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14.10.13

EDUARDO GUERRA CARNEIRO



IV

Há nomes de luxo onde o lixo
arde — bouças chamejantes.
Medo é a palavra exacta nas travessas
quando bandos circulam protegidos
pela finança alta e licenciada.
Se ele diz que há cavalos e cães
e fala dos doutores, esquecem
que no fundo era o mercado.
O país ergue-se em peões e os baldios
em chamas. Volta ao restolhar do milho
e camponeses dizem da lavoura,
da fome e da calúnia. Basta
olhar os murais onde esse luxo
se transformou no lixo capital.

A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares — nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

Não penses que a canalha é lixo.
Nunca o foi. Na secura das terras,
fouce a fouce, ergue as colheitas
dos teus alimentos. Não julgues a canalha
o bode expiatório destes dramas. Lumpen
é quase luz noutra reforma dita
dura. Ouve as sirenes da polícia
e as ambulâncias solenes da morte.
Entre os espelhos quebrados dessas lojas
estão os focos do incêndio dos costumes.
Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.


(de Lixo, &etc, 1993)

14.6.13

EDUARDO GUERRA CARNEIRO



III

Eles buscam novelos no meio da lixeira.
No negrume do poço rasgam véus
e a poeira brilha, feita mica.
Do granito regressas, mãos vazias,
pois disseram-te que o poço já secou.
Vermelhos os novelos marcaram a sombra
onde nasciam outras borboletas.
Era a luz que buscavas, viajante,
vindo das trevas desse Inferno teu.
Os cães ladram-te à noite nas ruelas
e a encruzilhada tem pronto o feitiço.
Volta, pois, ao lixo, a essa lixeira,
monturo de sentimentos esquecidos:
as estrelas ainda brilham lá ao fundo.

Tropeças num cordel, envolves-te
no pântano. Cordões de nervos teus
assim quiseram: criar o imaginário.
Voa sobre o terreno podre que criaste
e marca um areal e claras ondas.
Os sonhos que tu julgas realidade
não passam de mentira. Tropeças
quando queres e és andorinha
riscando o céu urbano e os beirais.
Vem-me aqui às mãos, tão franciscanas!,
e enreda-te noutros sonhos.
Dou-te as possíveis asas para o voo
quando as últimas amarras desse medo
cortares como um cordão umbilical.

 

(de Lixo, &etc, 1993)

14.3.04

EDUARDO GUERRA CARNEIRO

RUY CINATTI


Cinatti veste roupão de seda japonês
na Travessa da Palmeira. De samurai travestido,
o sabre desembainha e salta no sobrado.
Fala-me depois de Guevara, de Cristo,
e da Virgem de Macarena de Sevilha.
Brande agora um rosário e brandy
serve. Abre a janela de repelão
e recomeça as sagas de Timor.
Recusa um charro mas conta d'outras
passas nos reinos do Oriente.
Atira ao ar as folhas dos poemas e pagelas
com santinhos. Impaciente enxota-nos.
Mas volta ao patamar da escada, aos berros,
para dizer que o chá abriu.

(de Contra a Corrente, & etc, 1988)

3.1.04

EDUARDO GUERRA CARNEIRO

Nasceu em Chaves, em 1942.
Foi também jornalista.
Foi hoje noticiada a sua morte.

É hoje vulgar dizer-se: "Isto anda tudo ligado, como diz o poeta." E qual é o poeta que diz: Isto anda tudo ligado? Camões? Pessoa? Não. Isto anda tudo ligado é o título dum livro que Eduardo Guerra Carneiro publicou em 1970.
O que para o poeta andava ligado naquele já remoto ano de 1970? Tudo: a cerveja, os Beatles, uma mesa de café numa pequena vila perto de Tomar, um poema da Camilo Pessanha, a Twiggy (inventora de minissaia), a memória "destes anos, destas cidades mornas onde com vagar enlouqueço", enlouquecemos, enlouqueceremos. E também Allen Ginsberg, Joan Baez a cantar, a estação de Nelas, uma enorme bebedeira na Covilhã, Walt Whitman, os guerrilheiros que saem do Vavá "com uma citação à bandoleira". E outra vez a cerveja: as letras "que escorrem pela caneta como a cerveja pelos cantos da boca"...
Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos. (Manuel João Gomes - texto da contra-capa de Profissão de Fé)

