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31.8.04

[parto amanhã a caminho de Santiago de Compostela, como peregrino]

DANTE ALIGHIERI

(...)
Então um lume a nós se aproximou
da esfera onde saíra essa primícia
que Cristo por vigário nos deixou;
e a minha dama cheia de letícia,
me disse: «Mira, mira: eis o varão
por quem na terra se vai ver Galícia.»
(...)

(excerto do Canto XXV de Paraíso, in A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura, 2ª ed.: Bertrand, 1996)

19.3.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

RAINER MARIA RILKE

XXI


Frühling ist wiedergekommen. Die Erde
ist wie ein Kind, daß Gedichte weiß,
viele, o viele... Für die Beschwerde
langen Lernens bekommt sie den Preis.

Streng war ihr Lehrer. Wir mochten das Weiße
an dem Barte des alten Manns.
Nun, wie das Grüne, das Blaue heiße,
dürfen wir fragen: sie kanns, sie kanns!

Erde, die Frei hat, du glückliche, spiele
nun mit den Kindern. Wir wollen dich fangen,
fröhliche Erde. Dem Frohsten gelingts.

O, was der Lehrer sie lehrte, das Viele,
und was gedruckt steht in Wurzeln und langen
schwierigen Stämmen: sie singts, singts!


XXI

Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos... Po aquele esforço
de longo estudo vai receber um prémio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co'as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!

(de Sonetos a Orfeu - tradução de Paulo Quintela)


RONSARD

Ciel, air et vents, plains et monts découverts,
Tertres vineux et forêts verdoyantes,
Rivages torts et sources ondoyantes,
Taillis rasés et vous bocages verts,

Antres moussus à demi-front ouverts,
Prés, boutons, fleurs et herbes roussoyantes,
Vallons bossus et plages blondoyantes,
Et vous rochers, les hôtes de mes vers,

Puis qu'au partir, rongé de soin et d'ire,
A ce bel oeil Adieu je n'ai su dire,
Qui près et loin me détient en émoi,

Je vous supplie, Ciel, air, vents, monts et plaines,
Taillis, forêts, rivages et fontaines,
Antres, prés, fleurs, dites-le-lui pour moi.


Céu, ar e vento e montes descobertos,
plainos, vinha em socalcos, verdejantes
bosques, nascente e margens ondulantes,
verde ribeiro e vós, matos desertos,

antros de musgo em meia frente abertos,
prado, ervas, flores, de orvalho radiantes,
côncavos vales, praias dardejantes,
rochedos a meu verso abrigos certos,

pois roído ao partir de ira e cuidar,
adeus dizer não soube ao belo olhar
que perto e longe me comove assim,

vos rogo, céu, ar, ventos, plainos, montes,
matos, florestas, margens, antros, fontes,
prados e flores, que lho digais por mim.

(tradução de Vasco Graça Moura)


GARCILASO DE LA VEGA

XXIII

En tanto que de rosa y azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto
enciende el corazón y lo refrena;

y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto,
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena;

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto, antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre.

Marchitará la rosa el viento helado,
todo lo mudará la edad ligera,
por no hacer mudanza en su costumbre.


XXIII

Enquanto que de rosa e açucena
se revela o matiz no vosso gesto,
e que o vosso olhar ardente, honesto,
o coração inflama e o serena;

e enquanto esse cabelo, que na plena
veia de ouro se escolheu, em voo lesto
no alvo colo, formoso e manifesto,
o vento move, esparge e desordena:

colhei da vossa alegre primavera
o doce fruto, antes que o tempo irado
cubra de neve o deslumbrante cume.

Fará murchar a rosa o ar gelado,
tudo a idade irá mudar, severa,
p'ra não fazer mudança em seu costume.

(tradução de José Bento)


DANTE ALIGHIERI

Io mi senti' svegliar dentro a lo core
un spirito amoroso che dormia:
e poi vidi venir da lungi Amore
allegro sì, che appena il conoscia,

dicendo: «Or pensa pur di farmi onore»;
e ciascuna parola sua ridia.
E poco stando meco il mio segnore,
guardando in quella parte onde venia,

io vidi monna Vanna e monna Bice
venir invêr lo loco là ov'io era,
l'una appresso de l'altra maraviglia;

e sì come la mente mi ridice,
Amor mi disse: «Quell'è Primavera,
e quell'ha nome Amor, sì mi somiglia».


Senti que despertava no meu peito
um espírito amoroso que dormia:
vi vir Amor de longe a mim direito,
e assim tão ledo mal o conhecia,

dizendo "Pensa pois render-me preito";
e palavra a palavra Amor se ria.
E estando então com um senhor, espreito
pouco depois pra lá donde saía

senhora Vanna vi, senhora Bice
que vinham ao lugar aonde eu era,
maravilha uma a outra assim unida;

e tal como se a mente o repetisse
Amor me disse: "Aquela é Primavera,
e Amor se chama a outra a mim parecida."

(de Vita Nuova - tradução de Vasco Graça Moura)

26.8.03

[estive dois dias à procura deste soneto que me ocorreu no Caminho]

DANTE ALIGHIERI

(...) Foi quando, tendo-se eles [os peregrinos] afastado da minha vista, me propus fazer um soneto em que me manifestara o que comigo dizia; e a fim que parecesse mais piedoso, me propus de dizer como se a eles tivesse falado; e disse este soneto que começa: Pregrinos pensativos que passais. E disse "peregrinos" segundo a larga significação do vocábulo; que peregrinos se podem de dous modos entender, um largo e um estreito: o largo, quando é peregrino quem fora de sua pátria esteja; no estreito, não se entende peregrino se não quem vai a casa de Santiago ou dela volve. E é de saber que por três modos propriamente se chamam as pessoas que vão em serviço do Altíssimo: chamam-se palmeiros, quando vão a ultramar, de onde muitas vezes trazem a palma; chamam-se peregrinos, quando vão à casa de Galiza, por ter sido a sepultura de Santiago mais longe de sua pátria do que qualquer dos mais apóstolos; chamam-se romeiros, quando a Roma vão que era onde iam estes que eu chamo peregrinos.
Este soneto não dividirei, sendo assaz manifesta sua razão.

Pregrinos pensativos que passais,
talvez cuidando em coisa não presente,
vindes assim de tão remota gente
como à primeira vista aparentais,

que sem chorar agora atravessais
o centro da cidade tão dolente,
como aquelas pessoas cuja mente
ignora a gravidade de horas tais?

Se quedásseis a ouvi-lo, o coração
por certo suspirando bem me diz
que em lágrimas havíeis de ficar.

Ela perdeu a sua Beatriz,
sobre quem as palavras têm condão
de pôr todos os outros a chorar.

(do capítulo XL de Vita Nuova - tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand, 1995)