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5.8.11

[AUTOR DESCONHECIDO]

«Musas entregando o Poeta ao Tempo e à Fama»


LUÍS DE CAMÕES


Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertei já do sono do ócio ignavo,
Que a ânimo, de livre, faz escravo;

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania, infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro
Verdadeiro valor não dão à gente;
Melhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.


(do Os Lusíadas, Canto IX, 1572 - fixação do texto de Hernâni Cidade)

10.6.08

[outros melros LII]

MANUEL ALEGRE

Que porque


Estou diante do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao cimo da Calçada de Santana, em Lisboa. Aqui houve outrora o mosteiro do Convento de Santa Ana, destruído pelo terramoto. Não há nenhuma placa, nenhum sinal. Mas Camões foi enterrado aqui, da parte de fora do Convento. Olho o terreno ao lado do Instituto. Ia jurar que é o mesmo onde, embrulhado num lençol, foi sepultado aquele a quem, numa lápide ali mandada colocar mais tarde, D. Gonçalo Coutinho chamaria “o príncipe dos poetas do seu tempo”.
Há um melro a cantar. Ocorre-me um extraordinário livrinho de Philippe Soupault sobre Lisboa, intitulado Carte Postale. Começa assim : “Lisboa é a aurora”. Mais adiante diz que “...cada um dos pássaros de Lisboa sabe de cor um verso dos Lusíadas”.
Talvez haja uma toada de Camões no trinado deste melro. Uma toada. Foi o que para sempre ficou dentro de mim ao ouvir meu pai ler em voz alta versos de Camões. Digo ouvir. Eu ainda não sabia ler, não percebia o sentido, mas ficava fascinado com o ritmo, a toada, a cadência, chame-se-lhe o que se quiser. Digo ouvir porque foi assim que tive a revelação da poesia e da música que há dentro da língua. E porque foi ouvindo o som daquelas vogais e consoantes que aprendi de cor, antes de saber ler, algumas estrofes de Os Lusíadas e alguns sonetos de Camões, além de “Perdigão perdeu a pena”. Uma toada, um ritmo, uma outra forma de música. Que é, ninguém me convence do contrário, a que se ouve no marulhar do Atlântico. As ondas rolam em decassílabos, às vezes em versos de sete sílabas.
Pode acontecer que, sem se dar por isso, comece a dedilhar-se uma guitarra invisível tocando as cordas da sexta e da décima ou, mais raramente, da quarta, da oitava e décima sílabas. Ou então que, de repente, comece a falar-se assim. Ou até a dançar. Camões decassilaba-se em nós. Está no sangue, bate no pulso.
Depois há o “que porque” da Canção IX:
Assim vivo; e se alguém te perguntasse
Canção, como não morro
Podes-lhe responder que porque morro.
Que outro poeta seria capaz de juntar estas duas terríveis e rudes palavras e pô-las a cantar? Que porque. Música. Um acto fundador, momento primordial da poesia de língua portuguesa. Que porque.
Meu pai costumava dizer que a poesia de Camões se pode assobiar. Se calhar é o que o melro está ali a fazer.

(in Relâmpago, nº 20 - 4/2007)

18.2.08

[Pretendo continuar #9. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

LUÍS DE CAMÕES

Canto IX
(excertos)

[…]

Nesta frescura tal desembarcavam
já das naus os segundos Argonautas,
onde pela floresta se deixavam
andar as belas deusas, como incautas;
algumas doces cítaras tocavam,
algumas harpas e sonoras flautas,
outras com os arcos de ouro se fingiam
seguir os animais, que não seguiam.

Assim lho aconselharam a mestra experta,
que andassem pelos campos espalhadas,
que vista dos barões a presa incerta
se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
do belo corpo estavam confiadas,
posta a artificiosa formosura
nuas lavar-se deixam na água pura.

Mas os fortes mancebos que na praia
punham os pés, de terra cobiçosos,
que não há nenhum deles que não saia,
de acharem caça agreste desejosos,
não cuidam que, sem laço ou redes caia
caça naqueles montes deleitosos
tão suave, doméstica e benigna,
qual ferida lha tinha já Ericina.