ÁRVORE

Árvores crescem em lugares
inesperados. Árvores estranhas
com seus frutos humanos. Árvores
de guerra caídas sobre a estrada.
Árvores de paz rompendo os ramos.
Ar de Abril desfeito numa tempestade.
Árvore como se fosse uma armadura
onde ainda escrevo sem querer,
sem crer, teu nome - ligeiro arbusto

(da sequência Jardim de alguns objectos e coisas reais)

Há um arcanjo de que Rilke falava. Uma pedra tumular no mosteiro de Leça do Balio. Um relógio despedaçado encontrado junto ao Drugstore dos Campos Elísios. Uma rapariga que subitamente parou e alguém lhe deu a mão. Nunca se tinham visto ou encontrado e qualquer coisa ali se passou que ele não sabe explicar pois havia demasiado movimento, alguém que esperava lá ao fundo, ele soltou a mão que segurava, ela afastou-se, e cada um, ainda a olhar para trás, partiu para seu lado para nunca mais se ver ou encontrar.

(da sequência Isto anda tudo ligado)
(de Isto Anda Tudo Ligado, Cadernos Peninsulares, 1970)

AZULEJOS

A luz entre as mãos é azulejo
no redondo do gesto - ombro ou testa.
O olhar já se perde noutro texto:
unhas de Pessanha, cotovelo alevantado,
o sorriso onde África desenha o gosto
- dança e desejo do ar livre. A cal
não é de morte. O sol ainda brilha
em teu gostar. Juntas as mãos; arde
vento noutros campos. Da claridade
agora vejo esses contornos. Perturbado
avanço, na curva entre os peitos. Ancas
juntas com medo de eu abrir
mercado e fábrica. A luz de novo acesa?
O azulejo é esplendor; entrar na casa.

Sim: azulejos são desejos de eu voltar.
Cantigas? Nem amigas me fazem desistir
do meu enterro. Assim destino a vida
em desatino. Envolvo o corpo na batina
sem sossego e já torno ao copo, à capa
do regresso. Revoltas no azulejo
em azul e amarelo na parede.
Retrato anónimo onde artista
argamassa o desejo, já assina.
Desistir? Não desisto antes do fim!
Insisto em mim. Cantigas? Assim
contorno o azulejo. Peço afinal
mais um copo - regresso
ao corpo-a-corpo do desejo.

GATO

Chama-se Luís o gato do terceiro
e é companheiro de um mestre filósofo.
Em madrugadas altas há por vezes sobressalto.
quando o bichano acorda mal disposto.
O professor, sábio também
em jogos de paciência, acalma
o animal e já o mima. Trata-se,
vendo bem, de outra ciência,
tão difícil de conseguir como
um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho
da Silva, o do terceiro, e tem um gato
com quem, à vontade, discreteia.
Luís, discípulo, ronrona baixinho.
Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

(de Contra a Corrente, &etc, 1988)

As cores

Amarelo sobre lilás, faixas de
laranja e muito verde. Do outro lado
o castanho terroso, o azul pálido,
alguma prata na neblina.
Rompe-se depois o vermelhão,
entre o ultramarino, e um vago
sépia surge nos contornos brancos.
O voo cinzento das aves risca
esta paisagem e apenas em fundo,
tremura junto à praia, a rebentação.
Quase sem tempo, nem espaço
para os versos, distingo ainda
um ovo de luz a afundar-se
enquanto a Outra assume a dignidade.

(de Profissão de Fé, Quetzal editores, 1990 - Grafitti)

[outras evocações deste poeta no Aviz e no Almocreve das Petas]