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29.4.04

[convocam-se os Clã para a comemoração do dia mundial da dança]

CARLOS TÊ

Não é impossível dançar
mesmo p'ra quem tenha
pé de chumbo
dançar é apenas um modo
mais intenso de existir,
é sentir o tempo do mundo
e deixar-se ir

as ondas, a lua e a chuva
entram na roda também
o tambor do mundo
não exclui ninguém

as coisas não descansam
não desistem
felizes por existir
elas dançam

nas abas do vento
deixam-se ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo

impondo um quebrado nexo
dos pés às cabeças
tabuada do sexo
Maputo ou Moscovo
Rio ou Pequim
a dança passa por nós
e nós dizemos sim

nas abas do vento
deixa-te ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo

nas abas do vento
deixar-se ir
sem pensar
quase a cair
mas sempre no tempo

(do álbum Kazoo, de 1997)

7.12.03

[gosto muito de inventários XXX - com um agradecimento à Sandra]

CARLOS TÊ

INVENTÁRIO


Um pneu Michelin, um tampo de fórmica, uma
camurça, um gato morto, um sifão de autoclismo,
uma lata de Sheltox, dois tampaxes, uma garrafa
Três Marias, duas cotonetes, um colchão, um
espelho de alumínio anodizado marca Corsino,
um feto, um frasco de mokambo, um calendário
plastificado da Obra Salesiana com o Sagrado
Coração de Jesus, uma tainha, um cagalhão, uma
Barbie decepada, dois preservativos, três algas,
um Tantum verde, uma embalagem de natas
Agros, uma placa de esferovite, uma diskete TDK,
uma maçã Starking, um disco da Orquestra do
Ray Connitt, uma golfada de nafta e água, muita
água. De onde virá tanta água?

(de penso sujo, in-libris, 2003)

23.9.03

[mesmo que nenhuma das concorrentes do Ídolos, da Operação Triunfo ou do Chuva de Estrelas me pareça ou tenha parecido operária têxtil, quando passo os olhos por programas desse género não consigo deixar de lembrar uma das mais belas canções de Rui Veloso]

CARLOS TÊ

Balada da Fiandeira


Quando ela deixa o turno fabril
Apanha o autocarro e regressa
Espalha em casa o odor textil
E a roda viva recomeça

Ao pôr do sol faz uma pausa
E pensativa vai à janela
Como se dali fosse ver tudo
O que é mistério á volta dela

Depois liga o rádio p'rá onda média
Ansiosamente remexe o botão
Em busca daquela força
Que às vezes vem numa canção

E se passarem a janis joplin
Fica acessa num repente
Põe-se a dançar em frente ao espelho
E sobe a saia acima do joelho

E vai cantando no quarto-de-banho
Aproveitando a ressonância
A vizinhança acha estranho
E até comenta a extravagância

Mas ela é assim está-se nas tintas
Tem ganas de se ir embora
Mandar o seu mundo ao ar
Subir ao palco e ser cantora

(do álbum Fora de Moda, 1982)

28.6.03

CLÃ
[uma banda fantástica na música, nas letras, nos instrumentos e sobretudo na Voz da Manuela Azevedo. Há uma página não oficial. Ficam dois exemplos da sua imaginação delirante.]


DO MESMO CLÃ (versão alternativa)
Letra: Luís G. Claro / Hélder Gonçalves

Nós somos do mesmo clã
(...)
Nós queremos ser citados por uma fonte luminosa
Tomar banho nas margens do erro
Flutuar na banheira de Arquimedes
Meter a ironia do destino na carta para Garcia
E se ele não estiver, esquecê-la num marco histórico

Nós queremos curar o calcanhar de Aquiles
Atingir o princípio de Peter do lado do poente
Subir a escala de Richter numa gôndola
Tocar na buzina do Harpo Marx
Soltar a risada de Bugs Bunny
Conduzir a locomotiva de Pamplinas em direcção ao Futuro

Nós queremos a bengala de Charlot,
O passaporte de Fernão Mendes Pinto,
Comprar cigarros na mesma tabacaria de Fernando Pessoa,
Fugir de uma Fuga de Bach,
Ouvir a voz de Salomão propôr uma amnistia
Para o Otelo de Shakespeare

Nós queremos saber onde param os violinos de Chopin
Nós exigimos saber o porquê do sorriso de Gioconda
Não queremos saber quem são os dois amores
De Marco Polo do Oriente
Muito menos quem matou Laura Palmer
Porque nós não temos medo do SIS
Muito menos de Virginia Woolf


CONCURSO DO MÉTODO
Letra: Carlos Tê

Bem-vindos ao estúdio
onde vai ter lugar
mais uma sessão do concurso do método
mas antes do prelúdio
um breve interlúdio
para a publicidade

Caro telespectador não faça zap
porque nós vamos saber
o olho do grande irmão que em sua casa o vigia
toda a noite, todo o dia
e arrisca-se a perder
o direito de concorrer
ao grande concurso do método

e a pergunta é:
qual é o método que usa para consumir?

sonha por catálogo da t.v. shop
ou prefere atendimento personalizado
faça uma frase, uma prosa, um poema
e você, aí em casa, basta 1 telefonema
e ganha um 1 viagem ao pais dos iglôs,

a Guadalupe, Bermudas e Barbados,
à Lapónia, ao Alaska, aos eternos congelados
e ganha ainda a fantástica
máquina de descascar desejos
... e eis a brilhante vencedora
a D. Berta da Amadora!!!
(O Concurso do Método tem o patrocínio dos
electrodomésticos GRUNFT. Dirija-se a qualquer loja
GRUNFT e adquira já qualquer um dos magníficos
electrodomésticos da gama GRUNFT. GRUNFT com
GRUNFT porque grunfta melhor. GRUNFT!!)

quando passo numa montra onde tudo é tão bonito
entro logo, faço a compra
vejo logo necessito
eu sinto a falta do tudo

ao que é novo não resisto
só estou bem a consumir e se consumo logo existo
é assim quando consumo
o Visa corre entre carris
sinto-me assim não sei como, a modos que leve e feliz
prazer puro, entusiasmo

dura pouco, vai para o lixo
muito perto do orgasmo
muito além do capricho

(E leve ainda 101 contos para pôr no seu porquinho
mealheiro. Mais uma magnífica e inultraprassável oferta
das lojas GRUNFT!)