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8.10.14

ADOLFO CASAIS MONTEIRO

O poder de alusão da poesia — que a tal se resume tudo quanto a tradição da análise literária clássica especificou sob os nomes dos vários tropos (metáfora, perífrase, etc., etc.) — não coube nunca nessas prisões douradas que a crítica lhe foi tecendo pelos séculos fora. O poeta diz muito em poucas palavras... e a análise literária diz de menos em palavras demais. Ai de nós, tentar compreender é uma doença incurável. Pois continuemos tentando.
A poesia é esquiva. A multiplicidade de aparências em que se envolve (ou seria melhor dizer: em que a envolvemos?) permite todas as confusões, e supor-se-lhe dificuldades ou facilidades que não tem, e nas quais se vão enredando inapelavelmente todos quantos são dominados pelo desejo de ser poetas, sem que nada os disponha realmente para tal. A todos ela parece oferecer uma esperança, mas... são sempre poucos os escolhidos.
A poesia moderna «permitiu» a ilusão de ser a poesia fácil. Foi mesmo este um dos argumentos mais reproduzidos por todos quantos procuravam «razões» contra ela. É, aliás, um argumento sob o qual se revela profundo pessimismo acerca da inteligência humana: pois entenderão tais objectores que seja realmente difícil aprender a «fazer» um soneto ou uma ode? Se tal fosse difícil, como havíamos de classificar as coisas realmente... difíceis?!
Na realidade, afirmar a facilidade em fazer versos «sem medida» nem rima será o mesmo que fazê-lo... em relação à prosa! De onde se conclui que tal argumento significa antes de mais nada o seguinte: ignorância de qual seja a dificuldade tanto de fazer verso como prosa. Valery Larbaud escreveu, falando do verso livre, que ele «estabelece limites e restrições (contraintes) mais subtis e mais difíceis de manter» do que o verso chamado «regular». Mas, precisamente, não é isto coisa de aparência, que salte aos olhos dos profanos — e, entre estes, há que contar todos aqueles que se dispuseram a fazer versos «sem medida», porque agora era fácil fazer poesia...
Mas não nos iludamos! Como realmente também não era difícil fazer versos «regulares», a situação não se modificou; somente que, antes de deitar versos no papel, os não poetas de antigamente iam aprender nos tratados de versificação aquilo que lá está — ao alcance de qualquer pessoa com algumas letras. A poesia era, e não deixou de ser, difícil. A dificuldade nunca estivera na técnica de fazer versos, e continuou a não estar na suposta falta de técnica do fazer versos livres.


(excerto inicial do ensaio «Dizer não dizendo», in A Palavra Essencial, editorial Verbo, 1972)

18.2.12


ADOLFO CASAIS MONTEIRO


TRÊS POEMAS DE LONDRES

I

Talvez, estrangeiro em qualquer parte,
fosse a minha pátria ser livre
no diverso perder-me em todo o mundo...

Talvez esta imagem me persiga
até ao fim, de ser nada em toda a parte,
para ser cada novo instante um estrangeiro
que não entende sequer a língua de si mesmo.
Talvez na vida valha só perdermos
a ganhar outro ser em cada coisa
– e saber algum dia ser ninguém, pousando
sobre a quimera das horas o sorriso
de quem tanto perdeu que nada é mais...

II

Quantas vezes a vida principia?
Tudo é começar, quando se ama!
Amor de quê? Da névoa e do silêncio
subindo entre o passado e o presente?
Ou do claro esvoaçar de um riso
que entre as pálpebras da noite se adivinha?

III

                                  Ao Sérgio Viotti

Dorme na paz provisória
de ser como não haver morte.

Não queimes a inocência
de que o dia te vestiu.

Sonha, acordado, sem luto
por tudo ter sempre um fim.

Deixa, queimado no porto,
o navio do regresso

– contigo vai só o vento
que não tem âncora, nem lei.


(de Noite Aberta aos Quatro Ventos, 1943/1959)

1.1.08

[no dia da Paz, eu que estou na minha casa sossegada]


ADOLFO CASAIS MONTEIRO


IV


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa e ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


(de Europa, 1946)