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23.6.11

FERNANDO CORREIA PINA


O BIBLIOTECÁRIO SEGUNDO S. LUCAS


Estou tão bem quanto o pode estar
o que respira e ás vezes pensa
na morte inevitável, tarde ou cedo.
Habito entre o êxtase e o medo,
entre o tempo a correr pelo meu curso
e o meu curso desfeito pelo tempo.
Estas estantes são as oliveiras do meu monte...
estes livros são os apóstolos e a multidão...
acodem-me à memória muitas vezes...
Muitas vezes sou todos os homens
sós à beira de um cálice infinito.


(in Poetas e Escritores da Serra de S. Mamede, organização de Ruy Ventura, Amores Perfeitos, 2002 / originalmente da revista A Cidade, nova série, n° 3, 1989)

6.3.07

FERNANDO CORREIA PINA

Saldo Negativo


Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu
        que amputar uma perna, a frio, a um africano.

Passa mais fome um francês com três refeições por dia
        que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
        que um indiano com lepra.

Sofre muito mais uma americana com caspa
        que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito a um belga
        que roubar o pão da boca a um tailandês.

É muito mais grave deitar um papel para o chão na Suíça
        que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É mais obscena a falta de papel higiénico num lar sueco
        que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
        que a de insulina nas Honduras.

É mais revoltante um português sem telemóvel
        que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num colonato hebreu
        que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie a uma menina inglesa
        que a visão do assassínio dos país a um menino ugandês

        e isto não são versos; isto são débitos
                numa conta sem provisão do ocidente.

(de Cantos da Língua, livro/disco editado pela ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela, 2006)