máscaras tão antigas
que se espantavam de acabar.

Nesse mundo que erguíamos,
deixamos presa a nossa mão.
E os companheiros, nestes muros?
Quando os terminam, e onde estão?

Puros e tristes ficamos,
puros e tristes e sós.
O coração é vaga nuvem.
E vaga areia, a voz


(de Mar Absoluto e outros poemas, 1945)

15.9.13

GILBERTO MENDONÇA TELES


CAMUFLAGEM

Havia um sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.
Veio o mundo com seus m'urros,
com seus disfarces de fera

(casco de ouro reluzindo
na arquitetura da noite)
e transformou tudo em cinza
na gestação de seus coices.

Cavalgou pelo silêncio
seus cavalos cor de barro
e foi largando no chão
o -ão do não de seus passos.

Depois, com dentes e unhas,
mostrou-se inteiro, no avesso:
era outro i'mundo, mas c'ego,
não tinha garras aduncas,

não tinha amarras nos murros,
não era fúria nem f'era,
nem viu o sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.


(de A Raiz da Fala, 1972)

17.6.13

JORGE DE LIMA


II

Era um cavalo todo feito em chamas
alastrado de insânias esbraseadas;
pelas tardes sem tempo ele surgia
e lia a mesma página que eu lia.

Depois lambia os signos e assoprava
a luz intermitente, destronada,
então a escuridão cobria o rei
Nabucodonosor que eu ressonhei.

Bem se sabia que ele não sabia
a lembrança do sonho subsistido
e transformado em musas sublevadas.

Bem se sabia: a noite que o cobria
era a insânia do rei já transformado
no cavalo de fogo que o seguia.

III

Qual um fagote inúmero a ave aquática
com uma ostreira de teclas submarinas,
os sons encachoeirados estrugindo
pelos goles das águas empoladas

conclamando os delfins de rosto humano,
cabeleiras de polvos e de fúrias,
com um severo clangor, uma lamúria,
um apelo profundo, tão insano

desse mar que nos mapas não se vê,
abrasado de raios e ardentias,
devorado por duendes que eram seus,

e voz tão rubra de cains oriunda;
que as águas se enrugavam e a ave ia
ia perder-se nos confins do mundo.

IV

Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o incubo cavalo se nutria.

V

Entre livro e cavalo  o homem instalou
duas escadarias e uma bússola;
depois verificou que sendo duplas
as suas asas dúbias, duplo o vôo.

Pousou na escuridão, e repousou,
pois era o dia sete de seus súcubos.
Foi quando se exclamou: Faça-se a luz.
E a luz dentro das trevas se formou.

Moldoror! Mal-e-horror! ó terra nata,
tão empresa, tão ébria, tão perjura
e sempre, e ao mesmo tempo tão amarga!

Que lume bruxuleia sobre as vagas?
Candelabro ou veleiro ou raio obscuro
que ora sobe na proa ora se apaga?


(do "Canto IV / Aparições" de Invenção de Orfeu, 1952)

13.1.13

LÊDO IVO


O  INVERNO

Suportar o  inverno
com a coragem dos sonhos.
Poeta viril e consciente
colherei flôres cheirosas
para você, fruta madura,
que em oferenda se abre.
Na chuva que cai
você nua se dispersa
e aceita o rio grávido
as tanajuras e a terra
parindo   destroços  biblicamente.

E na rede que oscila
o mundo renasce
surpresa e nudez
para a chuva que cai.


(de As Imaginações, 1944, incluído em Uma Lira dos Vinte Anos, com planejamento gráfico de Antônio Houaiss e João Cabral de Melo Neto, Livraria São José, 1962)

7.1.13

MANUEL BANDEIRA


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação.


(de Libertinagem, 1930)

19.6.12

JORGE DE LIMA



CANTO III
POEMAS RELATIVOS

X

Vós não viveis sozinhos,
os outros nos invadem,
felizes convivências,
agregações incômodas,
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias,
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;

os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;

sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,

e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.

