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28.8.11

IVAN LAUCIK


ANOTAÇÃO DE FIM DE TARDE


Nada importa, dizem-te pela manhã:
E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

Resiste, entretém os peixes,
canta-lhes em voz alta sobre a ponte...
Os momentos de alegria quase te envergonham:
As distâncias convenientes, relação de altura e profundidade,
os invernos curtos, vento em conta para os moinhos -
e um tempo longo coberto
de ornamentos de ferro!
(Os livros de Lógica estão gastos
pelas mãos e pelo suor!)

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:
O futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,
capazes de aterrar na palma da mão.
(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos
a separar-se o comestível do que não presta.

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.
Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

Assim os incrédulos valorizam a fé.
Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.
Os vivos sabem
que tudo importa
desde manhã.


(de Mobilis in mobile, tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)

20.9.10

IVAN LAUCIK


ATÉ ÀS GRUTAS


Respirar
nos socalcos dos rochedos,
à noite.
No átrio de ar frio,
fosforescente de brilho intocável.

Entrámos pelos portões desfeitos.
É mais do que um toque,
mais do que um rito.

Tremor
de si próprio?
No silêncio do espaço da chuva
a luz desnuda-se até ao fio
e esfuma-se na claridade.

Descemos pelos filamentos de vidro
que se ramificavam como as asas das crónicas.

Êxtase puro, profundo.
Polpa de silêncio invernal
explodindo na camada de movimento
através de sons.
Noite plena de imagens
no fluir do olhar.

Levámo-las connosco?
Essas estrelas negras que rodam?
A dolorosa persistência da língua?
Fendas de calor nas paredes,
bocas cheias de terra.
E na luz frágil: vermes?
Chama branca e violácea?

Movimento
solto de si próprio.
Simples fios
capazes de florir na noite.


(de Mobilis in mobile , tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)