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25.1.14

[Mindelo, 22.Setembro.1922 - 24.Janeiro.2014]

AGUINALDO FONSECA


ESTIAGEM

Esta secura calada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.

Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.

(Oh! que desejo de uma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas)!

Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?

Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.



(in «Claridade», n.º 8, 1958)


PELA ESTRADA LONGA DA MINHA ESPERANÇA...

De cabelo ao vento,
Pela estrada longa da minha esperança,
Vou marchando sempre,
Ao compasso quente do meu coração.

Vou de mãos vazias, vou de lábios secos.
Pela estrada longa da minha esperança
Vou colhendo tudo e vou deixando tudo.

Dias, meses, anos, vou-os sepultando
Sob a estrada longa da minha esperança.

Olham para mim
E gritam com sarcasmo:
— Por que vais marchando, por que vais sorrindo?
Que mistério é esse que te acena ao longe?

Vão caindo folhas...
Frios ventos uivam
Pelo descampado...



(de Linha do horizonte, 1951)

15.12.13

DANIEL FILIPE


CROMO

Esta janela dá
para coisa nenhuma
Não é janela, é vago
orifício na bruma.

Orifício por onde
se alicerça de espuma
a líquida vereda
que vai a parte alguma.

E onde aflora a paisagem
certa-voz matutina,
que se quebra de espanto
feita coisa, dor fina.

E como dor resvala
e, dócil, se insinua
entre a camisa leve
e a pele do Poeta, nua.


(de Pátria, Lugar de Exílio, 1963)

6.4.11

JOSÉ LUIZ TAVARES


11.


Há um tesouro que não enferruja
nas costas da tua mão; embora
a pele entregue às sevícias do curtume.

Deste lado, dimanações do que poderiam
ter sido recônditas juras num domingo
de sinos e renúncia. Revigoram-te
como o riso indubitável dos jovens laureados
cujos crânios ungiste com a erva nova
de setembro, por sob o olhar de um deus menor.

Mas porque já não posso louvar essas velhas
divindades; porque o fuzilante vento apagou
os mínimos sinais dispostos sobre a terra
e o bordão dos prodígios já nenhuma água
traz ao cimo das escarpas;

porque silencioso necrotério a sala onde
arquejante me ensinaste as primeiras letras
(tu que com o sofrimento mantinhas um comércio
astucioso) e ignaros vinham para uma carta

ou um conselho; mas sobretudo porque o que fazia
humano este lugar – velhos de conversa lenta
reaprendendo de novo a leveza da infância;
quatro ou cinco árvores explodindo no ar seco do verão –
soterrou-o um tempo malfazejo;

ou porque talvez tenha razão o fernandes Jorge
e regressar não seja verbo que se conjugue,
desde essa orla onde tudo é demasiadamente
estrangeiro, esquissos da impossível pátria
lavro onde de novo me erguesses
para a mortal vocação de ser homem.


(de Paraíso apagado por um trovão, 3ª edição: US edições, 2010 – 1ª edição de 2003)

28.10.09

RUY CINATTI


XIII


Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrazar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.

Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.

O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.

(de Crónica Cabo-Verdiana, 1967)
FILINTO ELÍSIO

9.


sabe o poeta que a hora é plácida
pedestal caindo
estrela cadente
estrelas do mar
algas da sorte
(retornando à ida)
timbre de voz
que o poeta pressente...

(de Do lado de cá da rosa, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1995)


7.

Perdoa-me mas não me ocorre a Atlântida de Platão
As ilhas têm uma só raiz: o amor!
O resto é ínsula língua do mar coxas d’areia

Macaronésia só de mamas arquipélago de gemidos
Barlaventos de braços sotaventos de pernas
A Vénus sai das águas e o Caliban da terra é fome

São as ilhas o reverso do Paraíso sem molduras
Mangas cocos tâmaras musgos seixos espumas
Serpentes sem pecado sem veneno sem Bíblia!

(de O Inferno do Riso, Instituto da Biblioteca Nacional, 2001)


3

As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

(de Das Frutas Serenadas, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007)

27.10.09

(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)


SÉRGIO GODINHO

Chuvas de Cabo Verde


Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão

Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna

Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado

(do álbum Aos Amores, 1989)



(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)

26.10.09

ANTÓNIO PEDRO

I

Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.

Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.


há mais do que calor,
há dor
do sol!

…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto

…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…

No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –

E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…

Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?

Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...

(de Diário, 1929)

25.10.09

MANUEL LOPES

MAR-ALTO


E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...

E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...

E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...

E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...

E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...

(de Crioulo e outros poemas, 1964)



LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)


Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida

sob os escombros da vida
que se recusa na morte...

(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)

4.6.09

[Prémio Camões – ler aqui e ouvir aqui]


ARMÉNIO VIEIRA


LISBOA - 1971

A Ovídio Martins e Osvaldo Osório


Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.

