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24.1.11

GONÇALO M. TAVARES


CANTO II

94

Bloom passeia em Paris e vê coisas que o fazem pensar
noutras coisas.
Se até os tecidos ricos e a seda se reduzem a combinações
apenas mais estéticas dos nossos bem conhecidos
átomos sujos, para quê o espanto diante de Paris?
E até a catedral, a imponente catedral é, afinal de contas,
uma estaca, como toda a arquitectura,
uma estaca religiosa, bem enterrada no sítio certo, respeitada
e exigindo discursos mansos, mas estaca, sempre,
violentamente enterrada em Paris.

95
Toda a arquitectura é violência, portanto,
pensa Bloom.
Ao contrário dos animais rápidos, como o cavalo,
que não magoam a terra, apenas ganham impulso e avançam.
E há ainda as pedras. Falar em pedras preciosas, sim,
e por que não também em planetas preciosos,
ervas daninhas preciosas ou chimpanzés de luxo?
O que brilha mais de noite? Aquilo a que dás atenção
é o que mais brilha.
Sempre foi assim. E Bloom sabe-o bem.

[...]

106
Sim, é verdade que o comércio meteu a Natureza
em caixas com um preço. Mas tal não é terrível nem
sequer desagradável. Bem pior são certas crianças
que arrancam uma das patas a um sapo que teve o azar
de servir de objecto aos exercícios ingénuos de seres vivos
com seis anos. Entre ser vendida inteira
por comerciantes careiros ou ser fragmentada por crianças
que não sabem o valor do dinheiro, a Natureza
optará sempre pelo pacífico capitalismo.

107
Porque o capitalismo sabe que uma mercadoria
sem uma das patas vale menos:
por isso não arranca patas ou orelhas,
ou cabeças inteiras, à dentada. Mas se valesse mais até arrancavam
uma das patas da Torre Eiffel — exclamou Jean M.
Não te iludas com monumentos nem com cerimónias.
A estética terminou. Ficou o dinheiro.
Os homens são génios do bem para o ouro,
génios do mal para a paisagem.


(de Uma Viagem à Índia, editorial Caminho, 2010)

22.9.09

GONÇALO M. TAVARES

Poesia


Construíram uma prisão cujos limites exteriores eram redes onde, através da torção dos arames, se encontravam escritos alguns dos mais belos poemas dos principais poetas do país.
Essa rede de versos que contornava toda a prisão era eléctrica: quem a tocasse apanharia um choque mortal.

(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)

12.2.04

GONÇALO M. TAVARES

A vida humana é extraordinariamente feliz e infeliz. Os homens são extraordinariamente bons e maus. Não sou pessimista: não vejo o homem como uma bola orgânica má, apenas. Mas julgo que é um optimismo pouco lúcido, e até perigoso, considerar que os humanos são uma espécie de bonzinhos intermináveis. Foi o facto de os homens não estarem atentos à maldade dos outros e de si próprios que fez com que ocorressem uma série de tragédias no século em que a cultura atingiu o seu auge. Um carrasco pode citar Heraclito ou Shakespeare enquanto tortura.
É importante que a literatura, a poesia e as artes nunca esqueçam a maldade potencial de todos os homens. A função de desencantar, em que o Um Homem: Klaus Klump se insere, é uma espécie de agulha que incomoda constantemente, como quem diz: "Não te esqueças da tua maldade, ela anda por aí, algures, não te esqueças dela, localiza-a bem para a controlares, para evitares que ela venha à superfície." Temos de estar atentos: à maldade dos outros e também à nossa. Não é ser niilista nem um pessimista entediado com tudo, é apenas ligar a lucidez como se liga o botão da electricidade.

(de uma entrevista concedida a Maria João Cantinho, para a revista Os meus livros, número 18 - Janeiro de 2004)