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8.2.10

[outros melros LVII]

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA

A BAGAGEM


Acomodo a um canto do barco a minha pasta e Maria toma-lhe o peso. Só lá tenho coisas leves: castanhas, queijos, azeite, tecidos brancos de algodão, maçãs vermelhas, chapéus de feltro, raposas negras, vinho de palmeira, madeiras valiosas, milho, feijão, um lápis, uma borracha, sete ou oito poemas sobre a praia da Galé, um lenço, vinho novo para oferecer a Júpiter e alguns melros com o peito alaranjado.


(de Rio Arade, Edição de Autor, 1989)

28.1.09

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA

(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita

Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu

em questões
de
Estado

ou em
assuntos

de Defesa
Nacional

e muito
menos

dou com
a língua
nos dentes.

Naturalmente,
olho
por olho

ou dente
por
dente

são
expressões

que
não uso.

E se
luto pouco

com unhas
e
dentes

é porque
já dei
muito ao dente

especialmente
chocolates
e carne picada.

Eu sei que há
dentes de siso

dentes do pente
dentes de velha

dentes de serra
dentes de leite

e até dentes
de
alguma engrenagem

mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar

enxaguar
lavar
e escovar

quer
o marfim

quer
o esmalte

quer
o cimento

dos dois
coxos
caninos

que ainda
carrego na boca

e que têm
a
graça

ou
a loucura

de almoçar
comigo

todos
os dias

e até
ao
último ai

(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)