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17.7.09

ARJEN DUINKER

X


As esquinas estão nuas.
As palavras estão nuas.
Em Córdoba há uma esquina onde os homens mijam
Quando têm a barriga a rebentar da cerveja,
Gemendo de alívio,
De olhos semi-cerrados.

Em Lisboa há também uma esquina assim,
Nem o vento a chegar sobre o Tejo
Consegue limpá-la.
Parei para ver,
Surpreendido pela nudez daquela esquina.

De uma varanda alguém me gritou. «Estás à procura de quê?
Oh, rapaz, esta esquina é muito especial.
Cada ano cinco mortos! Olha bem
E volta para casa.
Volta para casa.»
A mulher pigarreou e mandou um escarro valente.
E eu, fugindo a sete pés,
Admirei-me da nudez daquela esquina.

(in A canção sublime de um talvez, selecção e tradução de Arie Pos, editorial Teorema, 2003 – original de Losse gedichen / Poemas soltos, 1990)

28.7.08

CEES NOOTEBOOM

ENGODO


A poesia não pode tratar de mim,
nem eu da poesia.
Estou só, o poema está só,
o resto é dos vermes.
Estava à beira das ruas onde moram as palavras,
livros, cartas, notícias,
e esperava.
Sempre esperei.

As palavras, em formas claras ou escuras,
transformaram-se em alguém escuro ou mais claro.
Poemas passam por mim
e reconheciam-se como coisa.
Via-o o via-me.

Esta escravidão não tem fim.
Esquadrões de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o engodo da sua forma
feita, perfeita, fechada,
concentrada e

intangível.

(in Um Mundo Claro, Um dia escuro – Oito Poetas Holandeses, tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves, Limiar, 1988 – Os olhos e a memória / original de Aas / Engodo, 1982)

30.8.06

CEES NOOTEBOOM

CAUDA


Olha para as coisas, vê-as
na sua inocência metafísica
incertas da sua existência.

Lembra-te da conversa
no caramanchão, um Verão nórdico,
hortênsias, a razão de uma rã,
rosas, mascaras.
Incenso sem igreja.

Uma borboleta a esvoaçar na China
rasga uma tempestade na Finlândia.
Alguém o disse; ficaste calado.
Era o que tu já sabias.

Quando é que as pinturas se desfazem
do pintor, quando é que a mesma matéria
se transforma noutra ideia? A bruma da tarde
passava pela relva, afogada a alameda, a fonte
e a casa.

Música, o chapinhar de remos,
alguém acende a luz, alguém
que não acredita na penumbra.
A pergunta sem resposta erra
pela janela.

(tradução de Arie Pos, in Poesia em Lisboa 2000, Casa Fernando Pessoa e PEN Clube Português, 2000)