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26.1.14

CARLO VITTORIO CATTANEO


PONTO DE INTERSECÇÃO

quando ressoa a flor de sombra
- arbusto às vezes ou charco sem confins -
escuto os passos dentro-fora
e no fulcro solar da lâmpada
rebenta a secretária (o azul expande-se
em corolas de branco: um enxame
terrível de canetas
sonha incestos de tinta e de palavras)

porque ninguém quererá arrancar-me a esta cadeira
se tu me chegas de raízes inominadas
e me confundes no dúplice reflexo
do teu sorriso da tua distância

água de monte escorre num fluir de objectos
para a cama abandonada gelo para o vazio
à janela — observo
espelho de mim cada cauto desfolhar-se
dentro-fora dos meus estratos de sombra
e o tormento de emergir antigo
com a geológica sageza de um menino

esmago o cigarro e agrumulam-se os passos
nestes muros marcados pela tua ausência
(aquele menino já morto a cada morte do mar
se ergue por vezes: é uma onda que volta a ferir)

na semente oculta da flor de sombra
as vozes corroem outra luz
quando a presa ria entre escolhos
inflamando a garganta de túrgidas invenções
- o sol dentro: fora um gotejar de sal:
a minha lâmpada amarela arrastada por azul tenaz

hoje que o pranto não paga
aquela aterrada sageza — nada mais resta
senão a poeira a ameaçar-te o rosto
e o reencontrar-te por trás de cada distância


(anexo a uma carta para Jorge de Sena, datada de «Roma, 9 de Maio de 1978», com tradução de Jorge Fazenda Lourenço, in Correspondência 1969-1978 - Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo, Guimarães editores, 2013 - original posteriormente incluído em Cronache e Palinsesti, 1980)

19.1.14

EUGENIO MONTALE


A VIDA oscila
entre o sublime e o imundo
com alguma propensão
para o segundo.
Saberemos mais acerca disso
depois das últimas eleições
que se farão lá em cima
ou lá em baixo ou em lugar algum
porque fomos já eleitos
todos nós
e quem o não foi
está bem melhor aqui em baixo
e quando se dá conta
é tarde demais
les jeux sont faits
diz o croupier pela última vez
e com a sua pá
vai varrendo as cartas.



(in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio Alvim, 2004 - original de Quaderno di quattro anni, 1978)

22.5.13

EUGENIO MONTALE


A ENGUIA

A enguia, a sereia
dos mares frios que deixa o Báltico
para chegar aos nossos mares,
aos nossos estuários, aos rios
que sobe em profundidade, sob a corrente adversa,
de ramo em ramo e depois
de cabelo em cabelo, adelgaçando-se,
cada vez mais dentro, cada vez mais no coração
da rocha, insinuando-se
nos sulcos do lodo até que um dia
a luz solta dos castanheiros
acende o seu vibrar deslizante em poças de água estagnada,
nas fossas que descem
das faldas dos Apeninos à Romagna;
a enguia, tocha, chicote,
flecha de Amor em terra
que só as nossas ravinas ou os secos
arroios pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
a alma verde que procura
vida nesse lugar onde apenas
morde a canícula e a desolação,
a centelha que diz
tudo começa quando tudo parece
fossilizar-se, tronco sepultado;
a íris breve, gémea
daquela que engastam os teus cílios
e fazes brilhar intacta entre os filhos
dos homens, imersos no teu lodo, serás tu capaz
de não a achar tua irmã?





(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 / original de La bufera ed altro, 1956)