XIII

Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.

XIV

O conto era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluísse;
se a pedra não fosse
o símbolo que era,
pois tudo era um dia,
um dia sem dia,
porém com o poeta
que um dia seria.


(de Invenção de Orfeu, 1952)




21.2.12


MANUEL BANDEIRA


SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores e fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
 Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas – deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-se com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria…


(de Carnaval, 1919)

16.12.11


LÊDO IVO


ALÉM DO PASSAPORTE

A noite dá a sua lição de universo: as estrêlas caem. Suspensas no ar vazio, elas deslizam no céu negro, fulgem rápidas, desintegram-se. Mas êsses acidentes celestes não exprimem desordem ou fadiga. Estão inscritos na retórica do cosmo, onde tudo é ordem e rigor.

O tempo é uma mentira das êstrelas. Viajante, não sei onde estou, nem mesmo se estou. Na terra desprezada pelo estrondo rouco do jato, as fronteiras voam e os fusos horários zombam da ficção local dos relógios. E, entre o sono e a vigília, contemplo nuvens imensamente brancas no céu escuro, celeiro das estações.

De súbito, surgem debaixo das estrelas as ocasionais constelações terrestres: ilhas criolas, paraísos explosivos que se espraiam, no mar espumoso, como fragmentos de um continente esfarelado.

Banidas as estrelas, a manhã ocupa o céu e o mar. O leve frêmito vertiginoso anuncia que o avião vai descendo de seu abismo às avessas. Plea.se fasten seat. Um farol numa ilha e uma gaivota são os primeiros sinais da Terra. E ambos reiteram ao sol pálido o vigor cansativo dos símbolos.

Desembarco e é outono em Nova Iorque.



OUTONO EM WASHINGTON

Uma chuva de fôlhas douradas
cai e espanta os esquilos de Washington
que não podem catar suas nozes
sem que não sejam incomodados.

Insólito aguaceiro de dólares
atrapalha as pombas que passeiam
entre os sapatos dos intocáveis
e talvez gripados milionários.

O estrondeio dos aviões a jato
estilhaça nos ares de estanho
os direitos civis dos pardais
em vôo do Obelisco ao Potomac.

E o turbilhão de vento e folhagem
crispa a orquídea na loja de fôres
entre o Bank of America e a noite
nos abrigos contra a bomba atômica.

Uma tempestade de corn-flakes
cai sobre as moças em flor que vão
aos psiquiatras perguntar como
lidar com as máquinas do amor.

Chuva de apartes no Capitólio.
Republicanos e democratas
dão ao foguete chamado Apolo
um prazo para chegar à Lua.

Um anjo de goma e pepsi-cola
faz o pedestre apressar a passo
nas avenidas incandescentes
de olhos de vidro inquebrável e aço.

Na poderosa e marmórea Washington
cheia de templos greco-latinos
só a borracha da noite de outono
apaga as garatujas dos homens.



NOVA IORQUE

Como é bela a América, o país das gaivotas!

Do meu quarto de hotel, vejo os arcos do mundo
e as bandeiras de todos os navios.
Môças caminham sòzinhas no dia fluorescente.
A florista negra sorri entre as camélias.


(da secção América, de Estação Central, 2ª edição: edições Orfeu, 1968))

29.10.11


JOÃO CABRAL DE MELO NETO


«THE COUNTRY OF THE HOUYHNHNMS»
(outra composição)

Para falar dos Yahoos, se necessita
que as palavras funcionem de pedra:
se pronunciadas, que se pronunciem
com a bôca para pronunciar pedras;
se escritas, se escrevam em duro
na página dura de um muro de pedra;
e mais que pronunciadas ou escritas,
que se atirem, como se atiram pedras.
Para falar dos Yahoos, se necessita
que as palavras se rearmem de gume,
como numa sátira; ou como na ironia,
se armem ambiguamente de dois gumes;
e que a frase se arme do perfurante
que têm no Pajeú as facas-de-ponta:
faca sem dois gumes e contudo ambígua,
por não ver onde nela não é ponta.


