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1.11.11

[em dia de todos os santos]

LEONARD COHEN


NA BÍBLIA GERAÇÕES  PASSAM...

Na Bíblia gerações passam num parágrafo, uma traição expõe-se numa frase, a criação do mundo ocupa uma página. Entre uma multidão, nunca pude distinguir a dinastia importante, vocês devem ter a fronte iluminada para poderem ver na teia emaranhada das evidências diárias as negativas e as lealdades. Quem pode assinalar a oliveira que a história escolhe para dar sombra aos seus amantes? Que árvore do grandioso pomar poderá oferecer a visão particular da folhagem e do céu para desencadear os seus beijos? Apenas duas pessoas iluminadas que vão directamente às raízes em que repousam. Pela minha parte limito-me a descrever o pomar inteiro.


(in Antologia Poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, 2ª ed.: Assírio & Alvim, 1997 - Rei Lagarto)


4.6.11

ROBERT BRINGHURST


O HOMEM MELHOR


Bastante simples. Ao som dele, a cantar-lhes
os nomes, pedras, árvores, mulheres
de meia idade e quase a restante criação
dispararam direito à testa dele e colidiram.

Desde então tem sido
costume a crianças
de ouvido musical
extinguir os olhos.

Marujos e a gente do monte
enterraram o que dele puderam encontrar.
Adolescentes, suicidas
em potência e os feridos

experimentaram os nomes.
Ilesos em cada caso, conforme aconteceu —
como todos os outros — nas próprias
pronúncias deles.

Mais tarde, também, os intérpretes
andaram pelas cidades com versões próprias
e justificações.
Disseram eles, por exemplo, que a canção

fora introduzida por uma certa mulher.
Alguns contaram que a mulher de cabeça ruiva
que o amava se fora embora
e já estava morta quando dera com ela.

Outros insistiram em que ele a matara. Contou ainda
um terceiro uma grande história, coisa fortuita,
segundo a qual ela havia ido em romaria
pelo vale e por lá encontrara, de modo inesperado

mas muito simplesmente, um homem melhor,
com gosto pela conversa
e por xadrez, e de rosto
mais brando e com nome estrangeiro.

Disseram eles que a morte nada tem a ver
com luz moldada ou íngremes
gumes do ar. Disseram eles que ele cantara
a vasta terra aberta e nela caminhara,

fosse para a enterrar ou para a recolher,
e que quase conseguira. Disseram que quando ele escorregara
se encontrava então a subir, e era sua obrigação saber
que para baixo não devia olhar.

Ou disseram que morrera como um mosquito,
da sua própria luminescência,
ou que fora o escuro ou o claro que ele nomeara
e que se tinham ajuntado e o haviam morto.

Lá pelos montes histórias ainda mais singelas contam.
Dizem que a voz dele resplandecia
como uma pedra azul. Alguns dizem
que ele bebia o ar quando sedento

e respirava água. Terão apenas sido
as suas mãos, dizem alguns,
que cederam, esmagadas
quando as palavras acima delas se fecharam;

e durante dias e dias podia ver-se-lhe
a voz a flutuar, perto do sol,
e a água do poço sabia a palavras suas,
vento fora de estação ouvido na semente vigorosa.

Desde então toda a luz
se curvara no silêncio dele.

Desde então tem sido
costume a crianças
de ouvido musical
extinguir os olhos.


(de O Sopro da Flauta d'Osso, in A Beleza das Armas, tradução de Júlio Henriques, edições Antígona, 1994)

30.5.09



LEONARD COHEN

Last Year's Man


The rain falls down on last year's man,
that's a jew's harp on the table,
that's a crayon in his hand.
And the corners of the blueprint are ruined since they rolled
far past the stems of thumbtacks
that still throw shadows on the wood.
And the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.

I met a lady, she was playing with her soldiers in the dark
oh one by one she had to tell them
that her name was Joan of Arc.
I was in that army, yes I stayed a little while;
I want to thank you, Joan of Arc,
for treating me so well.

And though I wear a uniform I was not born to fight;
all these wounded boys you lie beside,
goodnight, my friends, goodnight.

I came upon a wedding that old families had contrived;
Bethlehem the bridegroom,
Babylon the bride.
Great Babylon was naked, oh she stood there trembling for me,
and Bethlehem inflamed us both
like the shy one at some orgy.
And when we fell together all our flesh was like a veil
that I had to draw aside to see
the serpent eat its tail.

Some women wait for Jesus, and some women wait for Cain
so I hang upon my altar
and I hoist my axe again.
And I take the one who finds me back to where it all began
when Jesus was the honeymoon
and Cain was just the man.
And we read from pleasant Bibles that are bound in blood and skin
that the wilderness is gathering
all its children back again.

The rain falls down on last year's man,
an hour has gone by
and he has not moved his hand.
But everything will happen if he only gives the word;
the lovers will rise up
and the mountains touch the ground.
But the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.

(do álbum Songs Of Love And Hove, 1970)

27.9.03

LEONARD COHEN

Nasceu em Montreal, Canadá, em 1934.
Poeta, cantor, romancista, compositor, actor eventual.


PERGUNTO-ME QUANTA GENTE NESTA CIDADE

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

(de Filhos da Neve - Antologia Poética, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, Assírio e Alvim, 2ª ed: 1997 - colecção Rei Lagarto)


The Genius

For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town

For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid

For you
I will be an banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line

For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter

For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans
for foreskins
to sew back again

For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
and bloated pain
no mind can understand

(in 15 Canadian Poets X 2, edited by Gary Geddes, Oxford University Press Canada, 1988)

O Génio

Para ti
eu serei o judeu do gueto
e dançarei
e hei de pôr meias brancas
nos meus membros trémulos
e poços envenenados
por toda a cidade

Para ti
eu serei o judeu apóstata
e contarei ao padre espanhol
o pacto de sangue
que vem no Talmude
e o local onde estão os ossos
escondidos da criança

Para ti
eu serei o judeu banqueiro
e trarei à ruína
um ilustre rei desejado
e darei cabo da sua descendência

Para ti
eu serei o judeu da Broadway
e chorarei nos teatros
pela minha mãe
e irei vender bugigangas
abaixo do preço

Para ti
eu serei o judeu médico
e irei à procura,
por todos os caixotes do lixo,
de prepúcios
para os coser outra vez

Para ti
eu serei o judeu de Dachau
e cairei no lodo
com os membros trémulos
e uma dor inchada
que nenhuma razão compreende

(tradução minha)