Alguns que em espingardas e nas bestas
para ferir os cervos se fiavam,
pelos sombrios matos e florestas
determinadamente se lançavam;
outros, nas sombras que das altas sestas
defendem a verdura, passeavam
ao longo da água, que suave e queda
por alvas pedras corre à praia leda.

Começam de enxergar subitamente
por entre verdes ramos várias cores,
cores de quem a vista julga e sente
que não eram das rosas ou das flores,
mas da lã fina e seda diferente
que mais incita a força dos amores,
de que se vestem as humanas rosas
fazendo-se por arte mais formosas.

Dá Veloso espantado um grande grito:
«Senhores, caça estranha, disse, é esta:
se ainda dura o gentio antigo rito,
a Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano espírito
desejou nunca; e bem se manifesta
que são grandes as coisas e excelentes,
que o mundo encobre aos homens imprudentes.

Sigamos estas Deusas e vejamos
se fantásticas são se verdadeiras.»
Isto dito, velozes mais que gamos,
se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as ninfas vão por entre os ramos,
mas mais industriosas que ligeiras,
pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
se deixam ir dos galgos alcançando.

De uma os cabelos de ouro o vento leva
correndo, e da outra as fraldas delicadas;
acende-se o desejo que se ceva
nas alvas carnes súbito mostradas;
uma de indústria cai e já releva
com mostras mais macias que indignadas,
que sobre ela empecendo também caia
quem a seguiu pela arenosa praia.

Outros por outra parte vão topar
com as Deusas despidas que se lavam;
elas começam súbito a gritar,
como que assalto tal não esperavam.
Umas fingindo menos estimar
a vergonha que a força, se lançavam
nuas por entre o mato, aos olhos dando
o que às mãos cobiçosas vão negando.

[…]

Oh que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
que em risinhos alegres se tornava
o que mais passam na manhã e na sesta,
que Vénus com prazeres inflamava,
melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

[…]

(de Os Lusíadas, 1572 – transcrição conforme a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção, prefacio e notas de Natália Correia, 3ª edição: Antígona / frenesi, 1999 / 1ª edição: Afrodite, 1965)

1.8.07

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

CAMÕES E A TENÇA


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

(de Dual, 1972)

10.6.07

ARTUR PORTELA FILHO

DIA DA PÁTRIA - DIA DA POESIA?


Junho de 1972

No dia 10 de Junho, António Quadros escrevia, no seu «Caderno Diário» do «Diário de Notícias», sob o título «O Dia da Poesia», o seguinte:
«...Já repararam? Nos outros países, o Dia Nacional é a data comemorativa de uma Revolução, do Nascimento de um Regime político, do início de uma Autonomia nacional, etc... Entre nós, comemorando-se um poeta, comemora-se Portugal. De algum modo, é toda uma nação que decide representar-se simbolicamente, não como vinculada primordialmente às contingências da vida política, mas antes a algo de muito mais profundo e intemporal: a Poesia dum Poeta que morreu há quatrocentos anos, uma obra imaterial, feita de palavras, de ideias e de sonhos.»

