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26.10.15

FÉLIX CUCURULL


XXXVI

Direis, talvez:
já deixámos de ser crianças
e os anjos dissiparam-se.
As mãos adultas
fazem mal aos sonhos
que não têm raízes
profundas
nestes campos onde apenas floresce
a semente das coisas concretas.
Fizemos mal ao sonho dos anjos
e a nossa paz futura
será a dos ciprestes
que crescem em silêncio.
Dentro da sua seiva
poderemos triunfar — juntos! —
diante das estrelas
e dos vivos em que viveremos, quando lutam,
no esforço sempre retomado
do cérebro e dos músculos,
para ser, apenas ser
— indómita vontade...
Perduraremos para sempre
matando a sede nas chuvas.



(in Vida Terrena, tradução de António de Macedo com a colaboração de Carlos de Oliveira, Editora Ulisseia, 1966 / original de Els Altres Mons, 1952)

20.7.14



LEOPOLDO MARÍA PANERO


TRÊS HISTÓRIAS DA VIDA REAL

I. A CHEGADA DO IMPOSTOR FINGINDO SER LEOPOLDO MARÍA PANERO

Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos crus, alguém chamou da minha porta dizendo chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de convicção para desempenhar o papel, os seus abundantes silêncios, os seus equívocos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, a pouca graciosidade das suas graças, convenceram-me de que se tratava de um impostor. De imediato, fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, e na presença de todo o regimento, foram-lhes arrancados os galões, o fecho de correr, e deitado ao lixo o seu batom, para ser fuzilado logo de seguida. Assim acabou o homem que fingiu ser Leopoldo María Panero.

II. O HOMEM QUE ACREDITAVA SER LEOPOLDO MARÍA PANERO

Chovia e chovia sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Ali, o filho mais novo de De Kooning, levantou-se nervoso da cama, vestiu um roupão e foi para o quarto do seu pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto pelo filme Chávarri El Desencanto, não teve outra alternativa senão chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistiu no seu delírio, imaginava cenas de infância, ruas de Astorga, sinos, a pancada do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar ser Eduardo Haro, uma pequena variante da primeira figura. De imediato começou a coxear e a tossir e então afirmou ser Vicente Aleixandre. Enquanto isso, na casa do De Kooning, por entre o ruído de correntes, continuam a multiplicar-se as aparições.

III. O HOMEM QUE MATOU LEOPOLDO MARÍA PANERO (THE MAN WHO SHOT LEOPOLDO MARÍA PANERO)

O meu querido amigo Javier Barquín sempre irá acreditar que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas isso não é verdade. Ninguém nesse tempo tinha coragem para o fazer. O sujeito tinha aterrorizado a cidade inteira. Tinha raptado várias mulheres e ameaçara torturá-las. Por isso nessa tarde tomei a decisão, fui à espingardaria do Jim e comprei um revólver calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero tentava mais uma vez extorquir Javier Barquín, disparei de longe. Como Javier também tinha sacado de uma pequena pistola, supôs ter sido ele a fazer justiça. Toda a sua vida irá acreditar que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Mas não foi assim. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.


(tradução minha – original in Estaciones, 2 otoño-invierno, 1980-81 / reproduzido in Poesia Completa 1970-2000, edic. de Túa Blesa, Visor Libros, 2004)

14.7.14

ELOY SÁNCHEZ ROSILLO


O ABISMO

Há neste ir deixando que se passe
a vida sem dar fruto, nesta voluntária
renúncia de fazer em que tantas vezes
me mantenho e que não tem, no meu caso,
nenhuma relação com a preguiça,
nem com o ermo cepticismo, nem
com essa aridez do coração que a muitos,
na minha idade, para sempre nega a palavra,
há nesta abstenção deliberada, porventura,
não sei, como que um bizarro amor ao perigo,
como que um obscuro afã irreprimível
de tentar a sorte seguindo pela berma
de um abismo espantoso. Certas vezes, passam
largos meses inteiros em que nada escrevo,
em que me oponho inexplicavelmente
a cumprir o dever que justifica
o meu existir. E digo-me: «Já há muitos anos
que deixei de ser jovem; vai-se encurtando o tempo
de que talvez disponha para levar a cabo
o labor ainda pendente: os poemas
que porfiam e aspiram ao ar e à luz
e que sem forma habitam nas sombras
do meu silêncio. Não há maior tristeza
do que a daquele que querendo ascender
não cresce nem se transforma em flor, em vida
que se afirma e que canta». No entanto, persisto
na inactividade, olhando, absorto,
cheio de culpa e de desassossego,
o fundo do abismo: o nada que desmente
as minhas velhas ilusões, a fé que me susteve,
a minha vontade de ser diante da morte.


