Mostrar mensagens com a etiqueta Grega. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grega. Mostrar todas as mensagens

19.11.12

PARMÉNIDES


Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

... Pois pensar é o mesmo que existir.

(in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Portugália editora, 2010)

17.2.12

GIÁNNIS RITSOS


A POSTERIORI

Ao ponto a que as coisas chegaram, ninguém – dizemos – tem culpa. Um partiu;
o outro foi morto; os outros – como contá-los agora?
As estações mudam-se regularmente. Os loendros florescem.
A sombra move-se à volta da árvore. A bilha imóvel
ficou à torreira do sol, secou; a água foi-se. Contudo,
podíamos – diz ele – deslocar a bilha, para aqui, para ali,
conforme a hora, e a sombra, à volta da árvore,
girando até encontrarmos o ritmo, dançando, esquecendo
a bilha, a água, a sede – já sem sede, dançando.

20.V.68


(in Antologia, Selecção, Tradução e Prefácio de Custodio Magueijo, Fora do Texto, 1993)

2.9.11

GIÁNNIS RITSOS


O INSACIÁVEL


Insaciável a dar — algumas vezes, até, coisas
que não lhe pertenciam, — como aquela montanha, por exemplo,
cor de malva no crepúsculo, com árvores de esmeralda, gravada
em vapores doirados; ou a sombra da andorinha nas espigas,
ou a forquilha caída, à noite, frente à cancela do jardim,
ou cabelos da bela mulher no acto de dizer "não".
Quanto às suas coisas — quais suas coisas? — não ficava com nenhuma;
Mantinha-se do que dava. E quando, alguma vez,
já nada tinha, cerrava os olhos, esperando
inventar algo muito maior do que ele próprio, e dá-lo.
Precisamente então, sentia que ele era aquele.
22.V.69

(in Antologia, tradução de Custódio Magueijo, Fora do Texto, 1993)

5.7.11

PlTÁGORAS


Saberás ainda que os homens
livremente e por si próprios
escolhem os seus males.

Miseráveis que são, não sabem
nem ver nem entender os bens
à sua beira.
Poucos os que aprenderam a
libertar-se de seus males.


Tal é a sorte que perturba
os espíritos dos mortais
rolando em sentidos vários
acabrunhados por males sem fim.

Inata nos homens realmente
a aflitiva Discórdia os
acompanha e prejudica
sem que dela se apercebam.
Não a provoques antes foge
dela, cedendo.


(excertos de Versos de Ouro Que vulgarmente andam em nome de Pitágoras em vulgar traduzidos por J.[osé] B.[lanc de] P.[ortugal], Assírio & Alvim, 1988 - Assíria)

24.4.10

TASSOS DENEGRIS


NÃO SEI AFINAL O QUE DIZER


Quero falar sobre os laços
Da Primavera
A torrente das frustrações
Os fantasmas no túnel do sono
Nós na boca do lobo
O rio das mulheres
O rio dos corajosos.

Esta Primavera
Quebra-nos os ossos
E conduz à beira da loucura
Aqueles que aspiram
Ao mar
Como ideia como água
Como visão e glória.

Quero falar sobre os laços
Que se tornarão mais sensíveis
E insuportáveis
Com a chegada da Primavera ática.
22 de Novembro de 1971

(de A Outra Versão, tradução colectiva (Outubro de 1992), revista e apresentada por Fiama Hasse Pais Brandão com a colaboração de Nuno Júdice, Quetzal editores, 1994 - Poetas em Mateus)

30.3.10

ÍBICO

CANÇÃO DA PRIMAVERA
(Fr. 5, Page)


Na primavera florescem os marmeleiros
e as romãzeiras, regadas
pelas águas dos rios,
lá onde fica das Virgens o jardim imaculado,
e os gomos das videiras crescem sob os rebentos
umbrosos dos pâmpanos; mas a mim o Amor
não me dá estação alguma de descanso:
como o trácio Bóreas, deflagrando
com o trovão, soprando do lado de Cípria,
com loucura devastadora,
tenebroso e sem peias,
sacode de alto a baixo com força
o nosso coração.