Certo.
Camões é um poeta.
O Dia de Portugal é o Dia de Camões.
Logo, o Dia de Portugal é o Dia da Poesia.
Embora - sem que se queira pôr em causa nem o Dia de Portugal nem Camões - se possa adiantar que há muitas maneiras de ler, e de fazer ler, Camões.
É fundamentalmente poética a leitura da sua ideologia?
É, sequer, essencialmente poética a leitura da sua poesia?
A imaterialidade de Camões pretende-se que continue a sê-lo?
Os sonhos de Camões querem-se como tais?
A intemporalidade de Camões é o que mais importa?
Camões lírico ou Camões épico?
Camões total ou Camões parcial?
Camões genial ou Camões instrumental?
Camões coragem ou Camões geografia?
Camões povo ou Camões pompa?
Camões amor ou Camões Alcácer?
Camões futuro ou Camões memória?
A ideia de Pátria não é discutível - o que é discutível são as ideias discutíveis de Pátria.
A ideia de Camões não é discutível - o que é discutível são os excessos de revivalismo camoniano.
E, no entanto, Camões é, para o povo português, o mais célebre dos desconhecidos.
E, porém, «Os Lusíadas» são, para o povo português, - o mais famoso dos livros fechados.
Oculto um sob uma barragem de retórica.
Despromovido o outro a dicionário de ênfase.
Despoetizados.
Feitos ideologia. Feitos motivação.
Mas quanto vale, hoje, a ideologia de Camões?
Mas que força tem, hoje, como motivação, Camões?
Com a atenção toda mobilizada para o facto de que Camões morreu há quatrocentos anos, esquece-se que Camões viveu há quatrocentos anos. O que será a sua grandeza. Mas, também, a sua circunstancia. A sua inevitável inserção cultural, ideológica, civilizacional. O seu limite.
E, apesar de tudo, ele há imensos Camões.
Há o Camões insuportável do senhor Dom João III.
Há o Camões enfático do senhor Visconde de Almeida Garrett.
Há o Camões republicano do Ultimatum.
Há o Camões tricaneiro do sr. Leitão de Barros.
Há o Camões cronológico do sr. Hernâni Cidade.
Há o Camões militarizado do sr. António José Saraiva.
Há o Camões liceal do sr. Sérvulo Correia.
Camões gesso. Camões bronze. Camões feriado. Camões Adamastor. Camões pagão. Camões cristão.
Só não há - Camões povo.
Porque não há povo nos «Lusíadas» - só heróis?
Ou porque entre o verdadeiro Camões e nós está esse colossal obstáculo que é - uma certa interpretação dos «Lusíadas»?
Se Camões fosse, só, a Lírica seria ele alguma data?
Dia da Poesia?
Celebra-se João Ruiz de Castelo Branco, Bernardim Ribeiro, Rodrigues Lobo?
Celebra-se João de Lemos, Soares de Passos, João de Deus?
Celebra-se Antero, Junqueiro, Cesário?
Sequer, coerentemente, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Américo Durão?
Ou, antes, uma certa ideia da Poesia - a Épica?
Ou, antes, uma certa ideia da Epopeia - estrita, literal, restituída?
Camões é um élan - não é um programa.
Camões é uma época - não é o destino.
O destino aos Portugueses.
Dia de Portugal - Dia da Poesia?
Ou Dia de Portugal - Dia dos Portugueses?
O passado não se sabe de cor - analisa-se.
O futuro não se lê - faz-se.

(de A Funda - 2.º volume, editora Ática, 1972)

6.2.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA

Soneto XIII


Não sei que em vós mais vejo e não sei que
Mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
Não sei que vejo mais tê no calar
Nem, quando vos não vejo, a alma que ve?

Que lhe aparece, onde quer que ela esté,
Que olhe o ceo, que a terra, o vento, o mar?
E triste aquele vosso sospirar
Em quanto mais vai, que direi que é?

Certamente não sei: nem isto que anda
Antre nós, se é ele ar como parece,
Se fogo d'outra sorte e d'outra lei.

Em que ando? de que vivo? e nunca abranda
Por ventura se à vista resprandece?
Ora o que eu si tam mal, como direi?

(fixação do texto de Carolina Michaelis de Vasconcelos)

LUÍS DE CAMÕES

Presença bela, angélica figura,
Em quem quanto o Céu tinha nos tem dado;
Gesto alegre, de rosas semeado,
Entre as quais se está rindo a Fermosura;
Olhos onde tem feito tal mistura
Em cristal branco e preto marchetado,
Que vemos já no verde delicado,
Não esperança, mas inveja escura;
Brandura, aviso e graça, que aumentando
A natural beleza c'um desprezo,
Com que, mais desprezada, mais se aumenta:
São as prisões de um coração, que preso,
Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
Como faz a Sereia na tormenta

(fixação do texto de Hernâni Cidade)

PEDRO DE ANDRADE CAMINHA

Soneto XXXVII


Passa o dia e a noute, o mês e o ano,
Segue ó brando verão o inverno duro;
O dia agora é claro, agora escuro,
O sol ora aproveita, ora faz dano

Na calma á doce sombra, o alegre engano
De seu amor chora a ave em canto puro;
Depois o tempo, que em nada é seguro,
Lhe dá triste silencio e desengano.

