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3.6.05

EUGÈNE IONESCO

Para se escrever, é preciso não se ter nada para fazer, não ter um romance, ou uma peça ou um ensaio, ou um discurso para escrever.
Escrevo porque não tenho de escrever. Não sou obrigado. Não escreverei quando começar a escrever a minha peça (que espero poder, ter tempo de, escrever).
Mas, neste momento, diante deste belo jardim, com esta bela cerca à volta ? como não tenho nada que escrever, escrevo... Escrevo.
Escreva, continue a escrever para enriquecer a língua francesa.
Eu não deveria gracejar. Mas deve gracejar-se, claro.
Podemos fazer gracejos amargos, doces, desagradáveis, agradáveis, cruéis, ternos, cor-de-rosa, negros, temíveis, tranquilizadores, delicados, indelicados, perversos, honestos, sentidos, malcheirosos, calmantes, exasperantes, tristes, alegres, salgados, sem sal, apimentados, melífluos, lisonjeiros, acerbos, banais, originais, doentios, saudáveis, ociosos, pedantes, aborrecidos, inquietantes, alucinantes, realistas, irreais, risonhos, corteses, descorteses, secos, sumarentos, nobres, burgueses, populares, truculentos, simplistas, tristes, dementes, petulantes, fora de moda, modernos, insignificantes, arejados, viciados, etc... etc...
Colocar por ordem. Se tiverem - e vocês têm - tempo a perder. Em vez de lerem Agatha Christie, por exemplo.

(in A Busca Intermitente, tradução de Manuel João Gomes, Difel, 1990)

19.10.04

EUGÈNE IONESCO

Sejamos vivos, estejamos presentes no instante como estávamos há dez anos, há vinte anos, há cinquenta anos, sessenta anos. O instante de há muito tempo não era nem mais longo nem mais curto que o instante de hoje.
Que verdade profunda a que se diz sobre La Palice: «Um quarto de hora antes da morte, ainda ele estava vivo.» Todos nós nos encontramos um quarto de hora ou não, um quarto de hora ou mais, antes da morte. Toodos vivemos em momentos tão longos, tão curtos, em tão numerosos instantes, tão numerosos instantes, inúmeros instantes...
Deitada, ao meu lado, lê. Serenamente. O meu amor não é irreal, o amor não é irreal. A vida do amor é de uma realidade irrefutável. Tenho agora a certeza de que o amor é eternamente irrefutável.

(in A Busca Intermitente, tradução de Manuel João Gomes, Difel, 1990)