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11.2.10

FERNANDO GRADE

BECO DE CÂNDIDOS SARILHOS



Cidade de becos, pedra preta, lontras.
O que as pessoas cospem ou pensam
ou dizem é sempre pouco.
Ver julgar diverte-me.
Mas são apenas fardos de palha, palavras
à procura de uma bala.
E um dia as balas serão belas.
O pai traz o guarda-chuva, a boina e as bandeiras.
A prima traz o medo e a fruta táctil.
A má escondeu as bonecas no meio do restolho.
Mãe beijada.
Mãe vassoura.
Oh mãe de perfumados frutos castos.
Há-de ser fogosa a obra ida sogra.

Não acredito senão em carroças sonolentas
e a água que criei era de moscas.
Cuspi no dia manso por atalhos de água.
Ao fundo — no feno —, os vícios continuam:
o pai traz o porco cálido e as canastras;
a mãe tem um avental rigoroso como as serpentes e os beijos.
Não acredito que numa noite de muito vento
os remorsos não desçam das árvores
e peguem fogo ao teu caminho.

Não era de veludo o lobo que criaste,

17-3-1984


(de Alma Burra, edições Mic, 1987

25.11.07

FERNANDO GRADE

COZINHA EM PÓ



Este domingo breve vai trazer
zângãos ou (apenas) bagos de uva.
A água sobe do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.
E o rosto que lanças aos javalis?

Os teus dentes rápidos de madressilva
são a minha única metáfora:
salsa misteriosa como festivas carroças
zunindo fuziladas de morangos.

A arte bucólica do azinho ao absinto
não passa de um compêndio
para melhor esfaquear os duendes!

Todos tivemos o nosso
almoço
de pedras, pequeno
fascínio de aves degoladas em casto puré
de castanha, o som do banquete ainda é pólen
em salas que - das ruínas - guardaram o calor bom
dos bolos.

De noite, à luz de velas azuladas, os répteis zelam
com os seus moncos manhosos.
E a paz dos rosais esteja convosco.

Nisto, pardo e rubro, o rio
esfacela as próprias piranhas
enquanto a água do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.

Quando será que as montanhas
virão beber
à minha triste mão?

Estoril
- 17 e 19 de Outubro de 1985


(de Alma Burra, edições Mic, 1987)

1.4.07

[outros melros XLV]

FERNANDO GRADE

"OS MELROS AZUIS SÓ CHEGAM AMANHÃ"


(...) Ferreira (chamo-lhe assim, por uma questão de pudor), era um contumaz vendedor de pássaros, mormente melros - sua especialidade -, para os quais utilizava um reclamo sui generis:
"Olhem bem esta maravilha!!! São os melros mais bonitos do mundo!!! Ainda mais bonitos que os melros azuis que vendi ontem..."
A verdade é que o Ferreira estava convencido do que afirmava. Tinha os olhos atravessados por uma névoa... Desregulava..., a espaços. E os passantes faziam chacota.
- Oh senhor Ferreira - metia-se um rapazola na conversa satírica -, quais deles é que são mais azuis, as mélroas ou os melros?
À volta, a matula ria. Os melros são sempre pretos, a plumagem negra, como o pássaro dentirrostro de que fala o poeta Abílio Guerra Junqueiro. Eternamente pretos, de carvão, e com o bico amarelo vivaz, aqueles melros azuis do Ferreira eram bons acicates para a hilaridade das pessoas, e davam a medida de alguma loucura mansa que circulava no sangue do vendilhão de pássaros...
Muitos anos a fio, não soube patavina do bom Ferreira. Teria morrido? Uma destas tardes - que espanto! -, defronte da igreja da Memória... ecce homo! Era ele em carne e osso, terrivelmente mais velho, as três gaiolas do costume, e mais escalavradas, e, dentro, melros melros, negríssimos de dorso, o bico da cor dos limões... Olho para a paisagem ao redor, e tremo. Sim, foi ali mesmo que os Távoras, ou alguém por eles, ou outros que a História camuflou, desferiam arcabuzadas sobre o rei José, e não o liquidaram. O rei galaró vinha da cama da amante, e...
Entretanto, o Ferreira grita:
Venham ver, venham ver, estes são os melros mais bonitos do mundo!!!...
O nosso herói encontra-se naquele sítio histórico; sem o saber, está fora do tempo, desconhece, porventura, que a igreja foi mandada erigir pelo Marquês, em acção de graças pelo facto de o rei dos Braganças não ter sido fuzilado na emboscada. Observo melhor: ao pé das três gaiolas com melros, o Ferreira colocou uma cadela cheia de carraças, bicho gordo, fedorento. O pêlo esparramado de cebo e porcarias diversas. Junto dos melros canoros, a cadela tetuda e nauseabunda constitui um quadro confrangedor: trata-se de o óptimo e o reles baixo. (...)
Reparo no incomum, os seus olhos de louco a haver, recordo-me que os ossos do Marquês de Pombal se encontram enterrados naquela igreja, e arremesso aos céus manchados de muitos pântanos...
- Oh meu bom Ferreira, então não tem melros azuis para vender! pergunto-lhe, como se o tivesse visto pela última vez há quinze dias.
O homem responde, responde sempre, os olhos lívidos de pedra:
- Os melros azuis só chegam amanhã.

(excerto de crónica incluída em O Bairro Cercado, Universitária editora, 1998)