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15.4.14



[EDUARDO GAGEIRO, 25-4-74, Terreiro do Paço]

Não há mais mãos que valham o silêncio
Do que as visíveis na fotografia
Do momento em que um Homem trinca o lábio
Inferior. Fica a fracção desses sonhos

Somando aleatoriamente letras
E números do acaso da História
(eme, é, dezanove, dezanove)
Contada aos olhos atentos, contada

De memória em fragmentos junto ao
Mesmo Tejo da infância de nós
Todos. Uma matrícula de carro

De combate, a voz de gente calada
A caminho de outro dia, de outra
Vida trazida para a fraternidade.

5.1.14

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE NUNO FERRARI

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua Vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha de frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias ou do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.


(de Mesa dos Extravagantes, O Mirante, 1996)

7.7.10

AUGUSTO CABRITA


(in O Sol e o Menino dos Pés Frios, de Matilde Rosa Araújo, 4ª edição: edições Ática, 1980)

2.7.10

PAULO NOZOLINO

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COMUNICADO
/ DEVOLUÇÃO DO PRÉMIO AICA/MC

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010


Retirado daqui. Não receiem seguir o link, é um site completamente seguro, apesar do disparatado aviso do blogger.

1.4.06

AUTOR DESCONHECIDO


L'homme au verre de vin, ca. 1640
óleo sobre tela
44 cm x 63 cm
Paris, Museu do Louvre


VASCO GRAÇA MOURA

l'homme au verre de vin

numa sala do louvre dedicada à
pintura espanhola há um quadro
atribuído à escola portuguesa
de quatrocentos. é o

homem do copo de vinho, ou, dir-se-ia
do copo de solidão; e é possível
que seja flamengo e triste. mas tomemos
a origem indicada como boa

para esse homem que vai entrar na noite,
gravemente na noite, como numa
parda natureza. eu nunca pude
um slide dessa imagem,

um bilhete postal, ou quaisquer dados
para situar aquela estranha placidez
de quem vai encontrar no vinho umas verdades, de
alguém que vou visitar de vez em quando,

para beber um copo em companhia.
é possível que fosse na flandres
algum feitor discreto e rico ou que em lisboa fosse
o português cultivado melancólico,

segurando uma alcachofra minuciosa
que o pintor depois terá mudado
para tornar mais intenso o sentimento
ou mais real a sua digna sede.

(de a sombra das figuras, 1985)


GÉRARD CASTELLO-LOPES


(in Em demanda de Moura, Quetzal editores, 2000)

8.2.04

No fim de semana passado estive no Porto. Fui à antiga Cadeia da Relação, que agora é a sede do Centro Português de Fotografia. Foi a primeira vez que lá fui e foi uma desilusão. Um espaço tão magnífico para um conteúdo tão mal aproveitado. Valeu sobretudo pela cela onde esteve preso Camilo: uma vista de luxo sobre a cidade.

Fui também a Serralves: exposições interessantes, mas nada de realmente relevante, a não ser o facto curioso de junto à cadeira de todos (mas de todos mesmo!) os vigilantes estar um livro da respectiva leitura pessoal. Em Lisboa não vejo nada disso.
(será que o Alexandre poderá pontuar esta leitura pública?)

4.2.04

Jorge Listopad, no seu blogue em papel de jornal, Sol & Sombra, fala de duas das exposições que referi a semana passada:

23 de Janeiro - A fotografia de Gérard.
Gérard Castello-Lopes, amigo de muita gente porque gosta, é (excelente) fotógrafo, pela mesma razão. Quando não gosta, não fotografa. Homem feliz. Actualmente, expõe sob o título "Oui Non" no CCB: 150 ou mais fotografias desde 1956, pretos nos brancos.
Observemos o que observa o fotógrafo e como o faz. Dos plongés sedutores do início, de vidas distantes, até chegar mais perto, aos bancos públicos, horizontais sem horizonte: eis a agitação aparentemente tranquila do mundo. De ligeiros toques neo-realistas até à arquitectura da solidão. Tudo real - tudo ficção. Tudo ficção - tudo real.
Em síntese: do primeiro processo de assimilação ocasional em evolução até ao processo selectivo e exclusivo. Uma vida de pudor: o seu documento; o alibi fotogénico.

28 de Janeiro - Noronha da Costa
Não haverá muitos dias para ver (rever) a exposição de Noronha da Costa no Centro Cultural de Belém. Mas imaginemos, essa pintura tão anti-euclidiana, sem sustentação de ângulos, se fosse apresentada em espaços deformados, ambíguos, as superformas soberanas, embora tudo mal definido, em vez dessas paredes regulares iluminadas regular e correctamente. Imaginemos a exposição de Noronha da Costa dramatizada, encenada: que grande teatro do heterocosmo. Que simulação de outro mundo sem vertical, sem horizontal.

(na última página do JL que saiu hoje)

28.1.04

Está no Centro Cultural de Belém, até 25 de Abril, a exposição Oui Non, a primeira retrospectiva da obra de Gérard Castello-Lopes, um fotógrafo.

23.1.04


(em jeito de agradecimento)



Gérard Castello Lopes - Carcavelos, 1956


O ruído com que nascem aves e ondas
celebra o que de inverno a praia tem;
move-se na ausência destes dias,
pequenos limites que levamos connosco:
aves e ondas que nascem só.

16.12.03





Não é uma metáfora, é só um calhau.
O mar que o rodeia é só mar,
a preto e branco.


[fotografia de Gérard Castello-Lopes]

13.7.03

Fazendo a ronda pelos blogs, dou com a sugestão da Esquina do Rio de visitar um novo fotógrafo. De facto Pedro Guimarães tem excelentes fotografias à distância dum clique.

2.7.03

HORA DE ALMOÇO NA CULTURGEST

Duas belas exposições.

Uma: A Arte dos Artistas . As colecções privadas dos artistas. Começa logo com um Duchamp pertencente a Julião Sarmento, que aliás poderia ser confundida com uma obra sua. Vamos por aí fora, num ambiente de variedade e diversidade fascinante. Jorge Martins tem um anagrama do seu nome feito por Maria Helena Vieira da Silva. Michael Biberstein uma colecção de 9 gravuras de Turner (excelentes para quem ainda tem a exposição da Gulbenkian fresca na memória). Paula Rego aparece nas colecções de Graça Morais e de Ruth Rosengarten.
Com peças de novos e consagrados, podemos redundar dizendo que os artistas têm bom gosto.
[Já agora: está lá uma obra pertencente a Pedro Portugal, cujo autor é de certeza um famoso anónimo bloguista que toda a gente anda a tentar descobrir quem é].

Outra: Viagens Fotográficas de Carlos Afonso Dias. Um fotógrafo que eu não conhecia. A mesma perspicácia e sensibilidade a fotografar pessoas na Nazaré e nos bairros antigos de Lisboa, nos anos 50, a Angola profundamente negra e as ruas de Hollywood, nos anos 60, ou as novas paisagens da nova Lisboa dos anos 90.

Estão as duas até Agosto: vou lá voltar.