(tradução minha - original de La Vida, Tusquets Editores, 1996)

16.12.13

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


AQUELA FLOR

Viste que nada era duradouro
desde muito menino. Que uma flor
se abre se arroga de aroma e brilha
e cai depois no jardim.
E ainda que outras flores logo apareçam
- muito semelhantes - nenhuma delas
será a flor que despertou
os teus sentidos: aquela flor.
Pessoas meses chuvas e ânsias
se escaparam de ti em bicos de pés
para não te magoarem. Mas tu
aprendeste com a flor única
o amor ao que perece
e a ferida do que já morreu.



(tradução minha; original de Como los trenes de la noche, 1994)

16.11.13

ROGER WOLFE


DE CERTEZA QUE A ELIOT NÃO ACONTECIAM COISAS DESTAS

Fumando um cigarro.
Lendo um livro que comecei
há seis meses. Esperando
que alguém telefone.
A vida esta tarde torna-se-me
tão monótona, tão insuportável
como três gerúndios no início
de um poema.


(tradução minha / original de Hablando de pintura con un ciego, 1993)

10.11.13

LEÓN FELIPE


TALVEZ ME CHAME JONAS

Eu não sou ninguém:
um homem com um grito de estopa na garganta
e uma gota de asfalto na retina.
Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
Mas às vezes ouço um vento de tormenta que me grita:
«Levanta-te, vai a Nivine, cidade grande, e prega contra ela.»
Não faço caso, fujo pelo mar e deito-me a dormir no canto mais escuro da nave
até que o vento teimoso que me segue volta a gritar-me outra vez:
«Que fazes aí, dorminhoco? Levanta-te.»
— Eu não sou ninguém:
um cego que não sabe cantar. Deixem-me dormir!
E alguém, esse vento que procura um funil de trasfega, diz junto de mim, dando-me com o pé:
«Cá está; farei uma buzina com este oco e velho cone de metal;
meterei por ele a minha palavra e encherei de vinho novo a velha cuba do mundo. Levanta-te!»
— Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
Mas um dia atiraram-me ao abismo,
as águas amargas rodearam-me até à alma,
a ulva emaranhou-se na minha cabeça,
cheguei até às raízes dos montes,
a terra pôs sobre mim as suas fechaduras para sempre...
(Para sempre?)
Quero dizer que estive no Inferno...
De lá trago agora a minha palavra.
E não canto a destruição:
apoio a minha lira sobre a crista mais alta deste símbolo...
Eu sou Jonas.



(tradução de Pedro da Silveira, in Mesa de Amigos, 2ª edição: Assírio & Alvim, 2002)

14.10.13

BEN CLARK




(chanson)

Há sacos do lixo com asas e sem asas.
Há sacos do lixo com perfume
e outros feitos de fécula
de batata (rompem-se num instante).
Há sacos de cozinha e outros sacos
para um contentor comunitário.
Há sacos de design que parecem aquários
mas estes também são apenas lixo.


(tradução minha - original de Basura, Editorial Delirio, 2011)

24.3.13

GERARDO DIEGO


OS OMBROS DOS FILÓSOFOS

Os ombros dos filósofos estabelecem o aqueduto
de onde nos chega o sangue obtido pelo degelo
dos mais altos corações
Se ponho os meus maxilares nesse entreposto de séculos
estremecem-me aladas todas as árvores das minhas veias
e enchem-se de repente as minhas humilhadas bochechas

Ninguém tem o direito de trocar um inverno de cinema
por um par de pistolas incrustadas de estrelas
nem a conseguir que o céu lhe devolva as suas bengalas esquecidas
e os seus cartões de visita desperdiçados

O que já entrou no canal intestinal da serpente
nunca mais se arrepende nem sequer
faz um nó gracioso no mais belo do caminho

Deixa-me passar a mão pelo dorso suavíssimo destes versos que escrevo
A eternidade assim por baixo dos meus dedos miará ternamente


(tradução minha – original de Biografia incompleta, 1925-1941)

30.11.11


VICENTE ALEIXANDRE


QUERO SABER

Diz-me depressa o segredo da tua vida;
quero saber porque a pedra não é pluma,
nem o coração uma frágil árvore,
nem porque essa criança que morre entre duas veias-rios
não parte para o mar como todos os barcos.