JOSEPH BRODSKY 




Era uma noite ventosa, e ainda a minha retina não registara o que quer que fosse quando me acometeu uma sensação de absoluta felicidade: atingiu-me as narinas aquilo que sempre foi para mim o seu sinónimo, o cheiro a algas geladas. Para algumas pessoas, é a erva ou o feno acabado de ceifar; para outras, os perfumes natalícios das agulhas de conífera e das tangerinas. Para mim são as algas geladas — em parte devido às ressonâncias onomatopaicas da própria conjunção (em russo, as algas são um magnífico vodorosli), em parte por causa da ligeira incongruência e do oculto drama subaquático que essa ideia alberga. Há elementos em que nos reconhecemos; quando inalei aquele cheiro nos degraus da stazione, os dramas ocultos e as incongruências já eram havia muito o meu forte.
A atracção por esse cheiro deveria sem dúvida atribuir-se a uma infância passada nas margens do Báltico, pátria da sereia errante do poema de Montale. E, todavia, eu tinha as minhas dúvidas quanto a essa atribuição. Para começar, a infância não foi tão feliz como isso (as infâncias raramente o são, sendo antes uma escola de insegurança e desamor-próprio); e quanto ao Báltico, para escapar à parte que dele me cabe, só mesmo sendo uma enguia. De qualquer maneira, essa infância pouco tinha que a habilitasse a objecto de nostalgia. Sempre senti que a origem da atracção estava alhures, para lá das fronteiras da biografia, para lá da conformação genética de cada um — algures no nosso hipotálamo, que conserva as impressões dos nossos antepassados cordados sobre o seu domínio nativo — a recordação, por exemplo, do próprio ichthus que originou esta civilização. Se ele foi ou não um ichthus feliz, já é outra história.



( in Marca de Água, trad. Ana Luísa Faria, Publicações Dom Quixote, 1993)

23.2.12


PIER PAOLO PASOLINI


AOS ESTUDANTES GREGOS, DE REPENTE

Recordem-se, jovens vivos (não falo
aos mortos) que é jovem também
o tempo para vós. Aqui olham-vos
como velhos, os que têm a vossa consciência

e também a vossa idade. Um dia,
que para estes vossos irmãos é hoje,
sabereis também vós que o pior inimigo
que vos fere e vos mata é melhor

do que os que mandam neste cinzento
dia do futuro. Os Fascistas não tocam
a alma. Eu sei que no meu país
por vinte anos o tentaram: mas rapazes

e homens ficaram iguais aos de todos os séculos.
Matai-os, metei-os na prisão como
fazem eles. São poucos. Secam
e tornam a crescer como a grama.

O povo era o trigo que não morre.
Agora começa a morrer. Alguém
lhe tocou a sua alma. Rapazes e homens
vivem, selvagens, como num sonho.

São como loucos, não conhecem piedade,
giram, o rosto branco como renegados
por um pouco de riqueza e liberdade
que talvez quisessem mas que não ganharam.

Deram-lha, não de boa mente,
os velhos Antifascistas que são os autênticos Fascistas...
que são os líderes, da Aculturação e não só
tocam as almas mas também as sugam no Centro

como vampiros, deixando os corpos cobertos de sombra
e tísica branca, megeras com grandes cabeleiras de merda
com mais nenhum outro amor do que o do Motor,
porque não? que fazer do Sexo em liberdade?

… … … … … … … … … … … … … …

Amadurece nos campos, entre as pedras, o trigo
com o silêncio e o canto das cigarras:
é ali que nascem os filhos obedientes, os soldados
e os heróis como os de entre vós que estão mortos.



(in Pasolini, Poeta, [tradução,] apresentação e selecção de Manuel Simões, Plátano editora, 1978 – Sagitário Especial)

12.1.12


CESARE PAVESE


LENHA VERDE
(para o Massimo)

O homem imóvel tem à sua frente colinas na escuridão.
Enquanto estas colinas forem feitas de terra,
os camponeses terão de as cavar. Fita-as e não as vê,
como quem na cadeia fecha os olhos, completamente desperto.
O homem imóvel — esteve na cadeia — retoma amanhã
o trabalho com alguns camaradas. Esta noite está sozinho.

As colinas sabem-lhe a chuva: é o odor distante
que às vezes chegava à cadeia com o vento.
Às vezes chovia na cidade: o escancarar
do sangue e dos pulmões à liberdade da rua.
A cadeia absorvia a chuva, na cadeia a vida
não acabava, às vezes também filtrava o sol:
os camaradas esperavam e o futuro esperava.

Agora está sozinho. O odor insólito a terra
parece-lhe saído do seu próprio corpo, e recordações antigas
— ele conhece a terra — puxam-no para o solo,
para aquele solo verdadeiro. Não vale a pena pensar
que a enxada os camponeses enterram-na na terra
como num inimigo e que se odeiam de morte,
como tantos inimigos. Têm também uma alegria
os camponeses: aquele pedaço de terra amanhado.
Que importam os outros? Amanhã as colinas
estender-se-ão ao sol, cada um terá a sua.