(in Hélade – Antologia da Cultura Grega, organização e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, 10ª edição: Guimarães editores, 2009)

6.8.08

ELIAS SIMOPOULOS

SEIS DE AGOSTO

I
A Página Branca


Manhã alta. Fatigada cidade.
Calma a cidade.
Como em todas as tardes.
Nada anuncia
este inferno de fogo,
esta bárbara invasão do incêndio
que fica maior, incrivelmente maior,
depois da catástrofe.
A glória selvagem da noite iluminada
que em versos de lume
em versos de brilho maravilhoso
escreve o destino do mundo.

Hoje
seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
procuramos a página branca
de amanhã.


II
A Obra do Incêndio


Hiroshima está morta. Hiroshima
não existe. A obscuridade da tarde
estendeu crepes negros
sobre a terra transtornada
e as casas devoradas pelo incêndio.
Descansai, instrumentos do vento.
Descansai, mandíbulas do incêndio.
O vosso trabalho acabou.
Os homens, fantasmas incontroláveis,
morrem nas ruas em chamas
despedaçando o silêncio da noite
com seus gritos
de horror.
- Vento, salva-nos da destruição e do nada.
- Chuva, salva-nos dos dentes do incêndio.
- Fogo, salva-nos das sombras da noite.


III
A Lamentação do Mundo


Carpideiras, a vossa hora chegou de vez. A morte
não espera. A morte não espera. A morte.
Quem conduziu a morte à vossa porta?
Quem abriu este profundo tumulo em nosso coração?

Lamentações e incêndios extinguiram-se.
Já não existe a cidade.
Nas ruas os derradeiros vivos, fantasmas,
correm derramando gritos desarticulados,
marchando sobre
montanhas de cadáveres queimados
e troncos sem cabeças,
e há gemidos e queixas de crianças,
terríveis maldições de mães na
hora do parto, na hora da agonia,
notas inaudíveis da mais trágica lamentação
da história do mundo.


IV
Fim do Mundo


O mar transformado em rasca envia raios e relâmpagos.
O céu é tempestade e chuva de ferro e fogo.
A terra é um vulcão e vomita chumbo derretido.

Este é o sangue que bebemos
na taça da nossa miséria e onde nos embriagamos
no excessivo calor do mês de Agosto
que acende a nossa febre. As cerejeiras
floridas, cobertas de lâmpadas, iluminam
as mãos disseminadas dos órfãos.
As inumeráveis multidões de estrelas
olhando-nos com tristeza. As nuvens
dos pássaros vestidos de luto
cobrindo o céu, calando o angustioso pesadelo…
Ah! quem dissipasse tudo isto
quando vier o dia!

Mas se tudo isto não é loucura e sonho,
se tudo isto não é febre e embriaguez,
então em verdade chegou
a consumação do mundo.


V
A Mão


Verdadeiramente
ninguém perguntou
o que transformou a mão
que lançou a bomba
sobre Hiroshima?

Ela circula
perto de nós, nas ruas,
como todas as mãos
do mundo, trabalhando
a terra, escrevendo
versos, fazendo
o sinal da cruz,
acarinhando a fronte
da mãe, os cabelos
da amada, as faces
de veludo das crianças.

Ou está espreitando
na confusão da
noite, o dedo
no gatilho, pronta
a aniquilar o que
resta do incêndio
de Hiroshima?

Verdadeiramente
nunca pensastes
na hora em que apertais,
calorosamente, outra mão,
diante de todas as mãos
do mundo, nunca
pensastes na mão
que lançou a bomba
sobre Hiroshima?


VI
Nosso Grande Irmão


Robert Oppenheimer,
nosso grande irmão,
qual o anjo
que te assiste,
qual o demónio
que te escarnece,
enquanto, inclinado
sobre tuas equações
de múltiplas incógnitas
abrias a rota dos sputniks,
desenhavas as avenidas dos planetas
e sonhavas o amor
e sonhavas a paz
e gravavas sobre o parto da esperança
o luminoso futuro do mundo?

Mas o futuro do mundo
não se escreve
com línguas de fogo.
Não o sabias?
Por que não te lembravas
dos humildes pescadores
de Hiroshima? As cerejeiras floridas
nas margens da Primavera? Os sorrisos
das crianças? As raparigas
de corpos de cipreste
e de sobressaltos amorosos?

O amor não tem pátria.
O céu não tem pátria.
O sol não tem pátria.
O futuro do mundo está nos nossos corações.