Quero saber se o coração é uma chuva ou orla,
o que fica de lado quando dois se sorriem,
ou se é apenas a fronteira entre duas jovens mãos
que cingem uma pele ardente e imutável.

Flor, risco ou dúvida, ou sede ou sol ou látego.
O mundo inteiro e único, a ribeira e a pálpebra,
esse dourado pássaro que dorme entre os lábios
quando a alba penetra no dia lentamente.

Quero saber se uma ponte é ferro ou é desejo,
esse esforço para unir duas carnes íntimas,
essa separação dos peitos atingidos
por uma flecha nova surgida dentre a folhagem.

Musgo ou lua são o mesmo, o que a ninguém surpreende,
essa lenta carícia que de noite os corpos
percorre como uma pluma ou lábios que agora chovem.
Quero saber se o rio se afasta de si mesmo
cingindo as formas em silêncio,
cataratas de corpos que se amam como espuma,
até desembocarem no mar como o prazer consentido.

Os gritos são chibatas, eriçados espinhos,
vivo desespero de ver os curtos braços
erguidos para o céu suplicando à lua,
doloridas cabeças que no alto dormem, vogam,
sem respirar sequer como lâminas turvas.

Quero saber se a noite vê em baixo
brancos corpos de tela estendidos na terra,
falsas rochas, papelões, fios, pele, água parada,
pássaros como lâminas cravadas no chão,
ou ruídos de ferro, floresta virgem do homem.

Quero saber, altura, mar vago ou infinito,
se o mar é essa oculta dúvida que me embriaga
quando o vento trespassa transparentes crespões,
sombra, pesos, marfins, longas tempestades,
o esquálido cativo além invisível debatendo-se,
ou matilha de doces armadilhas.


(de A Destruição ou o Amor, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

31.10.11


ALBERTO DE LACERDA


García Lorca e o poema como superfície plana

Lorca continua a ser obscurecido pelo prestígio do pitoresco que primeiro impôs a sua obra. Não há nenhum crime em ser pitoresco; o problema é que nenhum poeta atingiu a grandeza só através do pitoresco.
Há muito admirador inteligente de Lorca que o vê demasiado à luz do seu espanholismo, do seu charme andaluz, esquecendo outros aspectos. Esse espanholismo existe, esse charme andaluz é inegável. Mas a contrapor ao luxo das imagens, à exuberância de cor, ao sortilégio rítmico, eu queria salientar um Lorca que trabalhou a linguagem com mãos depuradas, quase ascéticas.
PRIMERA PAGINA 
Fuente clara.
Cielo claro.
¡Oh, como se agrandan
los pájaros!
Cielo claro.
Fuente clara.
¡Oh, como relumbran
las naranjas!
Fuente.
Cielo.
¡Oh, como el trigo
es tierno!
Cielo.
Fuente.
¡Oh, como el trigo
es verde!
Céu, fonte, pássaros, laranjas, trigo: o poema cresce à volta destes substantivos, quase que consiste exclusivamente dessas palavras. Só tem três adjectivos: claro, no masculino e feminino, tierno e verde.
E é um poema prodigioso, pela força de presença, e não – repare-se – pela evocação. Devido à tensão imagística, que é desconcertante (pois são palavras isoladas que se tornam imagens), o poema é-nos apresentado como uma superfície plana, chata – tela ou parede, e não espelho, muito menos mar, ou rio, superfícies moventes, rumorosas. Esta energia horizontal trata as palavras como blocos, atendendo mais à sua densidade do que à sua transparência. Não se trata de poesia plástica no sentido superficial e perigosamente impreciso em que a expressão tem sido usada. Não se trata de transposição pictórica. O poema acontece na própria tessitura rítmica, vai acontecendo palavra por palavra aos nossos olhos. Um acontecer não gradual: lêem-se poemas deste tipo plano como quem lê um quadro. Dizem, mas não contam. Nem há metamorfose.
CAZADOR
¡Alto pinar!
Cuatro palomas por el aire van.
Cuatro palomas
vuelan y tornan.
Llevan heridas
sus cuatro sombras.
¡Bajo pinar!
Cuatro palomas en la tierra están.
O poema torna presente, de forma instantânea, algo que só pode existir em situação poemática e desdobrada: biombo não-narrativo. As quatro pombas, o ar, a terra, são objectos que só têm vida própria no poema, enquanto o lemos. São unidades concretas dum edifício que acaba por ser abstracto. Tal poema não é edifício simbólico. O poeta fundiu-se de tal forma com as palavras que as fez explodir de dentro. Eu ia a dizer: passam a ser outra coisa. Mas não é bem isso. O processo é mais subtil, mais panicamente sensual: passam a ser o acto de ler o poema. Mais do que em qualquer outro poeta, cada poema de Lorca é um ritual. Ritual tem milenariamente a ver com teatro, teatro sagrado, mas é um disparate dizer que Lorca foi sobretudo dramático ou sobretudo lírico. Foi as duas coisas.
Dirão que é perversa a minha escolha de poemas. Mas vejamos como este processo verbal também funciona em passagens do livro mais célebre de Lorca, o mais carregado de espanholismos: Romancero Gitano. Repare-se nas superfícies planas sobrepostas:
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
O aparente non-sequitur visual não tem raiz nem intenção onírica. Estes versos são alheios a qualquer noção, voluntária ou involuntária, de profundidade ou de subterrâneo psicológico. Mas o resultado é mágico. Magia das superfícies sagradas, sobretudo a pele e a terra (com as suas águas), que as sabia sagradas, como pagão que era, Federico García Lorca, um dos poetas mais soberanamente pagãos de todos os tempos.
A sua intuição de tradições antiquíssimas, menos perdidas (felizmente) do que se crê, o aspecto inédito que ele dá à possessa vivência dessas tradições têm um paralelo na pintura espanhola: Miro. Joan Miró, eivado da alegria grave dos iluminados, é o homem do insólito fabuloso, da lava enigmática de vulcões pré-cristãos. Lava sem as hesitações mórbidas do século, lava exaltada e exultante, de quem habita naturalmente o mistério e o maravilhoso, sem perguntar nem responder (acusa, às vezes, e Lorca também: outra história, outro capítulo). Lorca e Miró são surrealistas no arcaico; «no Antiguo», diria Almada, carregando muito as últimas vogais. Mas Miro não pinta símbolos. Entre Miró e a pintura não há intermediários. Entre o divino Lorca e a poesia não há nenhum intermediário. Nenhum mal-entendido.