(de Poesia Um – 1971-1974, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)



SER TIGRE


O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar

O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.

Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.

(de Poesia Três – Após 1981, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)



Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.

Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?

Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.



ANTIPOEMA

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sémen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.



EXCENTRICIDADES GREGAS

Zenão rejeitava o óbvio
- entre o arqueiro e o alvo
o percurso da flecha é infindável,
de forma que o célere Aquiles
nunca apanha a tartaruga.

Platão era o oposto, afirmava
o improvável - a Ilíada, por
exemplo, era um mero duplicado
de um original escrito por um poeta
anterior ao nascimento
das estrelas, cujos símbolos
são a Esfera, a Luz e a Palavra.

Pitágoras era de opinião
que os números pares são demoníacos,
razão por que o três é melhor
que o seis, o cinco preferível
ao quatro e assim sucessivamente.
Nunca se deve comer feijões.
Quem o fizer corta o fio das
reincarnações, de sorte que a alma
fica prisioneira num eterno triângulo,
ou seja, entre dois catetos
e uma hipotenusa guardados por um dragão
de mil olhos e três línguas de fogo.



MALAE TENEBRAE

Never more! crocitava
o corvo Poe
aspergindo gordura
fervente e fétida
sobre os defuntos
que o chifrudo rei
dos pés-juntos
se aprestava
para transportar
ao reino onde as maçãs
nascem já podres
e os escorpiões
jamais param de crescer
para o tormento
das almas.

(de MITOgrafias, Ilhéu editora, 2006)

9.8.07

[Havemos de ser úteis como mortos há muito]



JOÃO VÁRIO
Pseudónimo de João Manuel Varela, que utilizou também os pseudónimos Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Nasceu em 1937, no Mindelo, em Cabo Verde.
Uma síntese da sua Vida e Obra pode ser encontrada aqui.
Morreu na madrugada de ontem, na sua cidade natal.


CANTO TERCEIRO

E assim rodamos de objecto em objecto
Como seres concebidos no alto inverno,
Tal o círculo das coisas e as coisas do seu tempo,
Porque um homem pode matar-se,
E, se nos matamos, porque seres
Concebidos no alto inverno,
Sem a farinha deste ano e esta pausa aguda
(Oh tal lassidão, o decúbito, a ansiedade!),
Podemos ceder ao tempo e seu tempo o tremor
E a vaidade que não exigem de objecto
Em objecto, qual tempo que não exige
Esse giro fulminante e essa pausa aguda,
Tal, se nos matamos, há tal coisa de verão
Para citar e criamos mais depressa
E cedo rodamos de objecto em objecto
E não o negam os que vêm no verão.
Que vos dizíamos nós?
Nessa altura da vida
Tivemos medo à sabedoria.
(Sob seu sumário prestígio, a alma, lembrança
E ela, decide
Sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos.
E não saberemos que é impossível, impossível.
Ao movimento narrado de ter a vida,
Somos sem deuses, e vagos.
Oh o que amáramos
Não fosse a unidade
A que a alma nos força!
A noção, à mão, o cânone, à porta,
E o valor do rosto quando dorme:
Facto, ode ou cárie
Que comemoram a longevidade).
E eis que as casas se enchem dos ossos
Que perdemos, medindo a terra
Com os crânios que a vida perde porque é outra,
E o repouso das paredes que vão cegando
Crânio e terra, família e ambos. Tal os
Ossos arrefecem sem a chuva, como ela,
E as terra que os cobre nos cobre menos
Ou abre do nosso lado outra terra vizinha
Da terra que vamos dando com os ossos,
A chuva, o cobri-la hoje, terra
Ou chuva que outra coisa não cobriu, ontem.
Quando morríamos, ou cobre hoje, quando
O suicídio nos acode
E arrefecemos com ela, diz-se,
E outra vítima em nós, assim e alheia.
E em toda a parte a urna é a mesma,
E a língua que enche o túmulo
É o tumulto que persegue as crianças
Sobre a terra dos pais, a pá maior e a loucura
Tal espera outras trevas para a profecia,
O dogma, o granizo que desabam sobre o soro
Dos rostos, pasmos óbvios sem o horror dos discípulos,
A versão de seu deus e nossa inocência de adultos,
Adobe ou adubo que a boca arrasta
Na saliva para a hóstia povoada
Que não o tempo, mas seu tempo,
Doeu ou deu no peito largo, chão,
Não cristão, que bebe e morde
Da água desta celha, veste desta roupa na corda
E esfrega a terra deste mundo
Sobre seu corpo de pobre, como óleo,
(Só quando imutáveis mortos nos legássemos,
Nos não aterre essa capitulação
Que amamos proibir. Com efeito,
O que blasfemamos é inominado. Entanto,
Se de símbolos, e lúgubres,
Os pactos tecemos com a alma,
Tê-la é tão só a dimensão sua
E alheá-la, reduzida).
E tudo que a nós, presságio,
Pasmos, perdulário instinto,
Regressa,
Circunscreve-nos à tradição
Aleatória
De em pura fatalidade concluir a alma.