Os camaradas não vivem nas colinas,
nasceram na cidade, onde em vez de erva
há carris. Às vezes também ele se esquece.
Mas o odor da terra que chega à cidade
já esqueceu os aldeões. É uma demorada carícia
que faz fechar os olhos e pensar nos camaradas
na cadeia, na longa cadeia que espera.


(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, livros Cotovia, 1997)

3.6.10

GIUSEPPE UNGARETTI


OS RIOS

Cottici, 16 de Agosto de 1916

Apego-me a esta esgarçada árvore
abandonada nesta ribanceira
que tem a languidez
de um circo
antes ou depois do espectáculo
e olho
a imóvel passagem
das nuvens sobre a lua

Esta manhã recostei-me
numa urna de água
e como uma relíquia
repousei

O Isonzo fluindo
alisava-me
como a um dos seus seixos

Levantei
os meus quatro ossos
e deslizei
como um acrobata
sobre a água

Acocorei-me
junto à minha roupa
suja de guerra
e como um beduíno
me curvei para receber
o sol

Este é o Isonzo
e aqui mais que nunca
me reconheci
dócil fibra
do universo

O meu suplício
surge quando
não me creio
em harmonia

Mas essas ocultas
mãos
que me modelam
ofertam-me
a rara
felicidade

Rememorei
as épocas
da minha vida

Estes são
os meus rios

Este é o Serchio
do qual retiram água
há quase dois mil anos
gente minha campesina
e meu pai e minha mãe

Este é o Nilo
que me viu
nascer e crescer
e arder de inocência
nas vastas planícies

Este é o Sena
em cujas águas turbulentas
me debati
até me reconhecer

Estes são os meus rios
lembrados no Isonzo

Esta é a minha nostalgia
que em cada um
se me transparece
agora que é de noite
e a minha vida me parece
uma corola
de trevas


(de Vida de um Homem (Escolha poética), tradução do italiano por Luís Pignatelli, Hiena editora, 1987 - colecção Cão Vagabundo)

11.4.09

CRISTINA CAMPO

RÁDONITZA
(Anúncio da Páscoa aos mortos)


Vento de primavera
translúcido como espada:
afasta do sépalo afiado
a corola carmesim que ainda treme,
como na alma o espírito,
o sangue da veia.
O inverno, oculta haste
que balouçou os desejos, assombrou as mortais hesitações,
decepada sem um grito;
a velhice interior decepa
da terrível vida.
Páscoa da incorrupção!
No vento de primavera
a antiga igreja indivisa
anuncia aos mortos que indivisa é a vida:
sobre as lápides dos túmulos
pousa os sépalos que ainda tremem
e no centro, no plexo, no coração,
lá onde está sepultado o Sol,
lá onde está sepultado o Dom,
o pequeno ovo carmesim do perene retorno,
do humilde, irreconhecível
transfigurado retorno.
Páscoa que libertas todas as culpas!
Paradoxal deserto
de um cemitério metropolitano
entre suavíssimas asas
de andorinhas e véus: quinto tom,
gritos de boiardos sem postura, a espada exposta
na celeste Cidade tomada,
que se cruza e enrola, oitavo tom,
- como à vivificante, venerável Cruz
do Arqueiro a rosa que ainda treme -
naquele tão terno lamento fúnebre:
Páscoa, memória eterna!

Patética, patrícia
morte da morte metropolitana
testemunhada por escassas e imóveis bonecas
da Corte asiática: carmesim, prata e ouro.
Pálpebras escavadas,
pálpebras afiadas,
olhares fixos, parados, empedrados
sobre os túmulos de cada lugar, cada memória, cada estirpe,
cada psique que morre.
Lenços enxugam furtivos
os cantos da boca que rega como sangue
o divino grito, as raízes carbonizadas da água
inexaurível da notícia tremenda:
Páscoa, memória eterna!