2.
Ou para quando falarem dos Yahoos:
não querer ouvir quando falar, pelo menos;
ou ouvir, mas engatilhando o sorriso,
para dispará-lo, a qualquer momento.
Aviar e ativar, debaixo do silêncio,
o cacto que dorme em qualquer não;
ativar no silêncio os cem espinhos
com que pode despertar o cacto não.


(de A Educação pela Pedra, 1965)


JONATHAN SWIFT

[…]
O cavalo-chefe ordenou a um garrano alazão, um dos seus criados, que desamarrasse o maior daqueles animais e o levasse para o pátio. A besta e eu fomos colocados frente a frente e as nossas caras cuidadosamente comparadas, tanto pelo chefe como pelo criado, enquanto repetiam várias vezes a palavra «Yahoo». São indescritíveis o horror e o espanto que senti ao reconhecer naquele abominável animal um perfeito homem. A sua cara era, de facto, achatada e larga, o nariz baixo, os lábios grossos e a boca desmedida. Estas características são, porém, comuns a todos os nativos das nações mais atrasadas, em que logo de pequeninos os traços da cara são deformados, quer por andarem de rojo pelo chão, quer por irem esborrachando a cara de encontro às costas da mãe, quando esta aí os leva. As patas dianteiras do yahoo distinguiam-se das minhas mãos apenas pelo comprimento das unhas, a aspereza e tom acastanhado das palmas e os pêlos nas costas. O mesmo valia para os nossos pés, o que os cavalos não puderam apreciar por causa do meu calçado. Essa mesma semelhança estendia-se a todo o resto do corpo, com excepção do adorno, capilar e da cor, como já descrevi.
O que mais embaraçava os dois cavalos era encontrar o meu corpo tão diferente do do yahoo, o que eu devia às minhas roupas, que eles, por desconhecimento, tomavam como parte integrante do meu corpo. O garrano alazão ofereceu-me uma raiz, que ele segurava (como lhes era próprio e eu descreverei na devida ocasião) entre o casco e a quartela. Peguei-lhe e, depois de a cheirar, devolvi-lha tão cortesmente quanto me foi possível. Trouxe, em seguida, do estábulo do yahoo um bocado de carne de burro, que eu recusei com repugnância, tão mal cheirava. Atirou-o, então, para o yahoo, que lhe saltou em cima e imediatamente o devorou. Ofereceu-me depois um molho de feno e um punhado de aveia, mas abanei com a cabeça, mostrando que nada daquilo me servia como alimento. Nessa altura convenci-me que morreria de fome, caso não viesse a encontrar alguém da minha espécie. Quanto àqueles imundos yahoos, não podia contar com eles, e, apesar de nutrir, como poucos na altura, grande amor pela humanidade, confesso nunca ter visto ser sensitivo mais detestável em todos os aspectos; e quanto mais os ia conhecendo, durante a minha permanência naquele país, mais repugnantes me pareciam. Adivinhando, pelo meu comportamento, tal aversão, o cavalo-chefe mandou recolher o yahoo. Levou, então, uma das suas mãos à boca, num movimento perfeitamente natural e executado com tal facilidade que me surpreendeu sobremaneira, com o que, juntamente com outros sinais, me dava a entender que não sabia o que havia eu de comer. Era-me, porém, impossível responder-lhe de maneira a fazer-me compreender; e, mesmo que me compreendesse, não via onde ele iria encontrar comida para mim. Passou nessa altura por nós uma vaca, e, apontando para ela, fiz menção de a ir ordenhar, pelo que ele me conduziu de novo para dentro de casa e, ordenando a uma égua que abrisse um quarto, me pôs perante uma abundante provisão de leite, contido em vasilhas de barro e madeira, numa ordem e asseio exemplares. A égua deu-me a beber uma tigela cheia, que eu bebi com gosto, sentindo um conforto imediato.
[…]


