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2.1.15

FERNANDO ECHEVARRÍA


A LUZ NOS GUIE DO TEU ROSTO. APENAS
ela nos seja, mesmo à noite, dia.
E a abundância de dias enriqueça
esta velhice desprendida,
de forma a os frutos lúcidos da terra
dispensarem maior sabedoria.
E reunirem. Serem porta aberta
que a chegada dos outros endominga.
Como o domingo se endominga à mesa
com os frutos polícromos do dia.
E sobre todos esses frutos se erga
o teu rosto de luz, mesmo que o enigma
da sua claridade ainda só seja
a que há-de vir. E já desponta. E vinga
como o esplendor, depois da noite hesterna,
que recupera terra mais antiga.



(de Lugar de Estudo, Afrontamento, 2009)

16.10.14




FERNANDO ECHEVARRÍA


AUTO-RETRATO DE REMBRANDT

1
A TELA OCULTA O OUTRO DE SI MESMO.
Que vai surdindo dela, da perdição de análise
que está no espelho lendo
a figura perdida, já só quase
ver o fora por dentro,
enquanto ver perdura em sua idade.
Cada minúcia incita no momento
a luz do objecto visto. E a do transe
duma veia infalível a que o peso
instrumental se iluminasse.
E, do fundo do outro de si mesmo,
o ver se vê. Com o só dentro de exterioridade.

2
E A DISCRIÇÃO DE VER DOMINOU TANTO
que a implacável doçura da velhice
se esqueceu de ir chegando,
com o uso da roupa, a essa luz humilde
de crânio coroado
de indiferença à encenação sensível.
E essa indiferença cumpre-se no trato
do porte diligente que a atenção atinge
e deixa iluminar-se até no pano,
gasto no uso que exige
a paciência esquecida no trabalho.
E que o estudo a claridade erige.

3
QUE A DISCRIÇÃO TAMBÉM É LUZ. DESPRENDE-SE
tanto da roupa como da paciência
com que se espera que o olhar se entregue
ao ajuste objectivo que a tristeza
instaura à volta de cada coisa. A ergue
à só indiferença de si mesma.
Não é luz que jubile. Apenas serve.
Cumpre a penumbra duma árdua empresa
em que tufos minúsculos somente
difundem uso de quase só emergência.
De aí as formas surdem. Quase nem se
desembacia o lume da surpresa.

4
OU É A SURDA SURPRESA DO VAGAR
que pelo escuro dos castanhos sobe
até um cinzento por que não se dá
nem na camisa, nem no rubro pobre
do manto casual.
Que na paleta quase que se escondem,
como se funde na mudez das mãos
a inteligência agora quieta. Porque
espera que ver as mova instrumentais
e só então acordem
a esse sono sobrenatural
que volve humilde o poderio ao homem.

5
O SILÊNCIO COMEÇA DESDE BAIXO.
É de onde aponta a escuridão das linhas
que vão gerar essa estrutura de ângulos
difícil, mas de fundação precisa.
O pincel o sigilo vai ao canto
mais fosco alimentar. E traz acima
o nascimento vertical do traço
que o silêncio da tela em sua orla afinca
e, a custo, faz recrudescer o alto
vagar de ver. A independência pia
com que, do outro de si mesmo, tanto
a distância de ver se determina.

6
E, AÍ, A LUZ, DIR-SE-IA QUE DE DENTRO
da operação de estar a ver nos vem.
E quanta baste para nós lhe vermos
a claridade exterior. E o trem
de sono que a brancura deixa ao centro
da indiferença com que já se vê.
Mas que prolonga o horizontal acerto
da tela que na tela é tenso. E é
rectângulo que diz o descoberto,
enquanto o inferior é só refém
duma paleta que lhe adumbra o peso
e nutre o luto arcaico do pincel.

7
E UM OUTRO, DE VERTICAL DIFUSO
e de uma escuridão lenta de ofício,
de onde se arranca um quase eco de rubro
a um castanho profundo a abrir a vinho.
Mas de onde se adivinha sobretudo
que a vibração do escuro nos vai vindo,
até a cabeça destacar o vulto,
só iluminado quanto for preciso
para que em ver desembacie o estudo
a independência. Esse lugar vazio
que os outros de si mesmos vê no mundo
onde de si se vêem desprendidos.