(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)

22.1.09

CARLO VITTORIO CATTANEO

Herberto
_______sobre uma pista de raízes queimadas nas cavernas
do metropolitano tenteaste os degraus
onde as grandes
flores da loucura emudeciam – a cada passo a casa
erguia-se tecendo tramas de corredores
no frio de quartos e janelas
escancaradas à negra fixidez dos sóis
entre os espelhos roídos pelos ventos de uma europa
que talvez fosse só juventude (o que mora
no alto é igual
ao que em baixo mora) – porém na confusa
medianidade da visão está o tributo
a cada conhecimento se se fecha o nó da dupla
solidão e cegos então cada coisa nos revela
o avesso como quando uma criança a ama
com o terror
que transforma a inocência em alegria
_______________________________quando o desconhecido
te invade os dias Herberto esquece o seu nome a comovida
obscuridade da mulher e os rostos cruzarão
sorrisos e ansiedade na rua de repente indecifráveis
porque o desconhecido é um muro onde não se filtra o amor
nem a ferocidade dos gestos quotidianos (como
um círculo de beleza em expansão uma luz que plasma
desertos onde pousa) e é festa de espinhos
um incêndio sacral assinalando a tua viagem com as cifras
menstruais já fim de uma infância perseguida
pelas visões – quem parte
deixa o corpo e entreabre a porta sobre as paisagens de sombra
até que se encante no ritmo a loucura encontrando
voz em cada meandro das fontes no meio das folhas
com olhos maternos de terra e os ossos se vistam
de um sólido nevoeiro porque a morte é uma ponte
batida pelos passos de quem ousou conhecer tensa para unir
a ferida de abismo que nos lacera por dentro (sem memória
de uma outra idade quando as mãos criavam palavras
para cada coisa desentranhada do silêncio de um tempo
ainda imóvel)
___________Herberto morremos e renascemos sós
não há companheiro que te possa vigiar o caminho
se o sono é um emaranhado de sarças pedras e vozes
enganadoras nem a mulher saberá decifrar os triunfos
da derrota – o viajante
estrangeiro voltará por entre os nomes esvaziados de cada vida
terá sílabas acesas por uma pasmada ternura
mas ninguém o escuta (o medo fecha
ao imprevisto as fendas mais secretas) e então surge
dura de ansioso amor a nova solidão e ao alto
dentro da casa irrompe como um vento a poesia


Roma, 1981

(de Três Solidões, versão portuguesa de “ilustres amigos” sobre uma tradução literal do Autor, Contexto, editora, 1982 – Cábulas de Navegação)

14.12.08

SANDRO PENNA

As Portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas;
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.

(in No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim, 2003 – original de Poemas Inéditos (1927-1955))

17.2.08

[Pretendo continuar #8. Morada nova, mas já agora completa-se a novena.]

CESARE PAVESE

MULHERES APAIXONADAS


As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.

As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se a mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam de se à vista de todos, na toalha em desordem.

Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo tremulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.

Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.

(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 1997)

3.2.08

EUGENIO MONTALE

CARNAVAL DE GERTI


Se a roda se embaraça no rolo
das serpentinas e o cavalo
se empina na comprimida multidão, se neva nos
teus cabelos e nas tuas mãos um longo arrepio
de fugazes íris ou as crianças elevam
as plangentes ocarinas que saúdam
a tua viagem e os ecos ligeiros caem em lascas
da ponte abaixo sobre o rio,
se a rua se despovoa e te conduz
a um mundo insuflado numa trémula
bolha de ar e de luz onde o sol
saúda a tua graça - talvez tenhas
reencontrado o caminho que tentou um instante
o chumbo derretido à meia-noite quando
acabou o ano tranquilo e sem foguetes.

E agora queres acabar onde um filtro
despoja os sons
e deles faz sair os sorridentes e acres
fumos que compõem o teu amanhã:
agora pedes uma terra onde os onagros
mordem cubos de açúcar nas tuas mãos
e as atarracadas árvores despontam rebentos
miraculosos no bico dos pavões.

(Oh o teu Carnaval será ainda mais triste
esta noite do que o meu, prisioneira entre as prendas
para os ausentes: carrinhos de licores
coloridos, fantoches e arcabuzes,
bolas de borracha, liliputianos
utensílios de cozinha: a urna destinava-as
a cada um dos amigos distantes na hora
em que Janeiro se entreabria e no silêncio
se cumpria o sortilégio. É já Carnaval
ou é Dezembro que se atrasa ainda? Penso
que se moves o ponteiro do pequeno
relógio que usas no pulso, tudo
parará num decomposto prisma
babélico de formas e de cores...)