Boston, Julho de 1973.


(in Colóquio Letras, número 16 - Novembro de 1973)

12.9.11


MARCOS TRAMÓN


CARICATURA DO ATORMENTADOR DE SI MESMO
A Marcos Tramón
Que se passa comigo?
Estou doente, doente de mim mesmo.
Não sei antes, mas
desde que o mundo é mundo comigo
os dias são escuros, de tempestade
ou fustiga o sol sinistro.
Os outros dias,
os dias intermédios,
nem os sinto, são neutros, são esquecimento.
Pelas noites encho-me
da melancolia do nada,
a transbordar, como um cinema barato,
onde passam filmes sem ritmo,
sem acção, lentos e de pouco
talento, sem a graça
sequer do horrível.
A minha vida é um fracasso.
Senti a companhia
por vezes do verso e de uma qualquer
rapariga de quarenta
anos com propensão para os rapazes
propensos ao afecto de uma mãe.
Agora as senhoras
foram-se, é natural pois, dizia,
gostam dos jovens indefesos
e falhos de afecto, mas evitam
os rostos lacerados.
E com elas, pelas mesmas razões,
fugiu a poesia
com a sua música para outra parte.
Eu continuo condenado pela vida
e só, ou pior, pois não estou só,
estou comigo.



(in Poesia Espanhola, Anos 90, de Joaquim Manuel Magalhães, Relógio d'Água, 2000)

17.8.11

MARÍA VICTORIA ATENCIA


AGOSTO


Hei-de integrar-me nestas horas cálidas,
neste persuasivo agosto, no passar de seus dias
enquanto decorre o ano e eu decorro,
de almanaque na mão e na minha pele sempre
- e eu, rebelde -, a consumir-me em vão
antes de descobrir que o verão me agosta
e que hei-de deixar esta umbria que começo a sentir erma.


(tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de Las contemplaciones, 1997)

19.7.11

BEN CLARK


Cuando desalojaron a Edmund Trebus
vivía en un rincón de su cocina
recluido.
Limpiaron el jardín
y llenaron camiones y camiones
con todos los objetos de la casa.
Unos dias después Heringey Council
recibió con sorpresa la demanda
de Trebus reclamando
una indemnización
por haberle robado todas sus posesiones.


(de Basura, editorial Delirio, 2011)


Quando o desalojaram Edmund Trebus
vivia num canto da sua cozinha
recolhido.
Limparam o jardim
e encheram camiões atrás de camiões
com todos os objectos da casa.
Uns dias depois o Haringey Council
recebeu com surpresa a demanda
de Trebus a reclamar
uma indemnização
por lhe ter roubado todos os seus bens.


