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8.6.10

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA


INTERIOR


POR trás dos muros da nossa casa
Estamos tão juntos que nos tocamos:
O vento é brisa e a brisa é asa.
Por trás dos muros da nossa casa
Todos os frutos ficam nos ramos.

Vivamos, pois, dentro de nós,
Deixando aos outros o gesto e a voz.

3-Novembro-49



RECOMPENSA

VENHA um momento de Poesia:
Que eu sinta essa alegria casta e saborosa
De quem lidou todo o dia
E pediu, como paga, uma pequena rosa!

Venha, de novo, o coração e a espada
(Que saudades de mim quando adormeço
E a vida se me dá completa, mas errada
Como um avesso)!

Venha o beijo sem lábios que redime
As chagas vis do meu peito
— O único perdão para o meu crime
De ser real e estreito!

— Mas só tu, que expulsei dos meus poemas
Por não te querer saber demais de cor,
Me vens cobrir de injúrias e de algemas:
O teu beijo e a tua flor!

2-Abril- 49


CÂNTICO

TEMOS o odor e a cor que tem
A flor pendente dos ramos,
Pois somos virgens para além
Dos beijos que trocamos.

Só a nós nos é dado o Santo Graal
E vamos puros quando o amor nos chama;
Iguais perante o Bem, perante o Mal,
Temos asas de luz em mares de lama.

Tanto basta pra sermos celebrados:
Os nossos corpos, quando unidos, dão
O branco ao sol, o azul ao céu, o verde aos prados
E o ritmo de vida ao coração.

26-Agosto-49


NASCENTE

SOUBESSEM o quanto me custa sabê-los
Medrosos, inquietos, na noite indiferente:
As mãos tacteando os soltos cabelos,
Os olhos possessos de um brilho doente:

Sózinhos, vazios de crenças submissas,
Sem rastros de estrelas ou pombas no ar...
— Areias de Alcácer, fatais, movediças,
Lhes 'stão exigindo morrer devagar.

Soubessem o quanto me custa a recusa
Da flor dum sorriso, da cor dum afago;
Que angústia indomável se expande e soluça
Nos versos que escrevo, nos sonhos que trago.

Sofrei, penitentes sem luas redondas.
Com chagas na alma, sem pensos de linho!
— Meu Deus, se os escutas, por Deus! não respondas
A's preces piedosas de calma e de ninho.

Deixá-los, gritando o mal sem remédio
De pálidas febres, de rosas esguias;
Deixá-los, submersos no ignoto mistério
Do crime das horas, na ronda dos dias.

Quem nasce humilhado com loiros e glória;
Quem vê do seu berço os frutos maduros,
Não sabe a que sabe o sabor da vitória,
Pois não há vitória nos passos seguros.

Mas custa, eu sei quanto! sabê-los sem rumo,
Na noite indiferente, julgados perdidos.
Cativos: a vida é mais do que um fumo ?
……………………………………………………………………
— Roubei à Poesia meus cinco sentidos.

2-Janeiro-50


Desenhos e poemas da primeira página de:
[clicar para ver melhor]

(reproduções a partir da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

outras evocações (pela ordem por que as vou vendo):
Resumo biográfico, em Porosidade Etérea
Alguns poemas e uma ilustração do Afonso Cruz, em Pisca de Gente
Continuação da publicação de Café de Subúrbio, em Café Central
Nota de Manuel Poppe (...«A Literatura não é um campeonato e as opiniões de cada um são subjectivas e sujeitas a contestação.»...), em Sobre o Risco
Testemunho de Mário Cláudio, no Público
Uma fotografia, em O Melhor Amigo
Notícia e memória de Homenagem, no blogue da Associação Portuguesa de Poetas, de que era Sócio Honorário
Um significativo poema, em antologia do esquecimento
Memória da última visita do Victor Oliveira Mateus, em A Dispersa Palavra
Um resumo crítico de Eduardo Pitta (...«A genealogia entronca em Garrett, Nobre, Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha e Malheiro Dias.»...), em Da Literatura
Nota e transcrição de um poema sobre Camões, por José Mário Silva, em Bibliotecário de Babel

26.4.09

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

[excerto de] FLOR DA ROSA

Na passagem do século XIII para o século XIV, D. Gonçalo Pereira teve filhos e filhas que não interessam para a chegada, até nós, da fundação do mosteiro da Flor da Rosa. Mas houve um filho que teve o seu exacto nome, Gonçalo Pereira, e que foi arcebispo de Braga. Este arcebispo um outro filho teve, Dom frei Álvaro Gonçalves Pereira, que foi prior do Hospital e que depois de ter vivido na sede da sua ordem, na ilha de Rodes, viria a erguer a igreja de Santa Maria da Flor da Rosa. Igreja, mosteiro e fortaleza ficam nas proximidades do Crato. Entre filhos e filhas, em número superior a trinta, ele seria o pai de D. Nuno Álvares Pereira, segundo o capítulo inicial da «Coronica do Condestabre».
(…)

(in A Flor da Rosa, Relógio d’Água editores, 2000)



MÁRIO BEIRÃO

NUN'ÁLVARES


Senhor! Por mim, teu espírito visita
O Reino onde servi como soldado,
Por ti, meu coração alevantado,
Por ti, este burel de carmelita!