E o Natal virá e o Ano Novo
que esvazia as casernas e te traz
os amigos dispersos, e também este Carnaval
voltará, ele que agora nos foge
através das paredes que se fendem já. Pedes
para parar o tempo na terra
que em redor se dilata? As grandes asas
sarapintadas afloram-te, os alpendres
suspendem ao ar livre frágeis bonecas
louras, vivas, as pás dos moinhos
rodam fixas sobre as poças gárrulas.
Pedes para suster os sinos
de prata sobre o burgo e o som rouco
das pombas? Pedes as manhãs
trepidantes das tuas praias longínquas?

Como tudo se torna estranho e difícil,
como tudo é impossível, dizes tu.
A tua vida é aqui em baixo onde retumbam
as rodas dos furgões sem descanso
e nada volta se não talvez nestes
sacões do possível. Regressa
até junto dos mortos brinquedos onde a morte porém
não existe; e com o bater do tempo
no teu pulso entrega-te de novo à existência,
entre as paredes pesadas que não se abrem
ao abismo fatigado dos humanos,
regressa ao caminho onde contigo me entristeço,
àquele que apontou um chumbo seco
às minhas, às tuas noites:
volta às primaveras que não florescem.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 – documenta poetica. Original de Le occasioni / As ocasiões, 1939)

1.11.07

[evocando todos os santos]

CRISTINA CAMPO

MISSA ROMANA

I

Inerme como nenhum lírio
no luminoso
sudário
sobe o Calvário
teologal
penetra na sarça
ela crepita há milénios
sempre oculta
na odorosa nuvem da língua.

Curvado por terríveis
ventos
beija em silêncio sagradas feridas
eleva, mostra
puras mãos trespassadas
mendiga paz
entre polegar e indicador
um fio sobre o abismo do Verbo mantém.

Da ossada dos mártires
trituração de alegria
cresce
a raiz de Jessé
desabrocha no cálice abrasado
e na branca lua
onde se cruzam o sangue e
o estandarte
surgindo vacilam seus
joelhos.

Sobre a pedra angular
que estilhaça a morte
eleva-a à altura das lágrimas
e repousa-a
com materno terror
sobre estigmas, esses lábios
que curam
a vida.

Em torno ao pasto
mortal
nas orlas de Deus
silvam serpentes mordem o corporal
nos quatro ângulos do conopeu
retraem-se as folhas
dos céus
fendas danificam os pilares.

Assediados
à porta
marcados pelo cheiro da peste
fingem e vendem com gracejos
a enfermos e disformes
da probática
pia
a sua suave máscara de suplicio.


II

Falcoeiro do Céu
sobre cuja mão levantada
o Eterno Predador investe
ávido de prisões...


III

Onde vai
este Cordeiro
que aos virgens é dado
seguir onde quer que vá
este Cordeiro
que está direito e morto
sobre o livro dos assinalados
ab origine
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se permanecer
inocente.

Onde vai
este Cordeiro
que a nós que o supliciamos não é dado
seguir com os assinalados
nem fugir
mas soluçando suavemente conceber
no escuro seio da mente
usque ad consummationem
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se morrer
inocente.

(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução e prefacio de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

17.2.07

SALVATORE QUASIMODO

NA FORTALEZA DE BÉRGAMO ALTA


Ouviste o grito do galo no ar
além das muradas, além das torres
gélidas de um dia que ignoravas,
grito fulmíneo de vida, e o ciciar
de vozes dentro das celas, e o chamar
de pássaro da ronda antes da alva.
E não pronunciaste palavras para ti:
estavas já no círculo estreito:
e silenciaram o antílope e a garça
perdidos num sopro de fumo maligno,
talismãs de um mundo apenas despertado.
E passava a lua de fevereiro
Aberta sobre a terra, mas em ti forma
De memória, atenta ao teu silêncio
Também tu entre os ciprestes da Fortaleza
ora vás sem rumor; e aqui a ira
se aquieta ao verde dos jovens mortos,
e a piedade distante é quase alegria.

