Mostrar mensagens com a etiqueta Egito Gonçalves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egito Gonçalves. Mostrar todas as mensagens

1.12.13

EGITO GONÇALVES


OS VEGETANTES

Continuam aqui
roendo as unhas!

Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.

Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistam à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do miais inútil.

Curvam ao solo os ombros
escoriados; curvam-nos para
duradoiras urtigas, seixos
sem horizonte, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.

Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
«É a vida!». Sementes violadas
não germinam.

Em vão os bombardeiam os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para dar vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.

E fazem do amor essa triste humidade,
um delíquio formal logo amortalhado.

São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.



(de Poemas Políticos 1952-1979, Moraes Editora, 1980)

25.4.12

EGITO GONÇALVES


A PRIMAVERA


Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e a angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra a terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
— primaveras também, esperança, vida...


(de Poemas Políticos (1952-1979), Moraes editora, 1980)

2.9.09

EGITO GONÇALVES

Que resgato com o poema?

Que amálgama de sóis, sangue,
domínio de cinzas recupero?

Que aniquilo com o poema?

Que sobe em mim ao grito da distância,
ao apelo telefónico dum estribilho,
à gasta, espira dum disco de adeleiro?
Que compro com o poema?

A força de enfrentar a solidão
que ignorava? O desfrute
de abandonar o abismo que me extraiu
o sumo?

Que poema cavalgo?,
ou sento-me no chão?

(de O Fósforo na Palha, publicações Dom Quixote, 1970 – cadernos de poesia)

25.4.07

EGITO GONÇALVES

A PRIMAVERA


Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
- primaveras também, esperança, vida...

(de Poemas Políticos 1952-1979, Moraes editores, 1980)

9.7.04

EGITO GONÇALVES

Beijo não é palavra de poema. É o raiar da madrugada, o anúncio de um dia longo, o final da tensão que ameaçava partir a corda: podemos escolher imagens, comparações, fazer literatura. Será sempre outra coisa, meu amor, o beijo do poema. É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores. Não se retira um beijo do poema, este é apenas a fotografia de alguns pormenores. Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce, uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único, um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas que conseguiram viver até chegar ali.

(de O Mapa do Tesouro, editora Campo das Letras, 1998 - O Aprendiz de Feiticeiro)

27.4.04

EGITO GONÇALVES

O fingimento é uma espécie de encanto em que os sentimentos se refugiam. Lugar cheio de penumbras de onde podem espreitar o espaço aberto de onde temem que falar claro venha a ser o erro fatal que a história registará como causa da derrota. Os sentimentos são por vezes aves assustadiças que não querem perder nada da própria carne e se alimentam da alegria recôndita de que são feitas. Temem que o encanto se quebre com a entrada da luz e esta possa reflectir nos espelhos uma imagem desconhecida. Sabem que o sol é um predador traiçoeiro.

(de O Mapa do Tesouro, Campo das Letras, 1998)