(Eis a vítima, nosso saco de gâmetas e de enzimas,
Com agosto arrastando vidro e pedra,
Coentro e alho pelas portas dos vivos,
Tal cadáver ou mó desta ternura
Com que outrora arávamos sua estéril vida
De mês nosso estéril mês de vida, às portas das vítimas,
Tal a profissão menor, as gengivas
E as jovens da cidade falando de Plotino).

Para a culpa que em nós se inconstitui
Absolve-nos, legando-nos
A desespero menos fortuito
Que exaustão ou remorso. Contudo,
Nem de tão sepultos
Nos logramos menos vulneráveis.
O falso alarme, o lucro, a ofensa,
O opróbrio, a tolerância, a escolha,
Pecadores apenas e tal como pecadores,
Coisas que repetíramos, coisas que ficaram,
Coisas de ostentação e de verbo alto,
Coisas do humor, da páscoa, públicas coisas,
E coisas de primavera transacta, de semana santa,
Coisas porque nos matamos ao pedido do óbulo,
E coisa de redacção privada.
Qual vantagem ou cumplicidade ou acordo póstumo,
À entrada da ilha, no principio da igreja, à hora
De sair com os utensílios para a prece,
Para a preguiça, para a carícia e para a gratidão
Na revolta e no massacre reflectimos,
A vantagem, a cumplicidade, o hábito, olvidados
Ou amando os únicos rostos, indigência como fruto
Que ao seu sentido coube, tal
A luxúria, a nudez, o vexame, a volúpia,
O habito, o tédio, a monotonia, a inveja,
O tédio, o mau humor, o hábito, o tédio,
A vontade de viver e o temor de morrer,
E a vantagem, a cumplicidade e o acordo póstumo. Tal
O vício é um novo presente para os crimes nossos
E sob a alegoria da tarde e a amizade do meio-dia,
Impetuosíssimos, discorremos sobre a família,
As horas de sono e os meses de gestação
E de trabalho árduo, tal sua paz,
Paz certa, paz outra, paz amplíssima e paz grande.

Trata-se do ócio, da diferença, do baptismo, ó homens.

(Tudo chegou com o engano, a data do parto,
A primeira fome, o engano,
A data do parto é um mais triste coito).

Pagãos votivos e, de votivos, concussos,
O que restituímos de conclusão e apocalipse
Não assimila na razão e no desígnio
A desfigura que nos sobrevive - crime
Ou tutela do pão que a reminiscência promove.
Pois que o tempo que nos traímos
Não supõe corpos supérfluos,
O conhecimento é a só mesma dor
Com que nosso próprio abandono confundimos.
Sabemos, pois, que o que falta é um pouco de utilidade.
A réplica, o inverno imediato, a escuridão alta
E os primeiros surtos do favor, os meses e os anos
De setembro brusco, e as últimas mesas e o vinho
Chegando com a estupefacção, a impotência,
E a réplica, o inverno imediato e a escuridão alta.

Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, a vergonha, o desprezo, a falência,
A chave do regresso e a opressão do regresso,
Desde regresso e desde regressar, regressando
(A solidão do outono e a fatalidade do outono,
Outono ou outono, outono sempre,
Outono se assemelhando, outono semelhante,
A solidão de ter e de não ter feito,
Sendo mais nada em nada, ou nada,
E tempo de considerar que morremos),
Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, eis que para cima do robusto vaso do sangue
Sangue em si próprio e acima de outro sangue,
Elevamos, a meio do casto outono, a cabeça sonora.
A recusa, o bem da luta, o morto e seu morto.
Tal os mortos nossos, nem sempre
Mortos sempre ou mortos connosco ou com morte
Por que morreram. Tal um pouco são
Da hospitalidade que o corpo inclina para a sombra
Que o usa, ao meio-dia, o gozo, a arma,
E a terra e as varizes que os usam. Mortìssimamente
Mortos.

Pois sem beber é da atenção e do alarme que falamos,
Sem eles bebendo, porque menos bebem,
Ao fundo do diário sangue bebendo, porque há os que menos bebem,
Tal necessidade e fecho ou desnecessidade e desfecho.
E tal é o sangue no fundo do sangue, seu sangue por dois,
Sangue outro que duplo, sangue com advento do sangue,
Ou sangue que esquecemos de beber, bebendo.

Quando junho começa e se fala
De mutilações e de outubro,
O homem o domingo recebe
Como quem mutilações e domingo
Reflecte, pois a alma se lembra de junho,
E está alta, menos alta, através de estar-se lembrando,
Outubro lembrando.