Como te esquecias de tudo isto
enquanto, inclinado sobre as
tuas equações, de múltiplas
incógnitas, semeavas
a ruína em Hiroshima?


VII
A Vida Nova


Não quero chorar.
Eu cantarei
a Primavera triunfante,
que leva a nossa dor
para longe desta devastação
na hora do Inverno.

Não quero chorar.
Eu irei pelos campos ouvir
o belo poema da Primavera
no pensamento das rosas,
ouvir a voz do rio que
leva os barcos
com todos os contos de
fadas, que o avô contava,
com todos os sonhos da juventude.

Saúde e alegria para ti, Vida, que vens!
Saúde e alegria para ti, Vida, que trazes
à nossa casa a certeza e o sol
ao nosso coração. Um
mar sorri, para que nele afoguemos
nossa tristeza, e as estrelas
iluminarão, nas trevas,
os nossos sonhos.

No alto céu
cada um de nós colherá uma estrela.
Não somos agora
fantasmas da noite.
Porque todos os caminhos,
juncados de flores, nos conduzem
à região luminosa do Futuro.

(tradução de Jonas Negalha, in Mákua – antologia poética 5-6, publicações Imbondeiro, 1964)

25.5.06

[os animais que acompanham o melro de Stevens (aqui e aqui) no poema da entrada anterior]

HOMERO

(...)
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
até que o os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

"Eumeu, que coisa estranha que esse cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
se tem rapidez que condiga com o seu belo aspecto,
ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
que os príncipes alimentam somente pela sua figura."

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
"É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspecto e as capacidades que tinha
quando deixou Ulisses, ao partir para Tróia,
admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas está agora nesta desgraça: o dono morreu longe,
e as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhes dão ordens,
não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
quando chega para ele o dia da sua escravização."

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
e foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.

(excerto do canto XVII da Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, livros Cotovia, 2003)


WILLIAM BLAKE

The Tiger


TIGER, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water'd heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee?

Tiger, tiger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

[a propósito deste poema, aconselho o mais recente número (o 17, relativo a Outubro de 2005) da revista Relâmpago, da Fundação Luís Miguel Nava, onde se podem encontrar oito versões em português, devidamente comentadas por Manuel Portela]


D. H. LAWRENCE

Snake


A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,
To drink there.

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob-tree
I came down the steps with my pitcher
And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before
me.

He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom
And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of
the stone trough
And rested his throat upon the stone bottom,
i o And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,
He sipped with his straight mouth,
Softly drank through his straight gums, into his slack long body,
Silently.

Someone was before me at my water-trough,
And I, like a second comer, waiting.

He lifted his head from his drinking, as cattle do,
And looked at me vaguely, as drinking cattle do,
And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,
And stooped and drank a little more,
Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth
On the day of Sicilian July, with Etna smoking.
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

And voices in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

But must I confess how I liked him,
How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough
And depart peaceful, pacified, and thankless,
Into the burning bowels of this earth?

Was it cowardice, that I dared not kill him? Was it perversity, that I longed to talk to him? Was it humility, to feel so honoured?
I felt so honoured.

And yet those voices:
If you were not afraid, you would kill him!
And truly I was afraid, I was most afraid, But even so, honoured still more
That he should seek my hospitality
From out the dark door of the secret earth.

He drank enough
And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,
And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,
Seeming to lick his lips,
And looked around like a god, unseeing, into the air,
And slowly turned his head,
And slowly, very slowly, as if thrice adream,
Proceeded to draw his slow length curving round
And climb again the broken bank of my wall-face.

And as he put his head into that dreadful hole,
And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,
A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,
Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,
Overcame me now his back was turned.

I looked round, I put down my pitcher,
I picked up a clumsy log
And threw it at the water-trough with a clatter.

I think it did not hit him,
But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste.
Writhed like lightning, and was gone
Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,
At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

And immediately I regretted it.
I thought how paltry, how vulgar, what a mean act!
I despised myself and the voices of my accursed human education.

And I thought of the albatross
And I wished he would come back, my snake.

For he seemed to me again like a king,
Like a king in exile, uncrowned in the underworld,
Now due to be crowned again.

And so, I missed my chance with one of the lords
Of life.
And I have something to expiate:
A pettiness.

Taormina, 1923


RAINER MARIA RILKE

A pantera


De percorrer as grades o seu olhar cansou-se
e não retém mais nada lá no fundo,
como se a jaula de mil barras fosse
e além das barras não houvesse mundo.

