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3.3.08

MARIA GABRIELA LLANSOL

Lição XIV


Calaram-se os objectos reflectindo no tempo e na nostalgia que havia de vir, mas uma figura fiel se debruçava sobre eles e derramava um espaço ingovernável penetrado de mar e de cantos de marinheiros anónimos. A casa desaparecia atrás dela e ela falava sem cessar com uma palavra para cada ser. – è um rapto – disse ao portão quando ele se fechou. – Mas sem violência – disse à primeira pedra – não poderia partir.

(de A Restante Vida – Geografia de Rebeldes II, 1982)

22.1.04

MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) O Chão das Três Árvores

Abel sentou-se no chão. Via Sara de perfil, debruçada sobre o alguidar em que a brancura dos pratos purificava a água suja.
- Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz.
- Como?
- Metes as mãos na água ela sobe no alguidar. Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar. Tem de ir para algum sítio a luz que já não está no lugar da cama e do armário.
- Mas não é assim.
- Não. Pensei isto de manhã, enquanto guiava a camioneta.
Sara sentou-se também no chão, em frente de Abel. Os seus pés não tinham meias, nem sapatos.
As palavras "Sara, tudo o que existe faz aumentar a luz", " Metes nesta casa uma cama, um armário e a luz também tem de aumentar", eram o vidro que desunia os corpos de Sara e Abel.

(in Os Pregos na Erva, 1962, 2ª ed: edições Rolim, 1987)

14.1.04

MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) Intróito

Joana gostava de escultura.
Um velho escultor, amigo do pai, chamado Sitiais, dava-lhe lições nas horas em que, por princípio, nunca criava.
- O artista - dizia ele - precisa de disciplina. Deve lembrar-se que é homem e não esquecer a realidade do seu próprio corpo. a criação sorve-nos como uma bomba esvazia um tanque. Se não podemos ter horas certas para ser artistas devemos, ao menos, ter horas certas para repelir a escravidão da Arte.
- Então a arte é semelhante ao amor - concluiu Joana uma tarde.
- Não ao amor de toda a gente, mas ao amor que és capaz de sentir.
- Já o sentiu assim alguma vez?
- Não, creio que é privilégio único de certas mulheres.

(in Os Pregos na Erva, 1962, 2ª ed: edições Rolim, 1987)

13.1.04

MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) Intróito

As palavras escritas numa vidraça embaciada pela chuva são sempre tristes. Não importa o seu verdadeiro significado.

(de Os Pregos na Erva, 1962, 2ª ed: edições Rolim, 1987)

11.1.04

MARIA GABRIELA LLANSOL

(excerto de) Os Pregos na Erva

- Queria ver-te passar - disse Raquel. - Mataram a galinha à pedrada por pertencer a uma judia. Sabes o que são estigmas?
- Sei, sei - respondeu Leonardo.
- Nós temos estigmas - continuou Raquel. - Qualquer dia as pedras acertam nos próprios judeus. Não compreendo porque matam. Os mortos são horríveis para ver.
Leonardo levantou a mão livre e apoiou-a nos lábios de Raquel. Sentiu o seu beijo vivo aquecer-lhe o corpo, como se sobre ele tivessem estendido a pele macia de um cordeiro.
A chuva recomeçou a cair, não desolada mas trespassada de sol. Era uma poalha de luz aquosa que esvoaçava nos seus rostos e neles se sumia. Apagava-se sem vestígios na pele transida que irmanava com o chão.
- Tenho de ir-me embora - disse Leonardo, varado pela angústia de não poder acompanhá-la a casa. - À noite ficarás junto de mim e de Gonçalo.
Olhou de novo a face de Raquel puída pelo medo, os olhos pretos recuados de susto.
- Faço a galinha para o jantar - disse ela.
Tapou-a com o vestido para que Leonardo não lhe visse a cabeça esmagada, de que pendiam estalactites de sangue coagulado.

(de Os Pregos na Erva, 1962; 2ª ed: edições Rolim, 1987)