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10.5.10

MANUEL MARÍA


O POEMA


UN poema é un ser vivo que anda,
respira, soña, chora, salouca,
ama, berra, cintila, escurece,
cala, aborrece a mentira,
sente ódio e tenrura, desángrase,
fala de intimidade a intimidade
coas cousas e coa xente, suxere
mundos posíbeis e imposíbeis,
sua, cansa, sofre sede e fame,
adoece, agoniza. E nunca morre.


(in Antoloxía Poética, Espiral Maior, 1993 - original de A luz ressuscitada, 1984)

Salouca = soluça

25.7.09

[um galego em dia de Santiago]

CELSO EMILIO FERREIRO

DEITADO FRENTE AO MAR...


Lingoa proletária do meu pobo
eu fáloa porque si, porque me gosta,
porque me peta e quero e dame a ganha
porque me sai de dentro, ala do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ao ver tanto patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sin raíces
que ao pôr a garabata xá non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
falar a fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
marinheiros, labregos do língoaxe,
remo i arado, proa e relha sempre.

Eu fáloa porque si, porque me gosta
e quero estar cos meus, coa xente minha,
perto dos homes bós que sofren longo
unha historia contada en outra lingoa.

Non falo pra os soberbios,
non falo pra os ruís e poderosos,
non falo pra os finchados,
non falo pra os estúpidos,
non falo pra os valeiros,
que falo pra os que agoantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotio;
pra os que súan e choran
un pranto cotidián de volvoretas,
de lume e vento sobre os olhos núos.
Eu non podo arredar as minhas verbas
de tódolos que sofren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra minha,
berce da minha estirpe,
Galícia, doce mágoa das Espanhas,
deitada rente ao mar, ise caminho...


Glossário:
Petar – bater com a aldraba (da porta), apetecer.
Patufo – néscio.
Mequetrefe – homem intrometido, de pouco proveito.
Devanceiro – antepassado.
Labrego – camponês.
Finchado – vaidoso.
Valeiro – vazio, oco.
Volvoreta – borboleta.


(in Autoescolha Poética (1954-1971), Razão Actual, 1972 - original de Longa Noite de Pedra, 1962)

30.7.07

EMANUEL JORGE BOTELHO

(«O Grito» de Munch, revisitação)


8

vem de longe a calamidade, a imaginária sombra
dos lábios próxima do grito. era assim já a subida do sangue
e nós de bibe e coiro traçado
aos ombros. não nos pesava ainda a luxúria dos caules
aposta opaca na ardósia das consoantes. a ponte secular entre uma sílaba que se ganha ao hálito dos canaviais
era uma madeira a resistir ao meio dia, o líquido engomado e branco que árvore, irmã?
dava tanta casa a essa fala verde
próxima de todas as margens. sentada na mesa
a mão sempre baixa, vogal do funcho

(de Cesuras, Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982)


EDVARD MUNCH


O Grito, 1893
têmpera sobre cartão
83.5 cm x 66 cm
Oslo, Munch-museet




EUSEBIO LORENZO BALEIRÓN

E. MUNCH: «O grito»


O tempo é um estadio
entre o tempo e a morte.

A luz un punto esvaído
en dirección ao vento.

O silencio ten ollos
e míranos do fondo do bosque.

Eu xogo con peixes de trapo,
salouco un anaco no escuro
e berro cara ao río con todas as miñas forzas.

(de Os Dias Olvidados, 1985)

24.7.03

POESIA E BLOGS (II)

[porque é que eu não me espantei de ver um poema belíssimo, de um ilustríssimo poeta, dedicado a um dos Gatos Fedorentos??]

XOSÉ MARÍA ÁLVAREZ CÁCCAMO

E AGORA JOSÉ?

Para Ricardo Araújo Pereira

“...você que faz versos,
que ama, protesta,
e agora, José?”

Carlos Drummond de Andrade


Repousar agora
os olhos no botão
de luz do sol-pôr

E fica a ver cair
a tarde do sul
na profundeza do mar.

Dar atenção
ao sábio amor
da gente simples.

E saber estimular
essa ira do peito
contra a condição

do inocente terror
com que a lei possibilita o poder.

1998

(in Poesia em Lisboa 2000, Casa Fernando Pessoa e P.E.N. Clube Português, 2000 - Tradução de Virgílio Alberto Vieira)