É, pois, um outro soleníssimo inverno. Inverno e sua corda
E cabaz de nos observar com a mão, de nos tomar
Por outra vida, sua vida de inverno e sua
Inverníssima vida, e de inverno,
De inverno ouvindo. E
Homens destes tempos, sem a excelência deles,
Homens precários, lassos, mais,
Enquanto seguíamos, baços, falsos, entre estevas e o século,
De longe seguíamos a mulher aguardando
Seu sexto filho,
O choro, o vento e a venda em seu ventre,
Ventre seguindo de longe, ventre ou ventre, ventre
Sempre, ventre a esmo.

(Por certo, a planta dos pés de um homem
De nada vale neste mundo. Pois
Que são o seu rectângulo de ruído,
Sua tensão de carne, agosto, o camelo
E o fundo da agulha, como se diz?)

Tudo conhecemos agora que o sol cai e é a simples razão de cair
E hesitar connosco. O sol, sem de ser sol tal,
Sol tanto, sol aquele do solo, do solstício, do sono,
Do desenvolvimento, de sol tal.

Ah dignidade! acreditamos valores de abominação
E de dezembro.
Tempo grande e oramos. Aula e beijo,
E ninguém precipita sua sesta de crente,
E sabemos que vamos cumprindo como fidelidade
O que a fidelidade com alta sapiência cumpriria.
E tal é o assunto.

Que preceito, pois, que celeridade ou feitio
Que frio será, homem, tua totalidade?

Não insistimos mais sobre estarmos tristes e morrermos.
A herança, o jogo, o frenesi, o gesto,
O apetite, o negocio, apetite
De destruição e de vantagem,
De continuar e de sobreviver.
Também o triunfo, o prazer, o prazo de morrer
E de ganhar, de acabar e de recomeçar,
E o gozo da obediência. Tal
A paz. Paz e mito numeroso
A mesa desdobrando sobre a notícia, o sarcasmo,
O dolo ao sétimo dia de junho,
Mês da impaciência e de canto triste, mês
Com verão e da sua teoria do verão e do tempo,
Mês velocíssimo.
A jornada, o aniversario, o arrependimento.
Tal o alimento por baixo do alimento,
O alimento acima do alimento. Alimentìssimamente.
Festa e espelho. A recepção
O sucesso, o tempo. Tempo grande.
Tal há os que menos bebem, porque menos bebem, porque menos bebem,
Sem eles bebendo, ou bebendo, tal
Não há imortalidade
E não podemos pagar a reminiscência.
Porque pasmos e hábitos vacilam em nós
O limite e as lembranças.
E enquanto instituímos os signos
E nos louvamos nos mortos imortais,
A alma, génese e ela,
Decide sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos. Tal
Memória ou memórias,
Memórias como salário
Ou cântaros de sacrifício,
No signo dos gémeos, ao vigésimo terceiro ano
Do principio do signo,
Humanas razões de censura e audiência,
E o auxilio, o prazo grande, a possibilidade
Porque da morte nos ficou esse dom
De a pensarmos como coisa sua,
Coisa por que a pensamos e acaso não a exprime
Porque a designamos.

Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo concede,
Fim de novo e reconhecimento de novo,
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosìssimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento a festa, ou cilício, e tempo de cair a tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por eles, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

(de Exemplo Geral, 1966 - in Líricas Portuguesas – quarta série, selecção prefácio e notas de António Ramos Rosa, Portugália editora, 1969)

28.1.05

MANUEL LOPES

CONSUMMATUM


Queria que chegasses, finalmente,
numa manhã qualquer,
- estrela fria de alva ou sol ardente
cujo sorriso bom
me pudesse prender...
Que tivesse o dom
de me encantar e conter
- que valesses o mundo
que sonhei ter...

... Renunciar inteiramente
a esta luta de viver mil vidas.
Que tu fosses o fim que mais cobiço,
se afinal
esse fim existisse
e continuasse sempre igual...

... Para
depois de ter-me libertado
e morto assim o nomadismo inquieto
do meu mundo interior
-minha ânsia de descobrir qualquer coisa melhor -
e destruído por amor a ti
todos os parasitas de oiro e fogo
da eternidade que vivi;

e livre finalmente
com a alma nua e o espírito nu
e um destino e um caminho e um desejo só
e uma só realidade
que és tu
e após a confidência fatigada
(curvado sobre ti como à beira dum abismo):
«Só te esperava para te renunciar!»
dar-te o último soluço que eu não pudesse conter,
e (como a um mundo que acabasse sem paroxismo)
contemplar
sem Saudades, a Mim-mesmo acabado de morrer!...

1945

(de Crioulo e outros poemas, EA, 1964)