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3.4.14

CESAR VALLEJO


E SE DEPOIS DE TANTAS PALAVRAS...

E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo e acabemos!

Ter nascido para viver da nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!
Mais valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!...

E se depois de tanta história, sucumbimos,
não já de eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrimos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena...
Então... Claro!... Então... nem uma só palavra!



(in Antologia, tradução de José Bento, Limiar, 1981)

26.10.11

CESAR VALLEJO


LXXVII

Graniza tanto, como para que eu recorde
e aumente as pérolas
que recolhi mesmo do focinho
de cada tempestade.

Esta chuva não se vai secar.
A não ser que eu pudesse
cair agora para ela, ou que me enterrassem
molhado na água
que jorrasse de todos os fogos.

Até onde me apanhará esta chuva?
Receio ficar com algum flanco seco;
temo que ela se afaste, sem me ter provado
nas secas de incríveis cordas vocais,
por onde,
para dar harmonia,
há sempre que subir, nunca descer!
Porventura não subimos para baixo?

Mesmo na praia sem mar, oh chuva, canta!


(in Antologia, selecção, tradução e prólogo de José Bento, Limiar, 1981 – Os Olhos e a Memória / original de Trilce, 1922)