(in Poesias Escolhidas, tradução de Sílvio Castro, editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973 - original de Giorno dopo Giorno, 1947)

18.7.06

[outros melros XXXIX]

EUGENIO MONTALE

AO MEU GRILO


Que diria o meu grilo
disse Gina observando o melro
que debica larvas e lagartas nos vasos
de flores da varanda e suja tudo.
Mas o mais engraçado é que o grilo eras tu
enquanto foste viva e poucos o sabiam.
Tu sem olhinhos de alfinete de que tenho
um duplo, um verdadeiro insecto de celulóide
com duas bolinhas que seriam os olhos,
dois pistilos e nos olha de uma cómoda.
Que diria o grilo de então do seu sósia
e do melro? É por causa dela que aqui estou
diz Gina e enxota com a vassoura o maroto do melro.
Depois sobem-se os primeiros taipais. E é dia.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 - original de Diário de 71 e 72, 1973)

17.7.05

TONINO GUERRA

EM ESPECIAL AOS DOMINGOS


Em especial aos domingos
quando ninguém está em casa
aí por finais de Junho
subo então ao terraço
para perceber além dos muros
a cidade silenciosa.

(de Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poética)

31.8.04

[parto amanhã a caminho de Santiago de Compostela, como peregrino]

DANTE ALIGHIERI

(...)
Então um lume a nós se aproximou
da esfera onde saíra essa primícia
que Cristo por vigário nos deixou;
e a minha dama cheia de letícia,
me disse: «Mira, mira: eis o varão
por quem na terra se vai ver Galícia.»
(...)

(excerto do Canto XXV de Paraíso, in A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura, 2ª ed.: Bertrand, 1996)

19.3.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

RAINER MARIA RILKE

XXI


Frühling ist wiedergekommen. Die Erde
ist wie ein Kind, daß Gedichte weiß,
viele, o viele... Für die Beschwerde
langen Lernens bekommt sie den Preis.

Streng war ihr Lehrer. Wir mochten das Weiße
an dem Barte des alten Manns.
Nun, wie das Grüne, das Blaue heiße,
dürfen wir fragen: sie kanns, sie kanns!

Erde, die Frei hat, du glückliche, spiele
nun mit den Kindern. Wir wollen dich fangen,
fröhliche Erde. Dem Frohsten gelingts.

O, was der Lehrer sie lehrte, das Viele,
und was gedruckt steht in Wurzeln und langen
schwierigen Stämmen: sie singts, singts!


XXI

Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos... Po aquele esforço
de longo estudo vai receber um prémio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co'as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!

(de Sonetos a Orfeu - tradução de Paulo Quintela)


RONSARD

Ciel, air et vents, plains et monts découverts,
Tertres vineux et forêts verdoyantes,
Rivages torts et sources ondoyantes,
Taillis rasés et vous bocages verts,

Antres moussus à demi-front ouverts,
Prés, boutons, fleurs et herbes roussoyantes,
Vallons bossus et plages blondoyantes,
Et vous rochers, les hôtes de mes vers,

Puis qu'au partir, rongé de soin et d'ire,
A ce bel oeil Adieu je n'ai su dire,
Qui près et loin me détient en émoi,

Je vous supplie, Ciel, air, vents, monts et plaines,
Taillis, forêts, rivages et fontaines,
Antres, prés, fleurs, dites-le-lui pour moi.


Céu, ar e vento e montes descobertos,
plainos, vinha em socalcos, verdejantes
bosques, nascente e margens ondulantes,
verde ribeiro e vós, matos desertos,

antros de musgo em meia frente abertos,
prado, ervas, flores, de orvalho radiantes,
côncavos vales, praias dardejantes,
rochedos a meu verso abrigos certos,

pois roído ao partir de ira e cuidar,
adeus dizer não soube ao belo olhar
que perto e longe me comove assim,

vos rogo, céu, ar, ventos, plainos, montes,
matos, florestas, margens, antros, fontes,
prados e flores, que lho digais por mim.

(tradução de Vasco Graça Moura)


GARCILASO DE LA VEGA

XXIII

En tanto que de rosa y azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto
enciende el corazón y lo refrena;

y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto,
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena;

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto, antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre.

Marchitará la rosa el viento helado,
todo lo mudará la edad ligera,
por no hacer mudanza en su costumbre.


XXIII

Enquanto que de rosa e açucena
se revela o matiz no vosso gesto,
e que o vosso olhar ardente, honesto,
o coração inflama e o serena;

e enquanto esse cabelo, que na plena
veia de ouro se escolheu, em voo lesto
no alvo colo, formoso e manifesto,
o vento move, esparge e desordena:

colhei da vossa alegre primavera
o doce fruto, antes que o tempo irado
cubra de neve o deslumbrante cume.