(excerto de As Viagens de Gulliver, tradução de Maria Francisca Ferreira de Lima, Biblioteca Visão, 2000)

24.10.11

LUIZ RUFFATO


À mesa tomam assento os eleitos,
alvas toalhas, asseada comida.
Bebem, conversam, enfastiam-se.
Ao relento, observamos, além
da janela. Sendas inúmeras
de mãos dadas percorremos,
vasta solidão. às nossas costas,
quanta ruína! Putrefazem-se
os mortos sob os monturos,
faz fortuna a peste. E a nós
nos foi dado os sinais aguardar.


(de As Máscaras Singulares, Boitempo editorial, 2002)

24.7.11

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


POEMA QUE ACONTECEU


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.


(de Alguma Poesia, 1930)

3.4.11

EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA


HISTÓRIA ANTI-NATURAL

HOMEM BALA


Um emprego não basta
para sanar as dívidas.
Quanto mais ajusto
tanto preciso ajuntar.
Quando paro, tudo
em mim trabalha.
E já uma outra dívida,
crescendo no sujo
da antiga, se anuncia.
Mal desço na praça
um braço me cobra,
outros me olham.
Tudo em mim se rala.
O que sobra gera
outra promissória.

HOMEM GOL

Falhar é um direito,
em meu caso, um caos.
Se me ausento do lance
é como se acabasse
o gás para o almoço.
Cada boca tem a fome
do juízo final até que o
juiz apite: acabou.
O jogo agora se disputa
mesmo sem partida.
Não há dono do time,
bola também não há.
A tática minha e sua
é atacar na defensiva.

HOMEM MOSCA

Para lições de leveza
nada mais que o corpo.
Se possível um anúncio
em que a sorte nos
convide à sua fazenda.
Para se manter no ar
é preciso músculos
e alguma tolerância.
Nossa natureza é pedra,
se muito, espuma.
Mas não será absurdo
flutuar na palavra
uma vez e outras.

HOMEM RÃ

O início do mergulho
está na ausência da água.
Quando tudo é esgoto
como achar o que se busca:
um braço e um dejeto
são uma só carcaça.
Recuperamos as coisas
em partes e com isso
a luta se reapresenta.
Num braço o corpo,
num chassi a máquina
que o precipitou no rio.
Mergulhar é dar início
a um quebra-cabeças.

HOMEM NU

A mão que me devassa
não colhe senão
fiascos de um tecido.
Há muito me imprimo
em formas anuladas.
As que têm medo
e, sendo muitas, vão
sozinhas ao labirinto.
Onde não há marcas
vigem meus dedos.
O nome que ostento
é um clã de anônimos
associados & filhos.

(in Oiro de Minas a nova poesia das Gerais, selecção de Prisca Agustoni, Ardósia, 2007 - colecção Pasárgada)

7.11.10

(foto daqui)


JOSÉ SANTIAGO NAUD



BARCELONA


Sagrada Família

Aqui de movo se recupera o Cristo
e nova a natureza se redime.
Abstracção, a reta
cede passo à espiral
mas são os montes que descem o foco de luz
centrado entre os picos e o espaço.
Tudo quanto — familiar
ou altivo — homem pode conter
aqui se inicia. Tanto génio em preconceito
vencido torna o tempo possível e faz
com que a origem reverta. Depois dessa
força é mudar de vida.


(de Conhecimento a Oeste, Moraes editores, 1974 - Círculo de Poesia)

1.11.10

ILDÁSIO TAVARES


Canção dos Hipocampos


Somente a menina cega
foi quem viu os hipocampos
passeando pelos campos,
verdes campos, verdes mares
bravios de minha terra
onde mais nada gorgeia
nas frondes das carnaúbas,
lá em cima das palmeiras,
debaixo dos laranjais.