Tudo tem suas mudanças, corre o tempo
Ora assi, ora assi; se de dureza
Ontem usou, oje usa de brandura.

Em mim só ua tristissima tristeza
Sinto sempre tam firme, grave e dura
Que não a abranda ou muda ano nem tempo.

(fixação do texto de J. Priebsch)

Frei AGOSTINHO DA CRUZ

Da contemplação


Dos solitarios bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
Nesta Serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais fermosura.

Que tem quem tem na terra mor ventura,
Nos mais altos estados arriscada,
Se não tem a vontade registada
Nas mãos do criador da criatura?

A folha, que no bosque verde estava,
Em breve espaço cai, perdida a cor.
Que tantas esperanças sustentava.

Por isso considere o pecador,
Se quando na pintura se enlevava
Não se enlevava mais no seu pintor.

(fixação do texto de António Gil Rafael)

Sóror VIOLANTE DO CÉU

A el Rei D. João IV de Portugal

SONETO EM DIÁLOGO

Que logras Portugal? um Rei perfeito,
quem o constituiu? sacra piedade,
que alcançaste com ele? a liberdade,
que liberdade tens? ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? honra, e proveito,
que é o novo Rei? quasi Deidade,
que ostenta nas acções? felicidade,
e que tem de feliz? ser por Deus feito.

Que eras antes dele? um laberinto,
que te julgas agora? um firmamento,
temes alguém? não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? ua só sinto,
qual é? não ser um mundo, ou não ser cento,
para ser mais capaz de tal Monarca

(fixação do texto de Margarida Vieira Mendes)

1.8.03

[Hoje tive que ir a um hipermercado. Tinham livros baratíssimos, e, entre eles estava O Lugar do Amor - uma edição belíssima, com um retrato do autor pelo incomparável Mário Botas. Trouxe os dois exemplares que lá estavam, mesmo sabendo que já tinha um cá em casa. Vou dá-los a quem mos pedir.]

ANTÓNIO OSÓRIO

Nasceu em 1933, em Setúbal.
Filho de Pai português e Mãe italiana. Advogado, foi Bastonário da sua Ordem. Começou a publicar poesia em 1972.
Está a ser publicada a sua poesia completa.

Amo-te
com pressa
de não acabar o amor.

*

Entrar contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra.

*

Amo os loucos,
crianças tagarelando
que descobrem, instante
a instante, o mundo
e tudo enovelam
à sua translúcida maneira.

Não possuem maldade,
Mas ignorado amor
E incapaz poesia.

*

Gratidão de ser
por estes anos
e partículas restantes.

Pela amizade,
que chega a confundir o amor.

Pela bondade,
que torna a solidão desvalida.

Pela hombridade,
à altura do céu.

Pela beleza,
que só à santidade
sobrepassa.

E é flagrante, perdulária,
noutros renascente.

Gratidão
que nem sabe
a quem deve ser grata.

Pelas aves nutrindo os filhos
de penugem e voo.

Pela lentidão escrupulosa
da tartaruga, igual à de Plutão.

Pela leveza materna do vento
transportando pólen.

Pelo calor humílimo
da joaninha sobre a nossa mão.

E por estar na terra
uma só vez, ao sol,
nada pedindo, nenhum segredo,
como um velho lobo-do-mar.


CAMÕES

Lia-me Camões meu Pai.
A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Amor doía, emaranhava.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.

(de O Lugar do Amor, Moraes editores, 1985 - Círculo de poesia)