Fará murchar a rosa o ar gelado,
tudo a idade irá mudar, severa,
p'ra não fazer mudança em seu costume.

(tradução de José Bento)


DANTE ALIGHIERI

Io mi senti' svegliar dentro a lo core
un spirito amoroso che dormia:
e poi vidi venir da lungi Amore
allegro sì, che appena il conoscia,

dicendo: «Or pensa pur di farmi onore»;
e ciascuna parola sua ridia.
E poco stando meco il mio segnore,
guardando in quella parte onde venia,

io vidi monna Vanna e monna Bice
venir invêr lo loco là ov'io era,
l'una appresso de l'altra maraviglia;

e sì come la mente mi ridice,
Amor mi disse: «Quell'è Primavera,
e quell'ha nome Amor, sì mi somiglia».


Senti que despertava no meu peito
um espírito amoroso que dormia:
vi vir Amor de longe a mim direito,
e assim tão ledo mal o conhecia,

dizendo "Pensa pois render-me preito";
e palavra a palavra Amor se ria.
E estando então com um senhor, espreito
pouco depois pra lá donde saía

senhora Vanna vi, senhora Bice
que vinham ao lugar aonde eu era,
maravilha uma a outra assim unida;

e tal como se a mente o repetisse
Amor me disse: "Aquela é Primavera,
e Amor se chama a outra a mim parecida."

(de Vita Nuova - tradução de Vasco Graça Moura)

15.3.04

[outros melros XV]

TONINO GUERRA

CANTO DÉCIMO OITAVO


Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola, nós o esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.

Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
e fingimos deslocar nossas cadeiras.

(de O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003 - documenta poetica)

23.12.03

[parece-me que o Rui Manuel Amaral quer ler este texto...]

JORGE DE SENA

1888 E A POESIA


Em 1888 nasceram três grandes poetas, glórias da língua italiana, da língua portuguesa e da língua inglesa: a 8 de Fevereiro, em Alexandria, Egipto, Giuseppe Ungaretti; a 13 de Junho, em Lisboa, Fernando Pessoa; a 26 de Setembro, em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, T. S. Eliot. A poesia das suas respectivas línguas e a poesia universal só por equívoco continuaram a ser as mesmas depois da revolução expressiva que cada um deles efectuou. E sem dúvida que Pessoa, se vivo fosse, conheceria este ano uma consagração gloriosa como a que os países anglo-saxónicos estão tributando a T. S. Eliot, e como a que não sei se a Itália terá tributado a quem é hoje o seu maior poeta vivo. Altos espíritos, para nenhum deles a poesia foi um dom gratuito dos deuses, mas uma atenção, uma coragem, um desassombro. Críticos lúcidos, influíram poderosamente no pensamento estético do seu tempo, e com eles, como com outros que os precederam ou seguiram de pouco, sofre um golpe mortal a concepção romântica da poesia como devaneio sentimental. São, em que pese a crítica, poetas da inteligência, da emoção dilucidada, da acuidade expressiva. Não são artistas do verso - que os houve sempre demais, e mesmo entre os românticos -, mas artistas da criação poética, da poesia como conhecimento e apreensão profunda. Homens de expressão exacta, densa oblíqua, ultrapassaram simultâneamente a ambiguidade simbolista, que a todos marcou, e a imprecisão romântica, a que todos fugiram. E, sobretudo, liquidaram o arsenal de convenções temáticas, imagísticas e linguísticas da mediocridade poética, expondo-o no pelourinho da secura irónica ou da severidade ascética da expressão. Pessoa não necessita de ser relembrado em seus versos, pois que, depois de Camões, nenhum poeta português conheceu, como a sua obra está conhecendo, um tão autêntico e tão vasto prestígio. Mas de Eliot e Ungaretti, menos conhecidos entre nós, até por menos difundidas as suas línguas que o espanhol ou o francês, há que lembrá-los por poemas seus. A seguir encontrará o leitor a tradução, que fiz, de dois dos mais célebres poemas e dos mais característicos de uma certa maneira de cada um: O «Boston Evening Transcript», de T. S. Eliot, Io Sono uma Creatura, de G. Ungaretti.