(de Uso de Penumbra, 1995)

18.2.14

[outros melros LXVIII]

FERNANDO ECHEVARRÍA


O MELRO REUNIU A CLARIDADE.
Trouxe-a ao cântico. Trouxe
com ela a suspensão dos arrabaldes
que descobriam esse ponto onde
o conforto pungia, recôndito, nas árvores,
não o cântico já, mas sua fonte.
Havia, porém, a frase.
Ou, se quiserem, esse tema que houve
de, limpamente, modular-se
por um exterior de brilho. Porque
a modulação requinta e abre
o exercício de uma nova ordem:
a de um ouvido que se erige a análise,
sem, por isso, perder o horizonte
do ainda a ouvir. E a elevar-se
a uma altura cada vez mais longe,
com o melro a construir a base
de quanto a pauta em júbilo recolhe.


(de Categorias e outras Paisagens, Afrontamento, 2013)

26.12.13

FERNANDO ECHEVARRÍA


1

ENTRARAM PARA ONDE A DESMESURA,
abstraindo a importância de lugares,
os absorveu na drástica coluna
de um fogo repentino a desastrar-se.
E a dirigi-los pela noite súbita
para um limbo de incêndio inominável
em que só ecos de negrura e música
ajustariam cunhos singulares.
Não haveria transparência avulsa.
Apenas a de esquecimento em fase de
sobreviver à bruma
em cujo esquecimento se afastasse.
E, com ele, se ausentaria a chusma
de gente, de animais, coisas e árvores.
Iriam para mais zona nenhuma.
Nela, invisível, erguer-se-ia a idade
de pulsos convincentes e de lúcidas
pungências a abismar-se
pela abstracção de puridade alguma.
Para ausência infinita de lugares.

2

MAS ERA AUSÊNCIA OPERATIVA. DE ONDE
surdiam pulsos contundindo, quando
a compenetração trazia o longe
à transparência intemporal de páramo,
regido só por dimensões tão doces
que retinham apenas sobressaltos.
O sopro aí sobressaía imóvel.
Abria a sua doação de fausto
a que aderia o homem
depois de ao tempo se eximir e ao espaço.
E depois de sofrer mais horizontes
cada vez mais extensos - ou mais altos? -
de onde ausentar-se convocava. E a noite,
convocada também, sumia o rasto
de quanto se sumira, abrindo, a monte,
antevisão possível, recuando.

3

E O RECUO CONVOCAVA AINDA,
retendo, embora, quantos convocara
nessa extensão de ausência operativa,
aqui tão perto de a uma tal distância.
Apontavam aí marcos de via
e de pungência jubilosa. Farta
expunham a visão funda de míngua
que doação igual proporcionava.
Abstrusamente e por um triz ubíqua
ia chegando a pulsação. A mágoa
alargava-se à conta da alegria,
recolhendo as presenças alheadas
daqueles, convocados, que seguiam
mantendo-nos afins, à borda de água.

4

ENQUANTO SE AUSENTAVAM NOS ABRIAM
a feliz novidade de um espaço
de onde somente se alargava a vista.
E em que tempo algum era contado.
Essa ausência, contudo, nos retinha
o impulso veemente, o luto em rapto
daquele, jubiloso, que partira
deixando-nos, no entanto,
o pulso contundente. A sua ida
pungindo o ponto críptico do campo
que nos reduz a uma atenção tão limpa
que nela avulta o espigão do trânsito.
Como avulta também a campa lisa,
a compenetração e os carvalhos
a aparecer do fundo dessa vida
que traz a lume a nitidez sem espaço.



(de In Terra Viventium, Afrontamento, 2011)

11.1.12


FERNANDO ECHEVARRÍA



VIVOS ESTÃO. E É DO FUNDO DE ESTAREM
que seu pulso nos vem vivente
estremunhar. Que naufragáramos quase
na compenetração. Estado sempre
imbuído de ausência. A saturar-se
do rasto duma ida tão doente
que o mundo cessa à volta. Ou é arrabalde
que de o ser até se esquece.
Mas, quando de onde estão nos vêm e trazem
pungência tão de pulso renitente
despertar se subleva. Sobe ao auge
de vê-los vir àquela terra estreme
onde a morte perdeu a sua base,
que só há vivos nessa luz vivente.


