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23.7.11

[em face dos últimos acontecimentos]

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS


[Sob a chuva de Oslo]
Imagina que uma gota de água
te cai no rosto como um sinal de sede
- como farás para devolver
ao céu esse momento?


(de Todas as Coisas, 1988)

20.4.06

[500 anos depois - 3]

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

Uma fronteira ao acaso


Lembras-te de Netafim, caro amigo? Contámos a história
de Deus ao longo da estrada que cruzava o Sinai, rente ao
deserto, à poeira, à luz da noite, ao medo do fim do dia -
o nosso êxodo é de palavras sinceras, de rituais repetidos

sem medo ou vergonha. A história do rabino era fantástica,
atravessando numa bicicleta voadora o céu de Eilat e as margens
do mar Vermelho. A noite colheu-nos ao volante do carro,
como um resumo da história de Deus. É esta a nossa sinagoga:

o deserto, os declives das montanhas, as aldeias escondidas,
o vento que arrasta poeiras e esconde as fronteiras das cidades,
nela entramos por acaso, conforme a voz nos chama para

uma prece ou para uma refeição. Olhemos a fronteira de Netafim,
os nomes comovem-nos. Falar com Deus é estar ligado ao deserto,
preparar a morte, escolher os frutos, adormecer em Jerusalém.

(de O Puro e o Impuro, edições Quasi, 2003)

22.11.03

[outros melros XII]

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

As perguntas

Não tem rosto, o Deus dos perplexos. Nem voz.
Nem arrependimento. Nem a alegria dos alegres
ou o medo da escuridão. Não posso dizer-vos como
se encontram os seus caminhos, se o melro poisa

nas hortas junto do rio, ao adivinhar a tempestade.
Deus predador, o nosso, prudente, interdito,
que desagrada ao canto mais simples. As nossas
pegadas ficam no deserto, aguardam a passagem

como um fantasma que se desprende da chuva.
Esta luz é incerta, balança sobre as varandas, ameaça
os dias, converte ou desarma todas as palavras certas,

todos os olhos abertos. Não tem rosto, o Deus dos
perplexos, não caminha nos precipícios, não arde
como a urze fitando o céu, não o comove a morte.



(de O Puro e o Impuro, Quasi edições, 2003)

17.11.03

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

VERSOS ANTIGOS


se a noite se perder em ritmos de água, eu morrerei.
não há palavra mais doce que aquela que se despe
lentamente na baía, na nostalgia de si mesma.
outrora era a evidência do verso, rumor de aves,

lagos espirais caminhos por entre fontes e azuis
danças de deus nos longínquos areais, mas as
incertezas acumularam-se depois do sono, lembranças
da infância, da fronteira, dos açudes ruidosos.

eu morrerei se ouvir de novo essa voz, por isso
afastai-a célere dos oceanos, das portas entreabertas,
dos segredos. essa palavra é doce e mortífera: amai-a

longe de mim onde o silvo, o alarme das estações, é uma
espada, um gume à deriva no corpo. ficarei entre
sinais, escombros, longe das margens dos lagos, leve.

(de Todas as Coisas, editorial Caminho, 1988)

23.6.03

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
Nasceu em 1962, em Março no Alto Douro, Vila Nova de Foz Côa.
Percebe-se que gosta de fazer as coisas que faz: divulgar a escrita, a leitura e o bom gosto (nomeadamente em programas de televisão, na imprensa, na rádio e na internet); dirigir boas revistas (foi director da Ler uma data de anos e agora é da Grande Reportagem); escrever prosa (é provocatória a sua insistência nos policiais...) e poesia.

Ficam aqui dois poemas que não podem ajustar contas com o meu juízo nem com o do autor, mas aqui ficam...
[é que “Poesia é sempre outra coisa, fica sempre mais além. O verso ideal, por isso, não devia escrever-se.” - como diz o próprio FJV]

Quatro estações

como as luzes da cidade nossos olhos se acendem
meu amor. cai o teu braço sobre o meu braço.
vê como tudo amadurece de passagem como a flor
se muda em fruto como se chora pelo primeiro namorado

e como o dizê-lo nos custa. vê como o campo se muda
em montanha e o rio em água apenas e pedra
vê como é mudo o nascer das árvores o seu crescer
a monda do milho. vê como o calor sucede

ao fogo do inverno à neve que desce para o vale.
cai o teu braço sobre o meu braço. as uvas estão
no cesto entras na minha casa na minha
janela na minha cama vê como cai o teu braço

Sabedoria

gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

(de fascínio da monotonia, FAZER, publicações livres, 1982)


Segredo final
[Lev. 20, 10]

Há uma estranha contiguidade entre tudo,
a crueldade e o ruído das velas nos moinhos.
Corredores profundíssimos prolongam a imagem
da sombra, a nitidez da clausura, o lugar

das redes abandonadas. Há uma estranha
contiguidade entre a paixão e a sua culpa,
a sede da alegria e a adoração da morte.

(de As Imagens, Caminho, 1987)