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17.3.04

G. K. CHESTERTON

W. B. É talvez o melhor conversador que jamais encontrei, excepto talvez o pai dele, coitado, mas esse não conversará mais na sua taberna terreal, já que se encontra, assim o espero, conversando no Paraíso. Entre vinte outras qualidades, ele possuía uma coisa muito rara contudo real; um estilo absolutamente espontâneo. As palavras não saltavam como água da sua boca, da mesma maneira que os tijolos não saltam para formar uma casa; na sua boca as palavras acendiam-se, simplesmente, como claridade, como se fora possível construir uma catedral com a rapidez com que um prestigitador constrói um castelo de cartas. Uma frase extensa, equilibrada e elaborada, com ramificações alternativas ou antitéticas, fluía na sua boca, com as exactas palavras chovendo no lugar exacto, com a mesma inocência e prontidão com que a maior parte das pessoas diria que o dia estava bonito ou que os jornais traziam uma notícia cómica.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

12.1.04

G. K. CHESTERTON

A primeira coisa a notar como típica da tonalidade moderna é um certo efeito de tolerância, que por sua vez é o efeito de uma certa timidez. A liberdade religiosa poderia significar que todos eram livres de discutir sobre religião. Na prática, significa que as pessoas mal se permitem mencioná-la. Há uma outra qualidade, de algum interesse: a de que aqui, como em muitas outras coisas, há uma imensa superioridade intelectual nos pobres e nos ignorantes. Qualquer inquilino da cidade velha gostava da cruz [para monumento de guerra, nas encruzilhadas] porque era cristã, e assim o dizia, ou então não gostava porque lhe cheirava a bispo, e assim o dizia. Mas os chefes do partido anti-papista tinham vergonha de falar no seu anti-papismo. Eles não diziam concretamente que achavam que um crucifixo era uma coisa perversa; mas diziam, com tantos rodeios quantos os necessários, que achavam que a bomba de água da freguesia, ou uma fonte pública, ou um autocarro municipal eram coisas boas.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

7.1.04

G. K. CHESTERTON

O crescente número de intelectuais que se contentam em afirmar que a democracia foi um fracasso, esquecem o aspecto muito mais trágico e calamitoso que é o facto da plutocracia ter sido um sucesso. Ou seja, que a plutocracia tem tido a única espécie de sucesso que podia ter, porque, não tendo uma base filosófica nem moral, nem sentido sequer, o seu sucesso não podia deixar de ser um sucesso material, um sucesso grosseiro. A plutocracia pode ter apenas o significado de um sucesso de plutocratas enquanto plutocratas. E esse sucesso, gozaram-no eles até há pouco tempo, quando um juízo económico imparcial os abalou como um abalo de terra. Com a democracia o caso é exactamente o oposto. Podemos dizer, com alguma verdade, que a democracia falhou; mas com isso queremos apenas dizer que a democracia falhou na sua tentativa de existir. É um absurdo dizer que os Estados Capitalistas complicados mas centralizados nos últimos cem anos sofreram com a extravagância da igualdade dos homens e da simplicidade da humanidade. Quando muito, poderíamos dizer que a teoria civil preparou uma espécie de ficção legal, segundo a qual um rico homem podia governar uma civilização, quando outrora não podia governar senão uma cidade (...)

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

16.12.03

G. K. CHESTERTON

Suponho que ganhei uma mentalidade dogmática. De qualquer modo, mesmo quando não acreditava em nenhuma daquelas coisas chamadas dogmas, presumia que as pessoas se associavam em sólidos grupos por causa dos dogmas em que criam ou descriam. Supunha que os teósofos se sentavam todos numa mesma sala porque todos acreditavam na teosofia. supunha que a igreja teísta acreditava no teísmo. Supunha também que os ateus se entendiam porque não acreditavam no teísmo. Imaginava que nas Sociedades Éticas eram compostas por pessoas que acreditavam na ética, mas não na teologia nem mesmo na religião. Cheguei à conclusão que estava redondamente enganado a este respeito. Hoje, acredito que as congregações destes templos semi-seculares eram, na sua maior parte, compostas por um vasto mar de vagas de vagos incrédulos ou meio-desconfiados, com as suas dúvidas ondulantes, e que nós os podemos encontrar num domingo à cata de uma solução de proveniência teísta e logo no outro domingo de uma solução de proveniência teosófica. Podem espalhar-se por muitos de tais templos; mas o que os liga é a convenção da inconvencionalidade, que por sua vez se liga à ideia de «não ir à Igreja».

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

8.12.03

G. K. CHESTERTON

Eu sempre abriguei o sentimento confuso de que havia alguma coisa de sagrado na raça inglesa, ou na raça humana, e isso me separava do pessimismo da época. Nunca duvidei que os seres humanos no interior das casas eram eles próprios quase milagrosos, como bonecas mágicas e talismânicas dentro de horríveis caixas de bonecas. Para mim, aquelas caixas de tijolos castanhos eram realmente caixas com presentes de Natal. Porque, além do mais, as caixas de Natal vêm muitas vezes embrulhadas em papel pardo. E as obras de tais construtores baratos, feitas de tijolos castanhos, eram muitas vezes semelhantes a papel pardo.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

26.11.03

G. K. CHESTERTON

[determinado político] era uma pessoa popular, como são geralmente os homens públicos, que no entanto parecem tornar-se cada vez mais nebulosos à medida que sobem mais alto. São os jovens e são os desconhecidos que possuem doutrinas decisivas e intenções expressas com nitidez. Uma vez exprimi o facto dizendo, penso que com alguma verdade, que os político não têm política.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

19.11.03

G. K. CHESTERTON

Não sei de que língua se julga ter vindo a democracia, mas deve admitir-se que a palavra deve fazer agora parte de uma língua chamada jornalês.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

18.11.03

G. K. CHESTERTON

No número 999 do vasto catálogo da biblioteca dos livros que eu nunca escrevi (todos eles mais brilhantes e persuasivos do que aqueles que escrevi) está a história de um bem sucedido cidadão que parecia esconder um segredo negro da sua vida. E acabou por ser descoberto por detectives que ainda brincava com bonecas ou com soldados de chumbo ou qualquer outro insolente jogo de infância. Posso dizer com toda a modéstia que eu sou aquele homem em tudo, excepto na solidez da reputação e na prosperidade comercial. Isto era talvez ainda mais verdadeiro aplicado ao meu pai; mas eu, pelo menos, nunca deixei de brincar e sempre desejei que houvesse mais tempo para isso. Quem me dera que não nos tivéssemos dispersado em coisas frívolas, tais como leituras e literaturas, no tempo que poderíamos ter dado aos trabalhos sérios, sólidos e construtivos, como por exemplo recortar figuras em cartão e nelas colar coloridas lantejoulas. Ao dizer isto, eu chego à terceira razão que me leva a tomar o teatro de bonecos por um livro aberto, e a respeito da qual haverá por certo muito malentendido, devido às repetições e aos estafados sentimentos que, de certa maneira, vieram aderir a eles. É uma daquelas coisas que foram sempre mal compreendidas pela simples razão que foram demasiado explicadas.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

17.11.03

G. K. CHESTERTON

Realmente, as coisas de que nos lembramos são aquelas que esquecemos. Quero dizer que, quando a recordação recua pronta e rápida, atravessando as resistências do esquecimento, ela surge num instante tal qual fora. Se pensamos nela repetidas vezes, enquanto a sua evidência essencial permanece verdadeira, ela torna-se cada vez mais a nossa própria recordação da coisa e cada vez menos a coisa recordada.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)