[nota do Autor: Edmund Zygfryd Trebus (1918 perto de Danzig, Prússia – 2002 Londres). Padecia do Síndrome de Diógenes e tornou-se famoso através de um documentário da BBC sobre a sua vida, intitulado A life of Grime (uma vida de sujidade)]


(tradução minha)


18.7.11

[a Guerra Civil de Espanha começou há 75 anos]


PABLO PICASSO



Guernica, 1937
349×776 cm
Museo Reina Sofia, Madrid



ANTONIO MACHADO


SONETO


Odiosa mão traçou, oh minha Espanha
— vasta lira, ante o mar, entre dois mares—,
zonas de guerra, cristas militares,
em planícies, outeiros e montanha.

Manes do ódio e da cobardia
cortam a lenha de teus azinhais,
pisam bagos de ouro em teus lagares,
moem o trigo que o teu solo cria.

Outra vez — outra vez! — oh triste Espanha,
quanto se afoga em vento, em mar se banha,
joguete de traição, quanto se encerra

nos templos de Deus mancha o olvido,
quanto acrisola o íntimo da terra
oferece-se à ambição, — tudo vendido!


LEÓN FELIPE


HÁ DUAS ESPANHAS


Há duas Espanhas: a do soldado e a do poeta. A da espada fratricida e a da canção vagabunda. Há duas Espanhas e uma só canção. E esta é a canção do poeta vagabundo:

Soldado, tua é a fazenda,
a casa,
o cavalo
e a pistola.
Minha é a voz antiga da terra.
Tu ficas com tudo e deixas-me nu e errante pelo mundo...
Mas eu deixo-te mudo... mudo!
E como vais tu colher o trigo
e alimentar o fogo
se eu levar a canção?


PEDRO SALINAS


QUE PÁSSAROS?


O pássaro? Os pássaros?
Há um único pássaro no mundo
que voa com mil asas e que canta
com incontáveis trinos, sempre só?
São a terra e o céu espelhos? É o ar
espelho do ar, e o grande pássaro
único multiplica
a sua solidão em aparências mil?
(E por isso
lhe chamamos os pássaros?)

Ou não haverá um pássaro?
E são eles,
fatal plural imenso, como o mar,
bando inúmero, uma enorme onda de asas,
onde a vista procura e a alma quer
distinguir a verdade do pássaro único,
da sua essência sem fim, do uno belo?


VICENTE ALEIXANDRE


DESTINO DA CARNE


São, não é isso. Não olho
um céu do outro lado do horizonte.
Não contemplo uns olhos tranquilos, poderosos,
que acalmam as águas ferozes que aqui bramam.
Não olho essa cascata de luzes que descem
de uma boca até um peito e umas mãos suaves,
finitas, que este mundo encerram, entesouram.

Por toda a parte vejo corpos nus, submissos
ao cansaço do mundo. Carne fugaz que porventura
nasceu para ser chispa de luz, para abrasar-se
de amor e ser o nada sem memória, a formosa
redondez da luz.
E que está aqui, está aqui, flacidamente eterna,
sucessiva, constante, sempre, sempre cansada.

É inútil que um vento distante, com forma vegetal, ou uma língua,
lamba devagar e lentamente o seu volume, o aguce,
o lime, o acaricie, o exalte.
Corpos humanos, rochas cansadas, pardos vultos
que à beira-mar consciência sempre
tendes de que a vida não acaba, não, e se transmite.
Corpos que amanhã repetidos, infinitos, rolais
como uma espuma lenta, desiludida, sempre.
Sempre carne do homem, sem luz! Sempre rolados
desde além, de um oceano sem origem que envia
ondas, ondas, espumas, corpos cansados, orlas
de um mar que não se acaba, sempre ofegante em suas margens.

Todos, multiplicados, repetidos, sucessivos, amontoais a carne,
a vida, sem esperança, monotonamente iguais sob os céus foscos que impassíveis se herdam.
Sobre esse mar de corpos que aqui brotam sem trégua, desabrocham
nitidamente e, mortais, ficam nas praias,
não se vê, não esse rápido batel, ágil veleiro
que com quilha de aço, rasgue, torça,
abra sangue de luz e impetuoso fuja
rumo ao fundo horizonte, rumo à origem
última da vida, ao extremo do oceano eterno
que, humanos, espalha
seus corpos cinzentos. Para a luz, para essa escada ascendente de brilhos
que de um peito benigno para uma boca sobe,
para uns olhos enormes, totais, que contemplam,
para umas mãos silenciosas, finitas, que prendem,
onde cansados sempre, vitais, ainda nascemos.