A humilde cela que o teu filho habita
É um cárcere de lágrimas banhado;
Condoa-se do olhar do emparedado,
A luz desses teus olhos, infinita!

Senhor, perdoa ao monge arrependido
Se ainda não mereço a tua dor,
Reduz-me à escuridão do eterno olvido!

Soberbo eu fui, perdoa ao vencedor,
Ao vencedor dos homens, - o vencido
Por teu pranto humaníssimo, Senhor!

(de Lusitânia, 1917 / 2ª edição: Livraria Tavares Martins, 1964)



ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXORTAÇÃO FRENTE À ESTÁTUA DO CONDESTÁVEL NA BATALHA



Para Mário Saraiva


Cavalga no bronze da glória
À ilharga do túmulo real,
Aqui, onde ficou, em pedra e fé, memória
Da mais vital vitória
De Portugal.

E ergue a espada nua. (Em certo dia
Bastara meia espada
Para enfrentar a cobardia
E vencer a batalha antes de começada.)

E o peito ovante oculta, floreada,
A cruz do seu brasão:
Como a sua alma e coração (branca e encarnada),
É divina divisa devotada
Ao Mestre, ao Rei e ao Irmão.

E olha o céu, caminho seu, seguro,
Pois sabe que no céu tudo se escoa
E Deus é sempre o futuro,
O último senhor do ceptro e da coroa.

Ó português que passas, indiferente,
Frente à estátua do Santo, do Herói:
Não te dói o presente?
A tua pátria doente
Não te dói?

Não sentes o desejo, o ímpeto de orar
Àquele que nos foi o salvador;
Pedir-lhe para regressar,
Formar quadrado contra o agressor?

De ter de novo como Capitão,
Por Deus e Pátria e Rei, o Herói, o Santo?
E de poder dizer altivamente não,
Seguindo o seu pendão,
Onde arde a esperança que perdeste há tanto?

Ah, se não queres marchar, em som de guerra,
Tal como ele, por um ideal,
É que não vale a pena o sangue, a terra,
E morre Portugal.

(de Estado Estacionário, edições Cultura Monárquica, 1988)

15.7.08




[a propósito
disto e disto – e basta ir à base de dados da Biblioteca Nacional para perceber que há montes de livros com nomes iguais a outros livros]

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


O meu livro As (E)vocações Literárias, dado à estampa em 1980, incluía, pela primeira vez, nas obras a editar, um volume de traduções de poesia, sob o título Por Outras Palavras.
Os livros que se lhe seguiram (doze de poesia e três de estudos e memórias) mencionavam, também, esse conjunto de traduções, na bibliografia dos inéditos, conservando o mesmo nome, que me pareceu original e adequado (opinião partilhada por David Mourão-Ferreira).
No texto que me é dedicado, na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo), ele figura na lista dos meus livros a aparecer.
Todavia, em 1990, o poeta Joaquim Pessoa, talvez ignorando os, até então, dez anos de divulgação de tal título, resolve publicar um volume de poesia a que chamou, precisamente, Por Outras Palavras!
E, do mesmo modo, procede Ivone de Moura, tempos depois, atribuindo idêntico nome a um trabalho didáctico da sua autoria.
Devo confessar que nenhum dos dois livros mencionados, quanto a mim, merece assim intitular-se.
Creio que somente este meu tem o direito de nomear-se Por Outras Palavras.
E já não me refiro ao argumento (sério) da antiguidade; aos quinze anos em que o fui anunciando.
Mas porque, realmente, traduzir Poesia é interpretar, por outras palavras, de determinada língua, os pensamentos, os sentimentos, servidos pelo ritmo, a métrica, a rima, que foram transmitidos por uma inspiração em língua alheia.
Daí que, embora estranhando as coincidências (que não vou classificar de plágios), mantenha o meu título na presente obra.
[…]

(in Por Outras Palavras, Vega, 1997)

[...entretanto, em 2000, foi publicado um romance também intitulado Por Outras Palavras, da autoria da Paulo Castilho, Autor da particular preferência da Autora que acaba de publicar um livro com o mesmo título de um outro de Joaquim Pessoa]



16.4.06

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

NOVA MEDITAÇÃO PASCAL


Passo a passo subimos ao Calvário
(Na treva espessa é que se aspira à luz),
Mas o caminho nunca é solitário:
Há sempre quem ajude a suportar a cruz!

Há sempre uma mulher que nos enxuga o rosto
E que o piedoso pranto não sustém
Ao ver sangrar o filho à fúria exposto:
Há sempre alguém a quem chamamos Mãe!

Há sempre o açoite do ódio e da vingança
E o jogo no pó do interesse mesquinho.
Há sempre, num insulto, a ponta de uma lança
A ferir-nos de fel, mais que o cravo e o espinho!

Mas há sempre uma voz que nos pede perdão
E morre ao nosso lado com serena alegria.
Há sempre, meu Jesus, a Tua mão
E o milagre do terceiro dia!

(de Estado Estacionário, 1988)