2

OS VIVOS QUE ALI VIVEM NOS CONVOCAM.
Em nós sublevam esse pulso vivo
que fica dando, com a evidência toda,
para o rasto sugado do seu ímpeto.
A haver fronteira, passa por uma zona
aonde as dimensões cruzam conflitos
e paralisam. Embora
perplexa errância acerte o exercício
e fixe o ponto de onde se abre a folga
que ajuste a dimensão ao novo sítio.
E esse sítio é o de aqui e agora.
Com o agora a exceder-se e vivo
a contundir à volta
do pulso peremptório. E fugidio.


3

MAS QUE SÓ FOGE QUANDO SE OBNUBILA
a atenta gravidade. Rompe então
uma estranheza de alba compassiva
que fica a pairar. E só
a lomba reconhece, tão antiga
que se lhe esvai a luz do pormenor.
Ou, talvez, essa luz entre em vigília,
sendo a vigília ritmo que se foi
esquecendo do ponto agudo em vista.
Agora, é sem ninguém a solidão.
Mesmo a paisagem desfalece. Fica
o eco trespassado de um fulgor
e decaindo para a cota implícita
que a explícita estranheza veio impor.


(de In Terra Viventum, edições Afrontamento, 2011)

6.6.10

FERNANDO ECHEVARRÍA


A LUZ NOS GUIE DO TEU ROSTO. APENAS
ela nos seja, mesmo à noite, dia.
E a abundância de dias enriqueça
esta velhice desprendida,
de forma a os frutos lúcidos da terra
dispensarem maior sabedoria.
E reunirem. Serem porta aberta
que a chegada dos outros endominga.
Como o domingo se endominga à mesa
com os frutos polícromos do dia.
E sobre todos esses frutos se erga
o teu rosto de luz, mesmo que o enigma
da sua claridade ainda só seja
a que há-de vir. E já desponta. E vinga
como o esplendor, depois da noite hesterna,
que recupera terra mais antiga.


(de Lugar de Estudo, edições Afrontamento, 2009)

26.2.06

FERNANDO ECHEVARRÍA

* * *


Por fim, era a lavoura que lhe retinha os anos.
Do jeito de os reter sobressaía
uma eira de luz. Aberta ao campo
de ver, quem sabe que compaixão antiga.
Ou, então, instalava-se-lhe um páramo
de nitidez longínqua
ao fundo da cegueira. Uma cegueira a quanto,
estando perto, o recolhia ainda
para um recuo de distracção sagrado
onde ficava a difundir-se a vista.
E, ao mesmo tempo, recrudescia o estado
de inteligência. Vinha
reconhecer-se no objecto. E o acto
do reconhecimento repetia
o mundo em todo o seu esplendor abstracto,
que era o concreto a alicerçar-se em vida.
Era o momento em que a lavoura, os pâmpanos,
e mesmo a canícula da quinta
lhe retinham a tez, a luz dos anos.
E aquele recuo de antevisão activa.

(in Literatura Portuguesa e Brasileira / Ano 2000, organização de João Almino e Arnaldo Saraiva, Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 2000)

15.2.05

FERNANDO ECHEVARRÍA

A NOITE NOS ACENDE MOVIMENTOS

A noite nos acende movimentos
luminosos. E ampla se diria
ou paz, se não mover-nos
abrisse dentro da brisa.
Mas mesmo que o silêncio
nos alongue a memória e as axilas
respirem o que vemos,
a custo vemos crescerem às pupilas
os vasos de irem vendo
a inclinação das coisas esquecidas.

(de Sobre as Horas, 1963)

17.1.05

FERNANDO ECHEVARRÍA

A luz inerte susta
o horizonte. Baixo negrume de caruma
surpreende-se por trás do
nevão. Aonde, escura,
a mágoa afunda o pasmo.
E este o bosque. A oculta
Imensidade de halo
Que a luz inerte susta,
exígua, como o campo.

15.4.04

FERNANDO ECHEVARRIA

Descobriremos o nosso movimento
quase uma folha,
ou quase uma pupila
que se inclinasse e só nos desse o tempo
de uma somba passar e entrar no olvido.
Mas, sobretudo, veremos
pensar-se um ar antigo
que vem ao movimento
quando mover-se nem sequer é escrito.

(de Sobre as Horas, 1963)