O andar elástico dos passos fortes dentro
da ínfima espiral assim traçada
é uma dança da força em torno ao centro
de uma grande vontade atordoada.

Mas por vezes a cortina da pupila
ergue-se sem ruído - e uma imagem então
vai pelos membros em tensão tranquila
até desvanecer no coração.

(tradução de Vasco Graça Moura, em apêndice a Os Sonetos a Orfeu, Quetzal editores, 1994)


ANTÓNIO OSÓRIO

CAVALO


Um dia chegará
que alguém se mostre
agradecido e diga:
- Entre
e coma à nossa mesa.

(de A Raiz Afectuosa, 1972)


JORGE DE SENA

(...) mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me, nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

(últimas palavras de Homenagem ao Papagaio Verde, in Os Grão-Capitães (contos), 1976)


[O Elogio da Calvície é uma obra do bispo Sinésio de Cirene, traduzido por Manuel João Gomes, Autor do Almanaque dos Espelhos, ambos editados pela & etc]

1.3.06

[um poeta de quem não se pode celebrar a data de nascimento este ano]

YORGOS SEFERIS

NARRAÇÃO


Este homem caminha a chorar
ninguém sabe dizer porquê
às vezes pensam que são os amores perdidos
como aqueles que tanto nos atormentam
à beira-mar no verão com os gramofones.

A outra gente cuida dos seus trabalhos
papéis intermináveis crianças que crescem, mulheres
com dificuldades em envelhecer
ele tem dois olhos como papoilas
como primaveris papoilas cortadas
e duas pequenas fontes na cavidade dos olhos.

Caminha pelas estradas nunca se deita
galgando pequenos quadrados no dorso da terra
máquina de um tormento infindo
o qual acabou por não ter importância.

Alguns outros ouviram-no falar
sozinho enquanto passava
de espelhos quebrados anos antes
de figuras quebradas dentro dos espelhos
que já ninguém pode juntar.
Outros ouviram-no dizer do sono
imagens do horror no limiar do sono
rostos insuportáveis de ternura.

Habituámo-nos a ele bem arranjado e tranquilo
acontece apenas que caminha a chorar continuamente
como os salgueiros à beira do rio que vês do comboio
quando acordas mal disposto numa alba cheia de nuvens.

Habituámo-nos a ele não representa nada
como todas as coisas às quais vocês se habituaram
e falo-vos dele por porque não encontro
nada a que vocês não estejam habituados;
as minhas vénias.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis, in Poemas Escolhidos, Relógio d'Água, 1993 - original de Diário de Bordo I, 1940)

10.5.04

GIÁNNIS RITSOS

Tudo é mistério -
a sombra da pedra
a unha do pássaro
a dobadoira
a cadeira
o poema.

(tradução de Custódio Magueijo, in Antologia, Fora do Texto, 1993)

6.12.03

S. S. KHARKIANÁKIS

é bispo da Igreja Ortodoxa Grega de Sydney, Austrália.


Intensive care

A poesia, irmã, não é
Nem canção, nem reflexão.
Poesia é «cuidado intensivo»
Aplicado à criação em sangue
E sobretudo registo
De como a vida conduz à morte.


O cidadão de hoje

As relações com os semelhantes
Tornaram-se tão complicadas
Que as únicas actividades que não exigem conselho jurídico
São os desmaios, o enjoo e as lágrimas.


O humanismo das árvores

As árvores fiéis ficam onde as plantamos
Derrotam a inércia da morte
Absorvem a distância com uma constância sem falhas
Com todo o seu corpo bandeira rumorejante
Ralham aos bichos pelos seus
Movimentos sem rumo.


Antropocentrismo

O sagrado do mundo não está contido
Na história do Génesis
Pois ninguém a viveu
Nem estamos obrigados a cálculos devotos.
O sagrado do mundo é função
Duma dor vivida que não se pode registar
Num diário pessoal nem numa obra de arte
Pois não dispomos de instrumentos para tal.
O sagrado do mundo apercebi-o
Fitando o profundo olhar dum transeunte
Que ia sendo atropelado
Ao passar distraído na passadeira.

(in Di Versos, 6 - Outono de 2001 - tradução de Manuel Resende)