FEDERICO GARCÍA LORCA


MORTE DE ANTONITO EL CAMBÓRIO


Vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
Vozes antigas que cercam
voz de cravo varonil.
Cravou sobre as suas botas
dentadas de javali.
Nessa luta dava saltos
esfregados de delfim.
Banhou com sangue inimigo
sua gravata carmim,
mas eram quatro punhais
e teve que sucumbir.
Quando as estrelas espetam
rojões na água de cinza,
e quando os novilhos sonham
com verónicas floridas.
vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
*
António Torres Herédia,
Cambório de dura crina,
moreno de verde lua,
voz de cravo varonil:
Quem te roubou tua vida
perto do Guadalquivir?
Meus quatro primos Herédias
filhos de Benamejí.
O que em outros não invejavam
já o invejavam em mim.
Sapatos cor de corinto,
e medalhões de marfim,
e esta pele amassada
com azeitona e jasmim.
Ai Antonito el Cambório,
digno duma Imperatriz!
Lembra-te agora da Virgem,
que estás prestes a partir.
Ai Federico Garcia,
procura a Guarda Civil!
Já meu tronco se quebrou
como uma cana de milho.
*
Três golpes de sangue teve
e agonizou de perfil.
Viva moeda que nunca
se haverá de repetir.
Um anjo pálido põe-lhe
a cabeça num coxim.
Outros de rubor cansado
acenderam um candil.
E quando seus quatro primos
chegam a Benamejí,
vozes de morte cessaram
perto do Guadalquivir.


DÁMASO ALONSO


DURA LUZ DE MORTE


A morte não tem passadas
cautelosas, nem gadanha.
A morte é a luz. Que funda
a luz do verão, amada!

Como se adensa nos hortos
que com a sesta se inflamam!
Como o conhecem as rosas!
Botão que desponta, canta-o.

Que profundeza de luz!
Massa de chumbo inflamada,
sobre o sonho da existência,
como pesa, como ameaça!

Quanta sombra num verão,
na luz de um verão! Oh quanta
morte nessa sombra fúlgida,
inexorável, diáfana!

Tal como um cão acossado,
meu coração bate em ânsia
— ardente ferver de terra —
sobre terra, sob a brasa

do céu. Do céu absorto
— rosa de cristal estática —
que vai estalar em estrias
de luz. Pára, luz, aguarda!

Dura terra, terra mãe,
protege-me com teus ramos,
encanta-me com tuas flores,
dilui-me nas tuas águas!

Pois dá inda sombra o álamo
e ainda há flores na sarça,
e a água brota e dois olhos
mudos — ai, amor — me falam.

...Contudo, arestas da tarde
já estalam em cal árdua,
fogos brônzeos, clarins híspidos
e lanças incendiadas.

No fundo da minha angústia
soam trombetas de caça!:
hirtas almas, nos outeiros,
fogem, fogem para nada...

Piedade! Afasta, terra,
minha destruição, olha, cantam
ainda as aves junto ao álveo,
trémulo o vento nas canas!

Nas ramarias dos álamos
— ora tremem, ora param —
há entre jogos de brisa
um frenesi de esperança.

E, amor, em teus tristes olhos,
que terna luz tamisada,
ai como me chama a vida,
que imperiosa me chama,

enquanto desfia a acéquia
— canavial, harpa e flauta —
seu doce engano de música,
piedoso engano! Graças,

álveo, amor, árvores! Jovem,
a minha vida, embalai-a
como a uma folha pequena,
como uma fibra de nada.

Que durma bem! Que não veja
como, soturna, prepara
esses ocres funerais
a fosca luz acerada


RAFAEL ALBERTI


BALADA DO QUE NUNCA FOI A GRANADA


Que longe por mares, campos e montanhas!
Já outros sóis olham minha cabeça branca.
Nunca fui a Granada.

Minha cabeça branca, tantos anos perdidos.
Quero achar os velhos, apagados caminhos,
Nunca vi Granada.

Dai à minha mão um ramo de luz esverdeado.
Uma rédea curta e um galope largo.
Nunca entrei em Granada.

Que gente inimiga povoa seus adarves?
Quem os claros ecos livres de seus ares?
Nunca fui a Granada.

