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18.4.06

[para acrescentar às outras três versões]

DYLAN THOMAS

A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...


A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos decidiram a sorte,
Duplicaram os mortos, dividindo um país;
Foram cinco reis a dar a um rei a morte.

A mão poderosa levou a um ombro caído
Quando as falanges dos dedos se crisparam;
Um bico de pato pôs fim ao crime
Que pôs fim àqueles que falaram.

A mão que assinou o tratado trouxe febre,
Fez crescer a fome, vieram gafanhotos;
Grande é a mão que determina
Com um garatujar, o número de mortos.

Os cinco reis contam os mortos mas não saram
Chagas que já endureceram; nem podem afagar.
A mão governa a dor como outra mão o céu;
Nas mãos não há lágrimas que chorar.

(tradução de Victor Palla in Poemas do Inglês, Ler editora, 1985)

26.12.05

DYLAN THOMAS

The Hand that Signed the Paper


The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

(publicado pela primeira vez em 25 Poems, 1936)


A MÃO ASSINOU O PAPEL

A mão assinou o papel e abateu uma cidade;
Cinco dedos soberanos colectaram a respiração,
Dobraram o globo de mortos e desertaram meio país;
Estes cinco reis fizeram morrer um rei.

A mão poderosa leva a um ombro curvado,
Os nós dos dedos crispam-se com cal;
Uma pena de ganso pôs fim ao assassínio
Que pôs fim às falas.

A mão assinou o tratado e gerou uma febre,
E cresceu a fome e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que tem domínio sobre
Os homens por um nome garatujado.

Os cinco reis contam os mortos sem suavizar
A crosta da ferida, sem acariciar o rosto;
Mão que governa a mágoa qual a mão que governa o céu;
As mãos não têm lágrimas para chorar.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, in Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1981 - Cadernos Peninsulares / ensaio)


A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

(tradução de Fernando Guimarães, in A mão ao assinar este papel, Assírio & Alvim, 1990 - Gato Maltês)


A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...

A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;
cinco soberanos dedos tributaram a respiração,
de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país:
estes cinco reis provocaram a morte de um rei.

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;
sofrem de cãibras as junturas dos dedos engessados.
Uma pena de pato pôs fim ao morticínio
que tinha posto fim às negociações.

A mão que assinou o tratado engendrou febre,
e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:
grande é a mão que sobre todos impera
com o gatafunho de um nome.

Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam
a crosta das f'ridas nem a fronte afagam.
Há mãos que regem a piedade, outras o céu:
só não as há que vertam lágrimas.

(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)

27.10.04

DYLAN THOMAS

POEMA NO SEU ANIVERSÁRIO


Na semente de mostarda do sol,
Junto ao rio caudaloso e à cachoeira do mar
Onde veloz voa o cormorão,
Na sua casa em andas hasteada entre os bicos
E o arandel dos pássaros
No grão de areia deste dia na ladeira da cova da baía
Ele celebra e troça
O lenho à deriva dos seus trinta e cinco ventos tornados idade;
Garças elevam-se e lanceiam.

Debaixo e em redor de si vão
Solhas, gaivotas, com rastos moribundos e frios,
Fazendo o que lhes é dito,
Maçaricos estridentes nas ondas com safios
Lidam nas suas vias para a morte,
E o versejador na sala de longa língua,
Que tange o sino do seu aniversário,
Labuta para a cilada das suas chagas;
Garças, caules de campanário, abençoam.

Na queda da lã de sementes do cardo,
Ele canta caminho à angústia; voa o tentilhão
Nos cursos de garras de falcões
Num céu rapace; pequenos peixes deslizam
Por quelhos e conchas de cidades
De navios naufragados para pastos de lontras. Ele
Na sua casa torta e torturada
E nas espiras cinzeladas do seu ofício avista
Garças, sudários que caminham.

O manto do rio interminável
De vairões volteando a tecer as suas rezas;
E sabe que no mar lá longe,
Ele que moureja para o seu fim acocorado e eterno
Debaixo duma nuvem serpente,
Os golfinhos mergulham de dorso no pó,
As crespas focas raiam para o fundo
A matar e o seu próprio sangue que tinge a maré
Que bem que desliza na boca polida.

Num cavernoso, agitado
Silêncio de onda, o choro branco do ângelus toa.
Trinta e cinco sinos cantam tangidos
Em cicatriz e caveira, naufragados amores seus
Das estrelas cadentes guiados.
E o dia de amanhã chora numa grade cega
Que o terror rasgará em pedaços
Antes dos grilhões rebentarem num martelo em chamas
E o amor escancarar o escuro

E livremente vai perdido
Na famosa luz desconhecida do grande
Deus fabuloso e amado.
O escuro é um caminho e a luz é um lugar,
O céu que nunca foi
Nem nunca será é sempre verdadeiro,
E, nesse vazio de sarça,
Miríades como as amoras nos bosques
Os mortos crescem para a Sua alegria.

No lugar onde poderia errar nu
Com os espíritos da baía em ferradura
Ou os mortos costeiros dos astros,
Medula de águias, raízes de baleias
E quilhas dos gansos bravos,
Com Deus abençoado e incriado e o seu Espírito,
E cada alma um sacerdote Seu,
Logrado e chantre no jovem aprisco do Céu
Ser em tremente paz de nuvem,

Mas o escuro é um longo caminho.
Ele, na terra da noite, sozinho
Com todos os vivos, reza,
Sabe como o foguete do tempo vai soprar
Os ossos para fora das colinas
E os rochedos ceifados sangrar e a sanha
Das últimas águas estilhaçadas coicear
Mastros e peixes para as quietas rápidas estrelas,
Sem fé e até Ele

Que é a luz do velho
Céu em forma de ar onde as almas braveiam
Como cavalos na espuma:
Oh, possa eu chorar a meio da vida com as preces
Das garças druidas e consagradas
A viagem para a ruína que tenho de trilhar,
Madrugueiros barcos retidos em terra,
Mesmo assim, a clamar com a língua delapidada,
Conto em voz alta minhas bênçãos:

Quatro elementos e cinco
Sentidos, e o homem um espírito apaixonado
Enredando-se no vórtice deste lodo
Até ao reino que há-de vir, suave, sino, nimbo
E os perdidos domos ao luar
E o mar que esconde os seus secretos eus
Na funda base negra feita de ossos,
Canção das esferas na carne das conchas,
E sobre todas esta última bênção,

Quanto mais perto me movo
Para a morte, homem só em cascos com rombos,
Mais alto o sol floresce
E o mar retalhado e em ruínas exulta;
E cada onda do caminho
E cada tempestade enfrento, e toda a terra então,
Com fé mais triunfante
Do que sempre houve desde que foi dito o mundo,
Tece a sua manhã de louvor,

Ouço as impetuosas colinas
Erguerem-se festivas e mais viçosas ao cair das bagas
Castanhas e as cotovias do orvalho cantarem
Mais alto no trovão súbito deste maio e quão
Mais arqueadas de anjos cavalgam
As ilhas em fogo com as almas dos homens! Oh,
Mais santas que seus olhos
E meus homens fulgentes nunca mais sozinhos
Enquanto me faço ao mar para morrer.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, em apêndice a Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1982 - o original pode ser visto aqui)