O «BOSTON EVENING TRANSCRIPT»
de T. S. Eliot

Os leitores do Boston Evening Transcript
Curvam-se ao vento como seara madura.

Quando a tarde se apressa um pouco na rua
Despertando apetites de vida em alguns
E a outros trazendo o Boston Evening Transcript,
Eu subo as escadas, toco a campainha,
Voltando-me cansado, como que se voltaria para acenar adeus a Rochefoucauld,
Se a rua fosse tempo e ele no fim da rua,
E digo: - Prima Henriqueta, aqui está o Boston Evening Transcript.

(Prufrock and Other Observations, 1917)


SOU UMA CRIATURA
de G. Ungaretti

Como esta pedra
do S. Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada
como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo.

(Allegria di Naufragi, 1919)

(de O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios, edições Asa, 1994 - originalmente publicado em Gazeta Musical e de todas as artes, Ano IX, 3ª série, nº 91/92 de Outubro/Novembro de 1958)

6.9.03

GIACOMO LEOPARDI

Nasceu em Recanati, em 1798.
Filho de uma família da alta nobreza, , recebeu uma riquíssima educação desde tenra idade, à custa, no entanto, de uma situação de dolorosa clausura, motivada pela austeridade e disciplina maternas. Rapidamente os seus mestres eclesiásticos são dispensados, pois Giacomo revela-se brilhante ao ponto de os superar. Antes dos 15 anos já dominava as principais línguas modernas - francês, inglês e espanhol - , as clássicas e ainda o árabe, o hebraico e o sânscrito.
Começou a compôr o essencial da sua obra por volta dos 20 anos e é considerado um dos mais importantes poetas italianos a par de Dante e Petrarca.
Morreu em Nápoles, em 1837.


A Si Mesmo

Repousa para sempre,
exausto coração. Morto é o engano extremo
que eu supusera eterno. É morto. E sinto
que em nós de enganos caros
a mais da esp?rança, o desejar é extinto.
Repousa. Já bastante
hás palpitado. Coisa alguma vale
o teu bater, nem de saudade é digna
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; a lama é o mundo.
Quieto, pois. Desespera
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Ora despreza
a natureza, o triste
brutal poder que contra nós impera,
e o infinito vácuo do que existe.

(Tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 séculos, 3ª ed: edições Asa, 2001)


Scherzo

Um menino inda eu era,
Com as Musas entrei em disciplina;
Uma delas pegou na minha mão,
E em todo aquele dia
Assim me conduzia
Em visita à oficina.
Mostrou-me parte a parte,
As ferramentas da arte
E os serviços diversos
P'ra que cada, a rigor,
Se emprega no lavor
Das prosas e dos versos.
Eu olhava e inquiria:
«Musa, a lima onde está?» E eis me dizia:
«Gastou-se, a lima; agora, andem sem ela.»
E eu: «Mas de a arranjar
Não cuidais - ajuntei - quando está cega?»
Volveu-me: «Sim; mas tempo - esse, não chega.»

(tradução de Pedro da Silveira, in Mesa de Amigos, Direcção Regional dos Assuntos Culturas dos Açores, 1986 - há uma reedição recente, revista aumentada, da Assírio & Alvim)


À Lua

Lembro-me, ó graciosa lua,
Que há um ano, sobre esta colina,
Cheio de angústia, eu vinha contemplar-te:
E tu pendias então sobre a floresta
Como fazes agora, iluminando-a por completo.
Mas velado e trémulo do pranto
Que me assomava aos olhos o teu rosto
Me parecia, que laboriosa
Era a minha vida: e ainda o é, nem muda de feição,
Ó minha amada lua. E todavia faz-me bem
Esta lembrança e o contar a idade
Da minha dor. Oh!, como é doce,
No tempo da juventude, quando ainda longo
É o curso da esperança, breve o da memória,
A lembrança das passadas coisas,
Embora triste e embora as fadigas durem!

(de Cantos, apresentação, selecção, notas e tradução de Albano Martins, prefácio de João Bigotte Chorão e acompanhado de uma pintura de Armando Alves, Vega, s/d)


O Infinito

Sempre gratas me foram esta colina tão só
E esta sebe alta e extensa
Que não deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináveis espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.

(tradução de Ernesto Sampaio, in Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2001)