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31.3.17

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


12.

um triângulo escaleno recorta a paisagem
geometria perfeita entre o caos do mundo
que forma terei eu visto de onde estás?
e a nuvem que sobre ti passa?
e o vento que te atravessa?

somos as formas deformadas do universo
somos aberrações deambulando pelas ruas
repletos de verdades e de fórmulas
manifestando amiúde a falência dos teoremas
que em nome do pai do filho e do espírito santo
nos fazem supor vidas eternas
onde resta apenas tédio e comiseração

eis a minha forma deformada
sombra de gestos provindos de um fundo negro
a dizer: acredito nos homens
e na força das utopias
acredito nos horizontes que impelem à caminhada
para logo ao primeiro passo
tropeçarem no abismo
e das crenças e das utopias restar apenas
e tão-somente uma ideia vaga

mas tu manténs-te firme nos teus propósitos
és o aço que enfrenta as intempéries
na tua quietude vislumbro o ponto
onde fixar os olhos
assim evitando a vertigem que me afunda
no degredo interminável das teorias

triângulo escaleno da minha paisagem quotidiana
na tua área desenho o imo da minha solidão
e em cada aresta afio as pontas
que hão-de penetrar mortalmente a carne das horas



(de A Grua, volta d' mar, 2017)

24.7.10

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


O ENTALADO


O entalado estava bucho do gasganete. Tinha novelos de pasta colados à gargantilha, enrolados entre o estômago e o esófago, tão recheado de explosivo que, mais uma bolachinha de água e sal, e não haveria contentor que o retivesse.
O entalado estava carrapito da vida, ruborescendo bochecha a bochecha uma acutilante adjectivação. Não ponham o entalado ao mesmo nível da mordedura, não confundam o dente com a placa.
O entalado estava seriamente sério, levando-se a si para lá de tudo o que pudesse pô-lo em causa.
O entalado estava engasgado. Bem lhe queriam bater nas costas, bem lhe queriam, mas o pobre coitado, já com a úlcera a sair-lhe pelo nariz, não tinha costas. Ele era uma curvatura com as badanas no lugar dos pulmões. Não confundam corcunda com isto, ele era mesmo badanas no lugar dos pulmões.
O entalado estava engasgado e explodiu seriamente toda a sua seriedade, apontou o dedo mindinho tremendo de fúria, parecia um engalanado, parecia um engarrafamento na festa do chocolate, parecia um chocolate dietético, parecia um perlimpimpim suburbano, parecia uma infância arrependida, parecia uma coisa que não se parece com nada.
É preciso postar gravidade, sisudez e rectidão no inútil. É preciso levar na vida a sério o que se leva a brincar no poema. É preciso vida para o poema, isto é, é preciso poema para a vida, ou seja, é preciso mandar o poema à vida, não obstante também ser preciso mandar a vida ao poema.
Nenhum atacador surrealista poderá embelezar as botas salpicadas do entalado. Nenhum abraço, nenhum beijinho nas fauces, nenhuma simpática paciência. A verdade é que enquanto o inchaço não passar ao entalado, não passará a dor pelo crivo da vergonha. E quando a dor não passa pelo crivo da vergonha só duas possibilidades nos restam: pica-se a dor, alarga-se o crivo.
A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?


(de Estranhas Criaturas, Deriva editores, 2010)

26.7.09

Isto um tipo anda distraído com coisas sem importância e acaba por se esquecer do que realmente faz sentido:

o Henrique Fialho está de volta à blogolândia!