Quem seus jardins hoje aprisiona e põe
cadeias à fala que sai de suas fontes?
Nunca vi Granada.

Vinde vós, que nunca fosteis a Granada.
Há sangue caído, sangue que me chama.
Nunca entrei em Granada.

Há sangue caído do melhor irmão.
Sangue pelos mirtos e água dos pátios.
Nunca fui a Granada.

Do melhor amigo, nas murtas distantes.
Sangue pelo Darro, pelo Genil sangue.
Nunca vi Granada.

Se altas são as torres, alta é a coragem.
Vinde por montanhas, por campos e mares.
Entrarei em Granada.


MANUEL ALTOLAGUIRRE


ELEGIA A FEDERICO GARCÍA LORCA


Esqueço-me de viver se te recordo,
reconheço-me como pó da terra
e incorporo-te em mim, tal como faz
a parte mais próxima de tua campa,
essa terra insensível que suplanta
o amoroso afã de teus amigos.

Acabada tua vida, permanece
com seu total contorno desenhado:
não há porta que ao futuro te conduza.

A árvore de teu nome floresceu
numa incalculável primavera.

A morte é perfeição, acabamento.
Somente os mortos podem ser nomeados.
Nós que vivemos, não possuímos nome.

Os fundeiros míticos da fama
atiram os cantos do teu nome ao mundo
e o lago da vida abre seus olhos
com pálpebras de vidro intermináveis:
Não há montanha ou céu, não há planície,
que em círculos concêntricos não aumente
o eco de teu nome iluminado.

Não é dor fraternal, ou pena humana,
é parte, meu pesar, do sentimento
que faz das estrelas pensativas
flores sobre a noite que te cobre.
Escrevo-te estas palavras separado
do quotidiano sonhar da minha vida,
escrevo de um astro distante onde sofro
tua perda irreparável soluçando.


(in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

18.1.11

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


y hoy
te consume
el tédio

Como una nube turbia corrompiéndose
en lentas gotas de barro o de melancolia
como una lluvia antigua
que empapa hasta a los muertos más mezquinos
así el tédio resbala por los muros
forma charcos groseros en las calles
penetra en las iglesias y en los cines
y se filtra en las casas con su olor a desastre.
Un aire de fastidio y de humedad entonces
se apodera de gestos y palabras
se cuelga de los trajes
preside los encuentros de família
viaja en los sucios autobuses
y envuelve la tristísima cíudad desconfiada.
Ah testigo implacable de las horas vacías
aburrimiento enorme que no ocultan
ni la música ambígua de las salas de fiesta
ni el clamor dei estádio
ni el tintineo y charla de las mesas de bar.
Y en médio de una edad de hastío y podredumbre
de espera y rabia oculta
tan solo algunos ninos se divierten
jugando a destruirse por buhardillas de sueno
mientras que afuera sigue
esa lluvia cayendo desconsoladamente
sobre la piel de un mundo en bancarrota.


(de Taller de Arquitectura, 1977)


e hoje
consome-te

o tédio


Como uma nuvem turva a corromper-se
em lentas gotas de barro ou de melancolia
como uma chuva antiga
que ensopa até os mortos mais mesquinhos
assim o tédio escorre pelos muros
forma charcos grosseiros nas ruas
penetra nas igrejas e nos cinemas
e se infiltra nas casas com seu odor a desastre.
Um sopro de náusea e de humidade então
apodera-se de gestos e palavras
suspende-se das roupas
preside aos encontros de família
viaja nos autocarros sujos
e envolve a tristíssima cidade desconfiada.
Ah testemunho implacável das horas vazias
enfado enorme que não é ocultado
nem pela música ambígua dos salões de festas
nem pelo clamor do estádio
nem pelo tilintar e conversa das mesas dos bares.
E a meio de uma idade de fastio e podridão
de espera e raiva oculta
apenas algumas crianças se divertem
brincando a destruir-se em recantos de sonho
enquanto lá fora continua
aquela chuva que cai desconsoladamente
sobre a pele de um mundo em bancarrota.


(tradução minha)

13.11.10

CARLOS EDMUNDO DE ORY


EXAME DE POESIA


Quando só na escuridão da noite urino
penso quieta a dúvida numa vida antiga
Porquê de noite tenho tanto medo na alma?
O céu fita-nos a andar e estamos na vida.

Vem loucura às minhas pupilas vem loucura
Febre de exílio nas margens de meus olhos
Põe o manto escarlate na minha alma
despedaça o meu tímpano o meu tórax
corta-me a jugular.

