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19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)

22.5.04

[outros melros XIX]

FRANCISCO BRINES

O PACTO QUE ME RESTA


E como devolver a minha vida à luz
da manhã, as lágrimas nocturnas,
o assombro do mar, os silêncios do melro,
o tempo de uma tarde inacabável?

E como devolver suas diferenças
à dor e à ventura,
e ser ambas amadas de igual modo,
pois ambas completam o sabor aceso da vida?

Quando a idade é já desventurada
e o dia é uma pétala,
e já mal restam rosas,
não é possível recuperar o mundo.

Acolhe-te a uns olhos, jovns só,
e com eles descobre o mundo que perdeste.
E que depois te olhem, para ser deste mundo.

(de El Otoño de las Rosas, 1986 - traduzido por José Bento, in Ensaio de Uma Despedida, Assírio & Alvim, 1987)

3.9.03

FRANCISCO BRINES

Nasceu em Oliva, Valência, em 1932.
Poeta e ensaísta, licenciado em Direito e com estudos em Letras e Filosofia, foi leitor de espanhol em Oxford durante dois anos.
Em Portugal forma publicados dois livros de poesia sua: Ensaio de uma Despedida, Antologia (1960-1986), em 1987 e A Última Costa, em 1997 - ambos pela Assírio & Alvim e com tradução de José Bento. Está também representado na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, do mesmo tradutor e da mesma editora.


Habrá que cerrar la boca
y el corazón olvidarlo.
Dejarlo sin luz, sin aire,
como un hombre encarcelado,
y habrá que callarlo todo
lo que nos pueda hacer daño.
Cuando se caigan los muros
tendrá su rostro afilado,
y una dureza de piedra
encadenándole el canto.
Si respira dolerá,
dolerá tocar sus manos
eternas y solitarias,
y nadie podrá abrazarlo.
Que habrá quedado seco
como un árbol por el rayo,
que será una cordillera
de espinos, de pinchos bravos,
y no habrá una sola fuente
que corra por su barranco.
Su corazón será un cráter
apagado, que sin llanto,
que sin llanto.


(de Las Brasas, 1960 - incluído em Poesia Completa (1960-1997), Tusquets editores, 2ª ed: 1999)


A boca será fechada
e o coração esquecido.
Deixado sem luz, sem ar,
como alguém encarcerado,
e será calado tudo
o que nos possa causar dano.
Quando caírem os muros
terá seu rosto afilado,
e uma dureza de pedra
encadeando-lhe o canto.
Se respirar vai doer
vai doer tocar-lhe as mãos
eternas e solitárias,
sem que alguém possa abraçá-lo.
Pois terá ficado seco
como árvore por raio,
pois será uma cordilheira
de espinhos, de picos bravos,
e nem sequer uma fonte
irá correr em barranco.
Seu coração será cratera
apagada, pois sem pranto,
pois sem pranto.

[tradução minha]