El-rei decretou agora
que toda a ave canora
que cantar, morre na hora;
e para mor segurança
chamou feras estrangeiras
para poluir palmeiras,
nossos bosques, nossas várzeas
onde não tem mais flores
nem tampouco sabiás.

Sorrindo, a menina cega,
no desprimor desta praia,
desenhou uma jandaia,
rabiscou um sabiá,
enxergando na cegueira
mais que a humanidade inteira
pelos campos hipocampos
como uma turba de vândalos
desembuçados dos céus.

El-rei cauteloso dita
do alto do trono asfáltico,
o século que viu a pomba
viu um Pablo e sua pomba
e mais dois Pablos safados;
por isso, no meu reinado,
nenhum passarinho canta,
se cantar, a morte é certa
na mira do meu fuzil.

Somente a menina cega
percebeu que os hipocampos
comiam cravos, crisântemos
e douradas borboletas.
Em cismar sozinha à tarde,
naquela tarde fagueira,
ela viu como pastavam
e vomitavam lirismo
pelas ventas de metal.

El-rei, vigilante e esperto,
bradou, “Me tragam poetas!”
principalmente os românticos,
e cozinhem suas barbas
em molho de água e sal;
e se forem tão imberbes
que não engrossem a sopa,
tragam-me as neves de antanho
que os anos não trazem mais.

Pouco a pouco os hipocampos
avançavam pelos campos,
e a meiga menina cega
nada podia fazer
senão vê-los e temê-los
aguardando sua hora
e a hora de todo o mundo
neste reino à beira mar.


(de Cantigas e Canções 1977-1993 / in Poemas Seletos, Fundação Casa de Jorge Amado, 1996 - Casa de Palavras)

6.9.10

DORA RIBEIRO


um poeta se faz no silêncio
em bocas sem palavras
onde as horas são becos escuros
e os lábios difíceis marcas do tempo

um poeta se faz no oco do mundo
em lugares expostos e secretos
minúsculos
mas incendiáveis


(de Outros Poemas, 1997 - in o poeta não existe, Angelus Novus / Cotovia, 2005 - Colecção Inimigo Rumor)

23.7.10

JÚLIO POLIDORO


eu sei, mas por saber, sei que sou parco,
tudo que não tenho é o que perco:
a morte se aproxima e fecha o cerco,
descreve uma espiral, desenha um arco.

sou para o oceano menos que um barco,
me sinto sobre a terra qual esterco;
fecundo esse fogo de que me acerco
com o ar que se sufoca sob o charco.

eu sei e por saber sei que sou pouco,
perdido, navegando como louco,
procuro por um cais que não conheço.

eu sei, pois por saber sei que pressinto:
no gesto de perder, que não consinto,
me enleia alguma teia que não teço.


(in Oiro de Minas a nova poesia das Gerais, selecção de Prisca Agustoni, Ardósia associação cultural, 2007)

9.7.10

ALEXANDRE O'NEILL

CARTA-PREFÁCIO
PARA VINICIUS DE MORAES

Amigo:

