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29.10.08

CARL SANDBURG

Quem conhece o povo, os seareiros emigrantes e os apanhadores de fruta, as vítimas de empréstimos fraudulentos, os especuladores das casas a prestações,
Os malabaristas da areia e da madeira que amaciam as mãos passando-as pelo molde onde vai ser fundida a estrutura do motor do nosso carro,
Os pulidores de metais, os soldadores, e os pintores que aplicam os acabamentos ao automóvel,
Os rebitadores e os roscadores de parafusos, os cavaleiros de vigário na grande cidade, os vaqueiros das Grandes Planícies, os ex-condenados, os porteiros de hotel, os carregadores dos caminhos-de-ferro, os guardas das retretes –
O recrutador do sindicato com a lista daqueles que estão prontos a aderir e a dos hesitantes, os informadores pagos secretamente que denunciam qualquer movimento organizativo,
Os que andam de casa em casa procurando adesões, os que tocam às portas, os que dizem bom-dia-já-ouviu-dizer-que, os dos piquetes de greve, os fura-greves, os que são pagos para causar distúrbios, o pessoal da ambulância, os que vão atrás da ambulância, os que querem tirar fotografias, os que lêem os contadores, o pessoal dos barcos de pesca à ostra, os faroleiros –
quem conhece o povo?
Quem conhece tudo isto desde o fosso aos pináculos? É o povo, sim.

(tradução de Hélio Osvaldo Alves, in O escritor – Revista da Associação Portuguesa de Escritores, Nº 13/14 – Dezembro de 1999)

31.1.06

CARL SANDBURG

RÁPIDO


Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.

(tradução de Alexandre O'Neill, publicado no número 4 da série de antologias Tempo de Poesia, s/d)


A. M. PIRES CABRAL

BILHETE A CARL SANDBURG


O meu comboio não é, bem sei,
o mesmo que o teu.
O meu é inoxidável.

Os passageiros sim,
são tal e qual.

E, tal como tu,
viajo acossado por perguntas
vivas como brasas.

E, tal como a ti, também a mim
um passageiro responde
quando lhe pergunto o seu destino:
Omaha.

Não há volta a dar-lhe: todos temos
Omaha por destino.

(de Que comboio é este, Teatro de Vila Real, 2005)

19.12.03

CARL SANDBURG

Filho de imigrantes suecos, nasceu em 1878, em Galesburg, perto de Chicago, EUA.
É um dos nomes mais importantes da literatura americana do séc. XX.
Morreu em 1967, na Carolina do Norte.

Esqueci o significado de vinte ou trinta poesias escritas há trinta ou quarenta anos. As minha preferências vão ainda para poesias bem fáceis publicadas há muito e que continuam a atrair as pessoas simples. (da introdução a Complete Poems, 1951)


ANNA IMROTH

Cruza-lhe os braços sobre o peito - assim.
Endireita-lhe um pouco mais as pernas - assim.
E chama o carro para que a leve a casa.
A mãe dela há-de chorar, e também as irmãs e os irmãos.
Mas os outros salvaram-se todos: foi ela a única rapariga da fábrica
[que não teve sorte ao saltar cá p'ra baixo quando o fogo irrompeu.
Andou aqui a mão de Deus - e a falta de uma saída de emergência.


CHAMFORT

Apresento Chamfort. Um exemplo.
Fechou-se na biblioteca com uma pistola
e com um tiro desfez-se do nariz e do olho direito.
E este Chamfort sabia como se escreve
- milhares de pessoas liam os seus livros sobre a maneira de viver -
mas não era capaz de se matar
por suas próprias mãos - estão a perceber?
Foram dar com ele no tapete, num charco de sangue,
frio como uma madrugada de Abril:
falava e falava, dizendo máximas divertidas e pungentes epigramas.
Pois bem, tapou o nariz e o olho direito como uma venda,
bebeu café e conversou anos e anos
com homens e mulheres que gostavam dele
porque sabia rir e todos os dias desafiava a morte:
«Vem daí buscar-me!».


SOPA

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.


FUGA

Todos amavam Chick Lorimer na nossa cidade.
E mesmo fora da cidade
Todos o amavam.
Pois é: não há nenhum de nós que não ame uma estranha rapariga
que aperta ao peito o sonho que a empolga.
Ninguém sabe, agora, para onde foi Chick Lorimer.
Ninguém sabe porque fez a mala, com poucas, velhas coisas,
e fugiu
fugiu com o queixinho
espetado para a frente
e os leves cabelos ondeados
em desalinho sob o chapéu,
ela que dançava, cantava, amava com ferocidade e alegria.

Eram dez, eram cem os homens que seguiam Chick?
Eram cinco, eram cinquenta os que tinham o coração despedaçado?
Todos amavam Chick Lorimer.
Ninguém sabe para onde fugiu.

(poemas traduzidos por Alexandre O'Neill e publicados no número 4 da série de antologias Tempo de Poesia, s/d)