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9.2.10

LUIS CERNUDA

ONDE HABITE O ESQUECIMENTO


Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.

Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.

Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor.

Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida,
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.

Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.

Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.

(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

11.6.03

Luis Cernuda nasceu em Sevilha em 1902.
Fez parte da Geração de 27.
Partidário da República, exilou-se em 1938. Viajou pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos.
Morreu no México em 1963.
É um dos maiores poetas de língua espanhola.

EL MIRLO, LA GAVIOTA

El mirlo, la gaviota,
El tulipán, las tuberosas,
La pampa dormida en Argentina,
El Mar Negro como después de una muerte,
Las niñitas, los tiernos niños,
Las jóvenes, el adolescente,
La mujer adulta, el hombre,
Los ancianos, las pompas fúnebres,
Van girando lentamente con el mundo;
Como si una ciruela verde,
Picoteada por el tiempo,
Fuese inconmovible en la rama.
Tiernos niñitos, yo os amo;
Os amo tanto, que vuestra madre
Creería que intentaba haceros daño.
Dame las glicinas azules sobre la tapia inocente,
Las magnolias embriagadoras sobre la falda blanca y vacía,
El libro melancólico entreabierto,
Las piernas entreabiertas,
Los bucles rubios del adolescente;
Con todo ello haré el filtro sempiterno:
Bebe unas gotas y verás la vida como a través de un vidrio coloreado.
Déjame, ya es hora de que duerma,
De dormir este sueño inacabable.
Quiero despertar algún día,
Saber que tu pelo, niño,
Tu vientre suave y tus espaldas
No son nada, nada, nada.
Recoger conchas delicadas:
Mira qué viso violado.
Las escamas de los súbitos peces,
Los músculos dorados del marino,
Sus labios salados y frescos,
Me prenden en un mundo de espejismos.
Creo en la vida,
Creo en ti que no conozco aún,
Creo en mí mismo;
Porque algún día yo seré todas las cosas que amo:
El aire, el agua, las plantas, el adolescente.

O MELRO, A GAIVOTA

O melro, a gaivota
A túlipa, o nardo
A pampa dormida na Argentina,
O Mar Negro como depois de uma morte,
As menininhas, os ternos meninos,
As jovens, o adolescente,
A mulher adulta, o homem,
Os anciãos, as pompas fúnebres,
Vão girando lentamente com o mundo;
Como se uma ameixa verde,
Bicada pelo tempo,
Fosse incomestível no ramo.
Ternos menininhos, eu vos amo;
Amo-vos tanto, que a vossa mãe
Pensava que queria fazer-vos mal.
Dá-me as glicínias azuis sobre o taipal inocente,
As magnólias embriagantes sobre a baínha branca e vazia
O livro melancólico entreaberto,
As pernas entreabertas,
Os caracóis ruivos do adolescente;
Com todo ele farei um filtro sempre eterno:
Bebe umas gotas e verás a vida como que através de um vidro colorido.
Deixa-me, já é a hora de eu dormir,
De dormir este sonho interminável.
Quero despertar qualquer dia,
Saber que o teu pelo, menino,
O teu ventre suave e as tuas costas
Não são nada, nada, nada.
Apanhar conchas delicadas:
Olha um reflexo violado.
As escamas dos súbitos peixes,
Os músculos dourados do mareante,
Seus lábios salgados e frescos,
Prendem-me a um mundo de miragens.
Creio na vida,
Creio em ti que não conheço ainda,
Creio em mim mesmo;
Porque algum dia serei todas as coisas que amo:
O ar, a água, as plantas, o adolescente.

(Tradução minha)