Quando estiveste, da primeira vez, por aqui dando show, umas granfas (loiras e morenas notáveis, como diria Mestre Carlos, mas granfas), comentando os preços da boate onde, em duas ou três sessões, te produziste com a tua turma, disseram ou fizeram dizer: «Quem não tem dinheiro, não tem Vinícius.» Vinícius, vícios... Não ligues. Olha que elas dispunham de muito bago. Estavam era a ser desajeitadas na maneira de te homenagear. Algumas conheciam de ti o poeta encaixilhado no sério. Charmoso, mas, apesar de tudo, respeitável-respeitoso. Usavam o teu «Soneto do Amor Total», não como tabatière à musique, nem como máquina de pensar, mas como caixinha de arroubos, entre as muitas outras que sempre trazem na molinha, com coisinhas para pôr ou tirar dor de cabeça.
Dessas, umas quantas mostraram-se decepcionadas, ofendidas contigo por teres descido do livro à boate, do soneto ao samba. E fizeram constar a decepção, a ofensa que sentiam. Não ligues. Estavam era mordidinhas de inveja perante a quantidade de liberdade que tu, em cada noite, produzias!
Marcus Vinicius, eu vi-te aquém e além-palco, con-vivi-tigo. No Alentejo, que agora, mais que nunca, ai de nós, é um adjectivo, vi-te, convivi-te no teu simplório convívio. Estavas em construção, como sempre não definitivo. Tua felicidade, teu riso mais riso, era entre esse pessoal amigo.
Há muita gente ainda por aí (tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze, quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar, que afinal é o mesmo: tocantar.
Perceba, por uma vez, essa gentalha, que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!

São


o operário


em construção


Abração

ALEXANDRE O'NEILL

Lisboa, Nov. 75



(in Vinicius de Moraes, O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)





VINICIUS DE MORAES


Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
«Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes.»

(in O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)

4.6.10

[Prémio Camões 2010 - ouvir a evocação feita por Fernando Alves, na TSF]

FERREIRA GULLAR


SETE POEMAS PORTUGUESES

8


Quatro muros de cal, pedra soturna,
e o silêncio a medrar musgos, na interna
face, põe ramos sobre a flor diuturna:
tudo que é canto morre à face externa,
que lá dentro só há frieza e furna.

Que lá dentro só há desertos nichos,
ecos vazios, sombras insonoras
de ausências: as imagens sob os lixos
no chão profundo de osgas vis e auroras
onde os milagres são poeira e bichos;

e sobretudo um tão feroz sossego,
em cujo manto ácido se escuta
o desprezo a oscilar, pêndulo cego;
nada regula o tempo nessa luta
de sais que ali se trava. Trava? Nego:

no recinto sem fuga — prumo e nível —
som de fonte e de nuvens, jamais fluis!
Nem vestígios de vida putrescível.
Apenas a memória acende azuis
corolas na penumbra do impossível.

(de A Luta Corporal, 1954)


FORA DA LUZ

Derrubado em seu corpo na trevosa
boca doce da carne que o engole
como um sexo, dorme. E é lume o sono
que em vão se queima pelas torres jovens

Dorme fora da luz no velho esgoto
onde as harpas. Outubro flamabrando.
Às suas portas de carne adormecidas
a corneta do mar abandonamos

Resta o teu rosto solto a terra sacra
as aranhas de sal tecendo um cubo
Treme em teu lábio do dia assassinado
O sol o girassol a flama surda

Resta o facho de borco a flor perdida
o homem mordendo a sombra desse facho
As coroas da terra dissipando
seu escuro clamor na luz. E resta

de tal fogo tal facho trabalhado
às portas desse homem a leste dele
Fogo poeira pó pólvora acesa
na epiderme comum. Bonjour, Madame!

(de O Vil Metal, 1960)


DOIS E DOIS: QUATRO

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

— sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

(de Dentro da Noite Veloz, 1975)


VERSOS DE ENTRETER-SE

À vida falta uma parte
— seria o lado de fora —
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa

e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.

À vida falta uma porta.

(de Barulhos, 1987)


(in Obra Poética, edições Quasi, 2003 - Arranjos para Assobio)

30.9.09

[em face dos últimos acontecimentos...]

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS


Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

(de Brejo das Almas, 1934)

24.9.09

ARMANDO FREITAS FILHO

A linha da vitória
é a do horizonte.
Com principício e fim
e o que conta
não é a duração da pista
da pegada: é a do desejo
para acabar cruzando
antes do tempo
e com a corda toda
um instante depois
o espelho vazio de chegada.

(de 3x4, editora Nova Fronteira, 1985)