Espero-te com os punhos com os dentes
com os olhos cerrados:
loucura peristilo divino
ângulo facial de actor de morte
anfisbena demónio sem sentido
É teu sentido uma delícia extrema.

Nesta noite de ouro neste inverno
Nesta noite dura e fria ponho
minhas mãos de diamante e minhas pernas
sobre a almofada e sobre a colcha
chamo chamo
Não ao sonho nem à eterna escuridão
mas à porta em que morre minha mãe

Quero dobrar a espinha
tristíssima e divina.


(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

27.10.10

[outros melros LIX]

ROGER WOLFE



A ULTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


(tradução de Luís Filipe Parrado, in Criatura N.º 5 – Outubro 2010)

2.10.10

SANDOR CSOÓRI


CARTA AO POETA AMERICANO GREGORY CORSO


Percorreria todo o mundo contigo,
Corso,
descarrilador do tempo,
valentão do século vinte.
A tua camisola de riscas lembra uma farda de prisioneiro,
de presidiário que desertou da poesia,
apóstolo do adultério.

Vamos, anda, calça de um tiro o teu sapato de desporto
rumo à Lua,
ao deserto do Sahara
e à capital da nossa alegria: Spoleto!

Na praça da Catedral é noite.
Cubos de mármore nadam no copo da escuridão,
como os cubos de gelo
num whisky um pouco amargo.

Esvaziemos a cidade de um trago.

Menotti não compõe hoje música,
convida para um serão,
no seu jardim, rameiras milionárias
esperam os sátiros
com forcados de poesia -
Corso,
a tua mão é um forcado,
a tua boca é um lança-chamas,
Sabes! És mais capaz de praguejar
Do que o papa capaz de rezar,
vem, armemos um escândalo esta noite.

*

Pode ser bom roubar um carro
já que não se pode roubar a imortalidade,

e tocar os sinos com latas de conserva
já que não se pode fazê-lo com a perna do Cristo.

*

Joguemos - Tu gostas de jogar:
Furemos os olhos um ao outro,
talvez assim sejamos mais amáveis
do que os que sorriem.
Estilhacemos as tuas bombas para estrelar ovos
e a Europa pode entusiasmar-se com uma nova arte culinária.

*

Imbecil! Imbecil! - gritemos ao
Senador-Urso Polar,
aos chefes do governo que passam o fim-de-semana
num cano de canhão.
oh, fins-de-semana!
oh, domingos!
oh, Casas Brancas! Parlamentos!
das vossas conchas de caracol por toda a parte
deslizam tanques
e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas.
Imbecis! Imbecis - gritemos aos poetas
que caíram de costas,
eles não merecem o pão,
não merecem as mulheres,
não merecem a morte.

*

Já balbuciamos tantas vezes
majestosamente
que a nossa boca está inchada.
Corso, afundemos as nossas línguas
como um porta-aviões.
Sejam outros a fazer estrondear
as harpas celestes que voam,
e sejam os marcianos a tocar os tambores de Saturno.

Tudo pode acontecer-nos,
se ficarmos aqui;
tudo o que já nos aconteceu.
Vamos,
sejamos nós a marcha
que vagabundeia por toda parte,
muda de pátria para amar a do outro,
assina o mar, como um postal,
e descansa nas cidades,
para que também as cidades descansem
e não pede perdão
se for processado por aquela marcha
que chegou a amar no sétimo dia.


(de Com cisnes sob o fogo do canhão, versões de Egito Gonçalves, sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter, Limiar, 1997 - os olhos e a memória)

19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)

14.6.10

CARLOS EDMUNDO DE ORY


— A terra é das carícias —


A terra é das carícias
do herói e do medroso
dos vivos os nascidos
com lágrimas ou com dinheiro
Tantos mortos levam consigo
para a morte um dente de ouro
As dores repugnantes
Os sopros de inspiração
O cretino e o kantiano
Os que deixam sobre a mesa
o génio e suas medalhas
e num recanto do quarto
a amante despenteada
Acordamos com dois olhos
sem nunca ver a mandrágora
nem o trono dos relâmpagos
Pisamo-nos os calcanhares
para ir à missa à fábrica
Sentimos a solidão
no cinema e na retrete
E tantos milhões de camas
para um sonho só um pão
Dormir depois de comer
Comer depois de dormir
A tristeza da alcachofra
o plátano desnudando-se
Preciosas são as pedras
e as pedras preciosas
A visão de um cimo branco
ou de uma mulher despida
E o sol e o cemitério


(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)