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3.5.14



DANIEL JONAS


SE NÃO TE AMAREM FINGE QUE NÃO AMAS.
E se te amassem outro amariam:
E só a si, se bem que fingiriam
Amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
E noutrem só a si mesmo reclamam,
Que amante e coisa amada se diriam...
E porque hás-de fingir que amam a ti
Se não se amam em ti sequer mas noutro?
Porque hás-de amar alguém que ama nestoutro
A imagem de si mesmo, e só a si?
Esse ama quem não te ama, afinal…
E mesmo que ame, esse é o teu rival

–//–

PERDOA-ME, SENHOR, POR NÃO SER DIGNO
De mim, de mim sou escasso, o meu fracasso,
Sou qualquer coisa aquém de quem não faço
Ideia, sendo esquivo ao próprio signo.
Oh, vai mudando sempre o meu destino.
Onde me pus? Nem sei... Sou um mendigo.
Acarto com a casa do que digo
E lúcido de próprio desatino.
De mim já fui capaz, agora sou
Só velho, sobre mim me mesurando,
Vassalo e suserano de mim mesmo.
Do meu sonho, o que resta, acordou?
E a mola de rapaz cercas pulando?
Um velho vê cercado o seu sesmo…


(de Nó – sonetos, Assírio Alvim, 2014)

24.11.13

DANIEL JONAS


IMITAÇÃO DE VIDA

A minha vida...
Conquanto a minha vida seja
uma repetição da minha vida,
conquanto imitação da minha
a minha vida
conquanto minha nem pareça
e não, e seja muito e muito mais
do que a queria,
conquanto vivo me experimente enquanto morto
e enquanto morto a mim me sobreviva
a vida não é mais do que perdê-la
e tanto que a perdi pois
me acho num lugar
por insistente inexistente
passando inversamente nos lugares muito mais
da minha insistência em pensá-los...
Prossigo, pois, é mister que assim prossiga,
mas não trago um carinho por mim mesmo,
antes arrasto o móvel por que me tenho
(que peso, meu Deus, de sê-lo)
conquanto imóvel me detenha
e imóvel me seja o que sou
e tanto do que pense ou faça.
Sou tanto aquilo que não pensei de mim...
Sou tanto aquilo que não sou ou não quis
e tanto por tentar...
Sim... as coisas que eram e não foram...
O que mais ardentemente desejei e não cumpri.
As ondas que se foram para nunca mais...
Oh delírio!
A minha cabeça que anda tão perdida...



(de Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013)